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domingo, 17 de janeiro de 2016
AS CONEXÕES IMPREVISÍVEIS DA VIDA E BLOGS NOTÁVEIS
Olá, colegas! Espero que estejam todos bem. Minha estada na Tailândia que deveria durar duas semanas já passa de um mês e ainda devo ficar mais algumas semanas. Muito bom estar por aqui. Neste artigo, entretanto, escrevo sobre como um comentário de um Anônimo, que se identificou como Victor, fez-me revisitar alguns estudos, ler muitos outros e criar um contato muito maior com blogs realmente notáveis.
Na magnífica cidade histórica de Sukhothai (primeira capital do que se pode chamar culturalmente de Tailândia há 700 anos). O espetacular Buda leva o nome de "Subduing Maya". Mais explicações abaixo
Isso é muito interessante mesmo. Como um comentário em uma postagem pode ser o catalisador de algo bacana. A vida muitas vezes, talvez na maioria das situações, opera por “caminhos misteriosos”. É simplesmente impossível saber o que vai ou pode ocorrer com nossas vidas, e o controle é simplesmente uma ilusão, algo maravilhosamente retratado na cena do acidente da bailarina no estupendo filme “ O Curioso Caso de Benjamim Button”. A mesma temática é mostrada de forma muito assaz no filme “Instinto" com Antony Hopkins. A cena dele ameaçando tirar a vida de um psiquiatra se o mesmo não respondesse qual ilusão ele tinha acabado de perder é fantástica. O conceito de Ilusão - Maya - é central para o Budismo e qual não foi a minha surpresa ao ver um shopping luxuoso com nome de Maya na cidade onde atualmente estou no norte da Tailândia: Chiang Mai. Não deixa de ser interessante colocar um nome como esse em um dos lugares que mais promove a ilusão no mundo contemporâneo.
Esse filme tem uma cena sublime (sempre me emociono), quando ele é capturado no meio dos Gorilas e um deles morre.
Esse é um belo filme. Há muitas cenas interessantíssimas. Uma das que mais me fazem refletir é a da cena do acidente e a cadeia de eventos completamente fora de controle que levou ao incidente. Uma reflexão bem parecida é feita no clássico livro "A Insustentável Leveza do Ser".
Outro anônimo, o qual eu agradeço também, enviou link para ver o famoso discurso de Jobs para os formandos de uma universidade de ponta nos EUA. O discurso é simplesmente brilhante. Muitas das falas me chamaram a atenção. Uma delas é quando Jobs disse que largou o curso regular na faculdade, pois custava muito dinheiro, e a poupança dos seus pais adotivos (eu não sabia que ele era adotado) estava sendo dilapidada por algo que ele não conseguia ver sentido. Ele começou então a literalmente “zanzar" pela universidade fazendo alguns cursos gratuitos. Um deles foi de Caligrafia. Sim, o gênio que revolucionou a forma como relacionamos uns com os outros no mundo moderno fez um curso de Caligrafia. Ele disse no discurso que algo que aparentemente não tinha qualquer relação, ou algo “útil" na vida prática moderna, foi o que mostrou para ele a importância da beleza e da estética. Foi por causa disso que ele se tornou tão obcecado com a aparência estética dos dispositivos da Apple, o que viria a revolucionar a informática e muitas outras coisas.
Pensem sobre isso, colegas leitores. O Design de seu smartphone, se eventualmente você possui um, talvez tenha ocorrido porque uma pessoa fez um curso de Caligrafia. Logo, é simplesmente impossível saber as consequências ou relações do que eventuais eventos em nossas vidas podem ter no futuro. Desconfie de pessoas que ridicularizam a teoria ou práticas “não muito úteis” (na perspectiva única e pessoal delas) dando uma ênfase quase que absoluta à “prática" (seja lá o que essas pessoas possam definir o que seja “prática”). Se, enquanto espécie, dependêssemos delas, teríamos uma vida muito, mais muito mais pobre em todos os sentidos. Não teríamos, com absoluta certeza, alcançado o desenvolvimento científico, tecnológico, cultural e humano que temos hoje em dia.
Assim, de uma maneira quase “serendiptosa”, um simples comentário de um anônimo me levou a leitura de dezenas de artigos, a feitura de diversos textos (em processo de escrita) e a criação de um novo blog (em construção com a ajuda do colega Estagiário). “Ok, Soul, sobre o que foi esse comentário, foi sobre o sentido da vida ou se há vida após a morte?”. Há uma cena que acho muito engraçada no filme “A Vida Secreta de Walter Mitty”. Como dizem os americanos “to make a long story short”, o filme tem como enredo a busca desesperada do protagonista na procura de um negativo de uma foto que deveria ser supostamente a última capa da edição impressa da revista Life. Depois de muitas aventuras em volta do mundo, numa busca que se torna interior também, Walter Mitt descobre o negativo. Como a empresa está fazendo downsizing, ou seja despedindo quase todo mundo, há uma cena no elevador onde um dos seus companheiros de trabalho pergunta sobre o que tinha ma foto “Era por acaso a imagem do Pé-Grande ou do Mostro do Lago Ness?” querendo significar que uma busca tão intensa por algo, esse algo só pode ser uma coisa “grandiosa”. Fiz essa breve digressão apenas para que a pergunta de um leitor imaginário pudesse ser melhor entendida e para que assim pudesse ser um pouco engraçado. Aliás, o humor é essencial para que uma sociedade se mantenha saudável. Os Judeus faziam piada até mesmo sobre o seu destino trágico no holocausto conduzido pelos Alemães. Uma sociedade que perde a capacidade de ter humor ou que se ofende facilmente com brincadeiras sobre suas instituições, moralidade, religião, ética, etc, é um agrupamento humano com uma grande propensão a uma vida pior. Isso, evidentemente, também vale para indivíduos.
Cena do filme onde Walter Mitty descobre que há um negativo faltando na presença de seu colega de trabalho. Será que o comentário que aludo nesse artigo foi sobre algo extraordinário na vida?
Não, o comentário não foi sobre a Teoria M (que tenta unificar os campos da gravitação e física quântica, o Holy Graal da física contemporânea), ou sobre como gerar Alpha (o sonho de qualquer investidor), mas foi simplesmente a indicação de um blog americano chamado Brave New Life.
Eu irei, muito provavelmente no meu novo blog, falar muito sobre esse Blog e mais outros dois, principalmente focar nas diversas questões interessantes que eles abordam. Na bem da verdade, muitos dos temas ali tratados já foram objeto de reflexões aqui nesse espaço, mas é inegável que os blogs em questão falam de forma muito mais direta sobre assuntos de muito interesse a todos investidores amadores, cidadãos e seres humanos preocupados com a sua posição no mundo em geral.
O mais antigo chama-se Early Retirement Extreme, também conhecido pele acrônimo ERE. Como o nome diz, trata-se de independência financeira de forma muito rápida. O autor arrepende-se um pouco de ter colocado o termo “retirement” (aposentadoria), pela conotação que a palavra representa na sociedade. As palavras e os sentidos que elas tem em um determinado agrupamento humano contam e muito. É uma área do conhecimento humano que gosto bastante, mas não irei me estender aqui. O blog iniciou-se em 2007 e é um dos pioneiro no assunto na internet. O autor, Jacob, é um Dinamarquês que mora nos EUA, se entendi corretamente, que largou a profissão de físico profissional e hoje em dia vive financeiramente independente vivendo com menos de U$ 10.000,00 por ano.
O autor do Blog escreveu um livro. Pretendo lê-lo quando tiver oportunidade;
O Blog indicado pelo comentário é o Brave New Life. É a história de um engenheiro e a sua jornada de auto-conhecimento que o levou de forma sistemática a desistir de um emprego de U$ 170.000,00 anuais (sim R$ 700.000,00 por ano) para viver com sua família de dois filhos com um orçamento em torno de U$ 30.000,00 anuais. O interessante é que a história dele em muitos aspectos se assemelha a minha. Ele tem 35 anos, durante os primeiros 10 anos de sua vida profissional teve uma alta taxa de poupança (muito semelhante a minha) sem saber muito o que fazer com isso, até que uns cinco anos atrás a ficha de muitas coisas começou a cair e a sua compreensão do mundo, sua vida, e o que ele realmente acha uma boa vida alargou-se de uma forma fantástica.
Por fim, o terceiro blog é o já clássico MMM, ou também carinhosamente conhecido como Mr. Money Mustache. Ele se “aposentou" com 30 anos de idade, como ele está atualmente com 40 anos, há uma década ele goza de independência financeira. A forma dele abordar diversas questões é simplesmente fantástica. Ele, se não me engano, trabalhou como Engenheiro, exatamente como o Brave New Life. Há artigos muito interessantes. A forma como ele discorre sobre a Taxa Segura de Retirada é muito boa mesmo. O artigo que ele trata sobre Margem de Segurança, e suas diversas camadas protetivas, é como eu vejo a questão de independência financeira em meus modelos mentais, mas ele conseguiu traduzir isso em palavras, o que foi algo bem interessante. O texto que ele aborda sobre a ilusão da segurança era algo que eu estava a beira de escrever nesse espaço e devo fazê-lo em um dos diversos artigos que irei tratar sobre Taxa Segura de Retirada e Independência Financeira. Hoje de manhã, li o artigo onde ele fala que apego à luxo é apenas uma fraqueza humana, algo com o qual concordo plenamente, e já tratei do tema de forma indireta diversas vezes nesse espaço. Ter um sentimento de dependência ao luxo é a mesma fraqueza de ser dependente de uso de substâncias químicas legais ou não.
Mr. Money Mustache: belo bigode!
O nível desses três blogs relatados é muito alto, algo que não se encontra muito por aqui. Infelizmente, eles são escritos em língua inglesa,e talvez isso afaste uma grande maioria de leitores brasileiros que possam ter dificuldade em ler textos em Inglês. O nível dos artigos, na maioria, é bem alto. Os comentários dos leitores, principalmente no MMM, são bons e às vezes muito instrutivos. Faço questão de ler todos os comentários, e muitos artigos interessantes de outros sites foram recomendações dos comentários. Os autores não caem em contradições lógicas banais, como muitas pessoas no Brasil atualmente o fazem, bem como sabem escrever de forma clara e precisa, e saem dessa lógica preguiçosa intelectualmente entre "bons x maus, direta x esquerda", ou qualquer "Fla-Flu ideológico" que a sociedade brasileira infelizmente está tornando muito comum, sem se dar conta das consequências terríveis de médio prazo que isso pode ocasionar no tecido social. Leitura de alto nível e espero compartilhar alguns pensamentos deles por aqui.
É evidente que o que eles falam não é novo. O MMM, por exemplo, até pouquíssimo tempo atrás não sabia o que era estoicismo, e nem sobre os estóicos. Aparentemente, ter contato com essa forma de pensamento teve uma grande influência em sua vida recente (ainda preciso ler o artigo em específico). Logo, como sempre disse o meu pai, em matéria de sentimentos e paixões humanas não há muito de novo sendo refletido pelos humanos. Entretanto, é inegável que eles - os blogs - trazem uma roupagem mais moderna e acessível para as pessoas, bem como conectam reflexões mais profundas de vida com finanças pessoais, um dos objetivos primordiais do blog pensamentos financeiros.
Encerro o artigo recomendando fortemente a leitura dos blogs em questão para os leitores que podem ler em Inglês. Se a leitura no idioma do grande Escritor não é muito boa, desafie-se um pouco, faz bem para o cérebro. Acaso seja realmente difícil a leitura em outro idioma, prometo que vou tentar trazer muito dos temas abordados por lá para a nossa realidade brasileira. Por fim, coloco o famoso discurso de Jobs. Vale muito a pena assisti-lo, e agradeço novamente o anônimo que enviou o link.
Um discurso cativante, emocionante e inspirador.
Acabo esse artigo embaixo de um coberta na cidade bem pequena no meio das montanhas de nome Pai. Está frio, o que é algo unusual para a Tailândia. No caminho entre Chiang Mai e Pai eu e minha companheira fizemos amizade com um casal de americanos que mora no Alasca. Ele nasceu e cresceu no Havaí. Eu falei só pode estar de brincadeira! Quero morar no Havaí uns meses e quero muito viajar pelo Alasca. Que coincidência. Ele me contou cada história bacana do Alasca, que fez a minha vontade de conhecer essa região apenas aumentar. Comentei sobre o filme “Into the Wild”, e ele já tinha visto várias vezes, assim como eu. Muito interessante encontrar alguém que quando eu falo sobre a cena de um filme específico se lembra da cena em detalhes. Nos conhecemos por algumas horas, mas parecemos amigos que se conhecem há muito tempo. Estamos no mesmo hotel, e é incrível como quando estamos abertos a novas experiências, quando saímos um pouco da “defensiva" e interagimos com outras pessoas, podemos encontrar pessoas bem bacanas pelo caminho.
Essa noite na agradável cidade de Pai. Ela trabalha fazendo Café. Ele é DJ e cozinheiro. Acabou de comprar 2.5 alqueires de terra no Alasca e quer produzir a sua própria comida, bem como construir a sua casa com as próprias mãos. Ao se despedir para dormir, ambos deram um abraço bem forte na gente, algo inusitado para americanos, o que foi bem legal. Como é bom fazer amigos e procurar se dar bem com outras pessoas.
Um grande abraço em todos!
sábado, 19 de dezembro de 2015
BLOGUEIRO MILIONÁRIO, IMÓVEIS, RISCOS E ALEGRIA PELOS OUTROS
Olá, colegas. Este artigo provavelmente será uma miscelânea. Eu escrevi vários esboços de textos, pois há tantos assuntos, mas resolvi comentar um pouco sobre o blog conhecido como Pobre Catarrento. Tenho descansado nos últimos dias e está sendo bem aprazível. Estou numa ilha não tão conhecida da Tailândia (Koh Lipe), e aqui é uma maravilha. Uma das ilhas mais bacanas que já estive. Tem bastante gente, mas nem de longe se compara as ilhas mais famosas de Krabi, Pukhet, Koh Phi Phi, Ko Samui e Ko Tao (já tive a oportunidade de visitar todas em outras viagens). Além do mais, o lugar é lindo, muito bonito mesmo. Assim, estou bem relaxado para escrever e irei fazê-lo por tópicos. Aliás, se um dia quiser viajar para um lugar e trazer sua família, com segurança, água mais cristalina que você já viu, preços baratos-razoáveis (é um pouco mais caro do que o resto da Tailândia), uma cultura lindíssima e um povo extremamente educado, que diferença para a gente, venha para Koh Lipe.
Koh Lipe de dia...
Koh lipe no entardecer...
Nós, a praia, o barco e o macaco...
Essa preciosidade fica perto da Malásia. Estávamos na bela ilha de Langkawi na Malásia e resolvemos ir para a espetacular Lipe (fico feliz que tomei essa decisão).
UM BELO COMENTÁRIO
O colega PC fez um artigo dizendo que passou a marca de 1M em patrimônio (a-vez-do-milionario-sr-catarro). Como número em si, isso não quer dizer nada. Assim como dizer que esteve em 100 países. São apenas números. Porém, é inegável que certos números exercem fascínio nas pessoas e funcionam como importantes barreiras psicológicas. Assim é o ser humano. Logo, em matéria de finanças pessoais, entrar na barreira dos sete dígitos é visto como uma grande conquista, e não deixa de ser, e isso com certeza é positivo para auto-estima. Portanto, fico contente que um colega tão simpático tenha atingido essa marca.
Pelo dinheiro que fico contente? Não, colegas. Eu nunca dei, não dou, e possivelmente nunca darei importância demasiada ao dinheiro, principalmente como forma de sucesso humano (se quiser conferir já escrevi a respeiro sucesso financeiro não é sinônimo de sucesso humano), ou o que é pior e muitas pessoas fazem, como uma forma de julgar se uma pessoa é melhor do que a outra. Eu não faço a mínima ideia de quando quebrei a barreira mencionada, se foi em 2007, 2008, isso não importa para mim. Porém, o caminho sim é importante. Para se acumular uma determinada quantia, na esmagadora maioria dos casos, é preciso economizar, é preciso abrir mão de algumas coisas, e quanto menos se tem de início, o “sacrifício” exigido costuma ser maior. Assim como, e eu já cometi esse erro e percebo como fui tolo, o simples fato de visitar países não quer dizer nada. O que importa é o caminho que uma viagem pode fornecer, como a possibilidade de ver culturas, formas de ver a vida diferente, fazer amigos, perder o chão, perder o fôlego, etc. Se isso for feito em vários países é uma consequência, não é o objetivo. Logo, fico feliz pelo blogueiro, pois ele está concretizando os seus objetivos financeiros, e isso me deixa feliz.
Por qual motivo me deixaria feliz? Há um conceito na parte mística do Judaísmo, também conhecida como Cabala, que uma das grandes virtudes que um ser humano pode ter é “comprazer-se com o prazer do outro”. Há um nome em hebreu para isso, mas eu esqueci. O que quer dizer? Basicamente, é ficar feliz com a satisfação do outro. Na nossa sociedade hoje em dia, é difícil realmente ficarmos felizes com o sucesso de outros. Talvez sentimos que poderíamos ser nós no lugar. É um sentimento ruim, mas quem já não sentiu isso em alguma medida? Agora, quando realmente conseguimos ficar felizes com o sucesso dos outros, que sentimento maravilhoso! Nos sentimos leves e genuinamente felizes. Creio que evolui muito nesse aspecto nos últimos anos, e sinceramente era um dos meus objetivos enquanto ser humano.
Logo, até mais do que a conquista pessoal do colega, eu fiquei feliz com o seguinte comentário feito por outro colega com Nick “Acumular Patrimônio”:
"Clap Clap Clap
PC, não tenho palavras para descrever o quanto fiquei feliz com esse post. Eu cheguei a abrir uma cerveja aqui e brindar em sua homenagem. Sério!"
Eu achei fantástico o comentário. Um belo exemplo da aplicação da sabedoria mística judaica. Muito provavelmente os dois não se conhecem, assim um desconhecido ficou genuinamente feliz com a conquista de outra pessoa. Isso, meus amigos, para além do dinheiro, é qualidade de vida. É uma vida mais fácil de ser vivida. Imaginem se nos sentíssemos mais assim em relação a outras pessoas, e não apenas ao nosso círculo mais íntimo? Como o nosso mundo não seria diferente? Como não seria mais prazeroso nosso dia a dia. Isso nenhum modelo econômico pode captar. Isso não se pode ensinar, e pode parecer obtuso e sem sentido para alguns, mas apenas sentir. E isso para mim é, depois de que resguardado um mínimo para uma vida material digna, o que nos faz realmente feliz na vida. Como as pessoas deixam se enganar e iludir que viajar de avião de primeira classe, ou andar num carro de luxo, é o que trará satisfação para elas a longo prazo? Eu sei o motivo, mas deixo para uma outra oportunidade esse tema.
LIQUIDEZ
Eu avisei no começo que este post serIa uma miscelânea. Quando escrevi brevemente sobre Renda Fixa nesse artigo (breve guia sobre as classes de ativo) falei que existem três principais prêmios nessa classe de ativo: crédito (Credit Risk Premium), duration (Bond Risk Premium) e liiquidez . Tratei dos dois primeiros, mas não falei do último.
Colegas, a falta de liquidez é um fator de risco. Ele deve ser remunerado, assim como o fator de risco crédito. Isso tudo é intuitivo, e qualquer livro sobre renda fixa irá abordar com mais profundidade a respeito. O nosso amigo PC já sentiu na pele o risco que é a ausência de liquidez, conforme ele relata nesse artigo aqui , onde ele teve que encarar um prejuízo de 35k para não deixar passar uma oportunidade.
Amigos, há vários motivos para se ter dinheiro em alguma espécie de ativo líquido que não esteja sujeito a grandes flutuações e o artigo do PC é um exemplo prático. No Blog do Tetzner, eu sempre chamava atenção a este fato para vários colegas que não viam problemas numa estratégia 100% numa espécie de ativo. Porém, como explicar, que as pessoas podem deixar oportunidades passarem se não tiverem liquidez?
O colega blogueiro agiu. Assumiu um prejuízo de 35k, pois no entendimento dele a oportunidade de negócio que ele poderia perder possui potencialmente espaço para retornar muito mais do que 35 mil reais (se não a conduta seria irracional do ponto de vista financeiro). Além de mostrar coragem de assumir o erro e encarar o prejuízo, tal conduta mostrou o apetite necessário para se assumir riscos para ter retornos maiores (o negócio já parte de um prejuízo de 35 mil reais).
Porém, não é apenas em relação a dinheiro. E se alguém conhecer uma Norueguesa numa viagem e resolver largar tudo e montar uma pousada no nordeste. Será que a pessoa seguiria o projeto se estivesse 100% em ações num período de grande bear market? Será que a pessoa entraria de sócio num empreendimento promissor se tivesse que realizar prejuízos de 100 mil, por exemplo, devido à falta de liquidez? Percebam que os exemplos podem ser muitos. Liquidez é sinônimo de facilidade de estar pronto para oportunidades, sejam elas financeiras ou não.
É simples. Eu tenho um rendimento de 93% do CDI em LCA do BB, onde reservo minhas aplicações em renda fixa. É um bom rendimento tendo em vista ser um instrumento líquido e de um banco de primeira linha. Isso dá uns 13% aa. Se eu conseguir um outro título de dívida, mais com iliquidez por 3 anos por exemplo, me pagando 108% líquido do CDI, o que não é fácil, isso daria algo em torno de 2% aa a mais. Logo, para cada 1M ilíquido, apenas para título de exemplo, eu seria teoricamente pago R$ 20.000,00 a mais por ano. Ao longo de três anos isso daria aproximadamente R$ 60.000,00.
O que isso quer dizer? Que estaria abrindo mão de qualquer oportunidade que aparecesse para mim até o valor de 1M por três anos pela quantia de R$60.000,00 (ou R$ 6.000,00 para cada R$ 100.000,00). Vale a pena, não vale a pena? Cada um deve sopesar, mas a ausência de liquidez pode nos fazer deixar de ganhar dinheiro ou simplesmente ser um obstáculo a mais na realização de outros objetivos.
RISCO, MERCADO FINANCEIRO E IMÓVEIS
No mesmo artigo que escreve sobre a quebra da barreira psicológica de 1M, o PC fala que conseguiu um retorno alto com imóveis. Imóveis são ilíquidos. Pela ausência de liquidez, e portanto de precificação imediata, as pessoas acreditam que são investimentos mais seguros ou que seriam diferentes de ativos atrelados a imóveis como FII. Nem uma coisa, nem outra.
Eu, em minhas transações imobiliárias vou em direção à iliquidez. Contraditório? Não, colegas. No ramo imobiliário bem específico que gosto de atuar, a realidade é que quanto mais líquido for um imóvel (pense num belo apartamento, num belo bairro), mais concorrido é o leilão, e menor é a margem. Quanto maior a falta de liquidez, as margens, quando os diversos outros requisitos se fazem presentes para uma arrematação segura, tendem a ser muito maiores.
Eu adoraria comprar apartamentos desocupados com uma margem grande com mais frequência (felizmente, foi o que ocorreu há alguns meses. Nunca imaginei que isso iria acontecer, ainda mais um apartamento a poucas quadras da minha casa. Sinal de crise, e de que as pessoas estão sem liquidez? Talvez, se for o caso, em que pese a crise, vou me carregar de operações simples como esta), mas é difícil. Logo, a solução que encontrei foi ir em direção à iliquidez. Mas não é para ganhar 2% aa a mais, e sim 30-40%. Houve um caso que o retorno foi de 100% em um ano. Essa é uma iliquidez, em minha opinião, que vale a pena se expor.
Isso vem do céu? É fácil? Claro que não. Primeiramente, como bem notado pelo Pobre Catarrento, é preciso correr riscos e sair do pensamento tradicional. No caso específico de imóveis, é preciso um certo acúmulo de capital prévio, seja para construir pequenas casas, seja para fazer prédios, seja para comprar à vista em leilões. Além do mais, cada área terá suas dificuldades, riscos e expertises. A que eu atuo, se feita uma boa análise dos riscos jurídicos-processuais (o que demanda treinamento específico e conhecimento técnico), é a mais sem risco. Já pensei em construir. Aliás, minha família construiu alguns empreendimentos. Meu pai resolveu construir um prédio de 10 andares em 1996-1997. Queria fazer algo produtivo num período difícil do país. Até hoje, quase 20 anos depois, meu pai tem alguns casos na Justiça cobrando dinheiro pela venda de algumas unidades. Sem contar que um amigo do meu pai da ordem, o meu pai já foi mestre Rosacruz, que estava junto no empreendimento deu um desfalque de grande monta. Até hoje ele ainda não pagou o que deve, o meu pai diz que isso pertence aos herdeiros (nas diversas vezes que toquei no assunto por qual motivo ele não o processou ainda), mas sempre o alerto sobre o prazo prescricional. Enfim, se o meu pai tivesse ficando numa simples renda fixa, na época de juros estratosféricos, talvez esse prédio pudessem hoje em dia a equivaler a uns 8 prédios.
Sendo assim, construir possui riscos. A margem tradicional é na faixa de 40-50% para dois-três anos (basta ver a margem bruta da Eztec), e se tem risco de obra, risco de inadimplência, burocracia, risco de acidente, etc. Posso conseguir margens semelhantes em um terço do tempo, logo a ideia de construir não passa mais pela minha cabeça. Porém, é um ramo que pode dar ótimos retornos, principalmente se feito com profissionalismo e cuidado.
Evidentemente, não é sempre que se pode transformar um imóvel em dois imóveis em apenas um ano. Consegui uma vez. Tenho outro que talvez possa ser assim. É difícil, mas eu preciso de uma operação dessas a cada 3-4 anos para pagar minhas despesas do período. Logo, posso ter calma, mas quando aparece a oportunidade tenho que estar líquido e preparado.
Eu não conseguiria nada disso no mercado financeiro. Isso ficou muito claro para mim. O mercado financeiro serve sim para multiplicar o patrimônio, mas em períodos longos de tempo, como já refleti nesse artigo (crescer ou manter o patrimônio? Um crescimento de 6% real ao ano, multiplica por 8 o capital em aproximadamente 36 anos, o período de uma geração. Evidentemente, isso é multiplicar o capital e foi assim que países ricos ficaram ricos, um acúmulo constante, longo e gradual de capital. Esse mesmo processo pode acontecer entre gerações. Entretanto, é um processo lento, e é necessário visão de muito longo prazo, algo cada vez mais em falta numa sociedade apressada e em pessoas impacientes.
Se a pessoa quer retornos maiores, a possibilidade de fazer grandes aportes, terá que se arriscar em negócios “no mundo real”, seja com imóveis, seja comprando e vendendo empresas, abrindo franquias, exportando e importando, etc, etc. É claro que é possível prosperar rapidamente com o mercado financeiro, é apenas improvável, e mais improvável ainda para investidores amadores.
Termino esse artigo, parabenizando o colega PC pelo caminho transcorrido. Porém, o que mais chama a minha atenção é a educação e simpatia do mesmo, não o seu patrimônio. Entretanto, sei o quanto é importante para ele, e como isso demonstra que os seus esforços estão sendo recompensados. Parabenizo também o colega que fez o comentário, oxalá esse tipo de postura fosse mais incentivada em nossa sociedade. Criticamos demais, apontamos os defeitos em outras pessoas demais, e isso não é sinal de uma sociedade equilibrada. Eu espero sinceramente que todos atinjam os seus objetivos. “Até mesmo para pessoas que não gostam de você, ou eventualmente te ofenderam?", sim até para essas pessoas. Posso não querer ser amigos delas (apesar de não ter nenhuma objeção em ser amigo), mas nunca desejo o mal. Além do mais, é muito melhor conviver com pessoas felizes porque conseguiram algo que as faça felizes, do que com pessoas frustradas e rancorosas. Desejo sucesso e sorte para todos.
Não se esqueçam que lliquidez tem o seu preço, e que na vida é preciso arriscar de vez em quando, é preciso ter aquele friozinho na barriga, aliás qual a graça seria se não sentíssemos mais aquela sensação de apreensão, esperança, receio, otimismo? Às vezes é isso que nos leva para frente, a darmos passos financeiros maiores, ou, num nível mais profundo, a entendermos a realidade de uma maneira mais ampla.
Abraço a todos!
quarta-feira, 9 de dezembro de 2015
REFLEXÕES SOBRE A TAXA DE JUROS REAIS NO BRASIL E NO MUNDO. BREVE DIGRESSÃO SOBRE O MERCADO IMOBILIÁRIO ARGENTINO
Olá, colegas. Depois de uma série de artigos sobre viagens, volto a escrever sobre finanças. O tema desse artigo creio ser do interesse de muitos investidores, amadores ou não, pois diz respeito ao mercado de dívida soberana, e um pouco sobre o mercado imobiliário.
A doutrina sobre o tema mercado de dívidas, ou renda fixa se preferirem, possui um conceito central: ativo livre de risco. Qualquer livro sobre finanças, principalmente os estrangeiros, irá dizer que não se pode falar que um ativo não possui qualquer risco. É impossível do ponto de vista lógico fazer tal afirmação. O que os escritores fazem é dizer que apesar do nome “free risk”, o que se quer dizer é o ativo com o menor risco possível. Não vou neste artigo debater o que seja risco, em matéria de finanças, já o fiz em alguns artigos sobre óticas um pouco diferentes, vou partir do pressuposto mais intuitivo que risco é a possibilidade de perda total ou parcial do investimento. Se considerarmos risco como a perda do poder de compra no longo prazo do seu patrimônio, por exemplo, então se poderia dizer que a aplicação poupança pode ser mais arriscada do que o investimento em ações de forma diversificada no longo prazo. Aliás, alguns autores assim falam em relação ao investimento de menor risco nos EUA que seriam os Treasuries de curto prazo.
Pois bem. O normal é considerar as dívidas soberanas como os ativos “livres" de risco. No caso brasileiro, seria a dívida da União. Você pode ser credor da União de diversas formas (não vou falar dos casos de precatórios ou RPVs- requisições de pequeno valor - , aliás um bom mercado para se ganhar dinheiro na compra com deságio, assim como em leilões de imóveis), seja comprando títulos pelo tesouro direto, seja comprando cotas de um fundo de investimento que compra dívidas da União, seja aderindo algum plano de previdência que invista em títulos do governo federal. Muitas pessoas assim o fazem, pois pensam que é a forma mais segura, mais conservadora de se investir. Aliás, como dito no meu artigo sobre a decisão da CVM em relação ao Blog “O Pequeno Investidor”, qualquer um pode analisar e recomendar títulos públicos federais (no Brasil, pelo menos no meu conhecimento, não é normal a venda de dívidas Estaduais e Municipais, como é nos EUA, por exemplo), já que a legislação em vigor não considera esses instrumentos financeiros valores mobiliários. Logo, é o Safe Haven, o porto seguro para os investidores.
Entretanto, eles são tão seguros assim? São mais seguros do que imóveis, por exemplo? Para responder essa questão, temos que entender como a inflação afeta a dívida de um governo e os investidores dessa mesma dívida. Imagine, num exemplo hipotético, que um Estado deva 100 unidades monetárias. Suponha-se que não há inflação, e a riqueza gerada pelo país hipotético no ano seja de 100 unidades monetárias. Como a relação dívida-riqueza produzida é de 100%, a taxa de mercado para emprestar a esse governo é de 5%. Assim, ao final de um ano a dívida será de 105 unidades (100 + 5%). A única forma do governo se manter solvente no longo prazo é fazer com que o PIB cresça no mesmo ritmo da taxa de juros. A relação entre crescimento do PIB e taxa de juros é central para entender o que pode estar acontecendo no mundo desenvolvido e suas taxas de juros reais muito baixas ou em alguns casos negativas. Pretendo abordar esse tema em outra oportunidade.
Assim, se o PIB crescer 5% no ano, a relação dívida-riqueza produzida continuará em 100%, e vida que segue. Se o PIB crescer numa taxa menor do que os juros reais, no longo prazo o endividamento tende a se tornar insustentável, pois uma parcela cada vez maior da riqueza produzida por uma sociedade terá que ser “confiscada” para o pagamento de juros da dívida estatal.
Agora, vejam que interessante se acrescentarmos a inflação na história do nosso Estado fictício no patamar de 5% ao ano. Com uma inflação nesse nível, 105 unidades monetárias em um ano percorrido serão equivalentes a 100 unidades monetária do começo do ano. Assim sendo, mesmo que a riqueza produzida pelo Estado não cresça no ano, a dívida Estatal permanecerá estável. Por qual motivo? A dívida do Estado será de 105 unidades ao final de um ano, mas a riqueza produzida também será equivalente a 105 unidades, pois a unidade monetária foi depreciada em 5%. Assim sendo, uma forma do Estado manter a sua dívida sobre controle é por meio de inflação. A relação entre inflação e crescimento do PIB é, segundo especialistas, o que nos dá noção de quanto deve ser a taxa de juros nominais de um país.
Agora, o que acontece quando a desvalorização da moeda, inflação, é mais intensa do que a taxa de juros que o governo paga em suas dívidas? A dívida Estatal diminui. Se a inflação for de 10% e os juros continuarem em 5%, isso quer dizer que no final do ano a relação dívida-riqueza produzida será de 105-110,ou aproximadamente 95%. Se o país ainda tiver crescendo a riqueza produzida, a dívida diminuirá ainda mais. Logo, a inflação pode ser uma forma eficaz para o Estado diminuir a sua dívida, é por isso que é considerada uma forma de calote branco. É por esse motivo que deflação também é algo terrível para o Estado, pois faz com que a dívida suba ao invés de diminuir.
Após essas considerações sobre o tema, talvez fique claro que o risco de se investir em títulos soberanos vai muito além de se considerar apenas o risco do governo não pagar a dívida. A depender da taxa de inflação, o Estado pode simplesmente diminuir a sua dívida em pouquíssimo tempo. É por esse motivo que muitos economistas atualmente estão preocupados com os rumos das coisas, pois o ajuste fiscal será feito de uma maneira ou outra, mas deveríamos evitar que ele se dê por meio de inflação, pois este é um cenário muito ruim para a esmagadora maioria das pessoas de uma sociedade, poupadores incluso.
Assim, taxas de juros reais negativas limpam a dívida estatal e destroem o poder de compra do investidor nessa dívida. Sempre quis ver um gráfico da taxa de juros reais do Brasil para períodos anteriores a 1994, e para minha surpresa positiva, tal análise foi feita no blog do Roberto Ellery Juros, ora os juros. Aliás, recomendo muito esse blog, o autor escreve muito bem, tem ótimo conhecimento e consegue escrever de uma forma muito tranquila sobre pontos de vistas eventualmente divergentes dos que ele possui. O resultado pode ser visto no gráfico abaixo:
Os juros reais brasileiros, tirando períodos curtos, foram quase sempre positivos, e bem altos, tornando o Brasil o país da renda fixa. Difícil o mercado de ações concorrer com juros tão altos por mais de quatro décadas.
O que se percebe é que o Brasil tem uma história anormal de juros. Não foram poucos os momentos desde 1974 que se pagou juros reais absurdamente altos. Nos anos de 1989 e 1992 se chegou a absurdos 40% de juros reais. Assim, para minha surpresa, não foi apenas a partir de 1994 que o Brasil pagou juros reais altos em sua dívida. Entretanto, se repararem entre os anos 1979 a 1981 os juros reais no Brasil ficaram negativos na magnitude entre 20-30%. Quem nesse período estivesse investido em títulos do governo brasileiro teve o seu capital praticamente aniquilado. Tal fato também aconteceu em menor escala entre 1986 e 1988 e em grande escala no ano de 1990.
O que se percebe do gráfico é que o Brasil há 40 anos, e não apenas há 20 anos desde a estabilização, é uma gangorra em relação aos juros reais. Em quase todo o período, entretanto, os juros reais foram muito altos, o que com certeza contribuiu para o enriquecimento de poupadores que emprestaram para o governo. O período de 1979 a 1981 foram cruéis para quem tinha dívidas federais, mas parece uma exceção, não a tônica.
Para entendermos a magnitude dos juros reais no Brasil, vamos comparar os juros reais dos EUA num período semelhante (1971 a dias atuais):
Os juros reais nos EUA são muito mais comportados do que no Brasil.
Muitas coisas chamam atenção nesse gráfico. Primeiramente, é um gráfico sobre a FFR (Federal Funds Rate), a única taxa de juros onde o FED realmente tem controle, apesar desse fato ser ignorado por alguns comentaristas de finanças. Essa é a taxa de empréstimos de curto prazo,e em certa medida se assemelha a nossa SELIC. Ela não se confunde com os yields de títulos soberanos americanos de prazos mais longos como 10 ou 30 anos. Em segundo lugar se percebe que a volatilidade da taxa de juros reais é muito, mais muito menor do que a brasileira no período. Além do mais, os EUA nunca chegaram a 10% de juros reais, ao contrário do Brasil onde já tivemos taxas de 40% de juros reais. O período de 1975 a 1980 foi cruel para detentores de dívida americana. com juros negativos reais por quase cinco anos. Por fim, há uma tendência clara de diminuição da taxa de juros reais, sendo que nos últimos 12 anos em dez deles os juros reais foram negativos. Ora, não é à toa que os ativos de países emergentes muito mais rentáveis aumentaram e muito de valor no período. Como se manter planos de previdência com retornos reais negativos por tanto tempo? Aliás, há pessoas nos EUA que dizem que o FED deve subir os juros, como se os juros não fossem definidos pelo mercado, pois tal situação está destruindo a o valor das pensões de milhões de aposentadoria americanos.
Sendo assim, em que pese o Brasil com sua imensa volatilidade e turbulência, aqui é o paraíso da renda fixa, ao contrário do que ocorre atualmente em países mais desenvolvidos.
Como o Brasil, apenas em alguns períodos nos turbulentos anos da década de 80, sempre pagou juros reais positivos, e dos bens gordos, ele não se encaixaria num exemplo de risco de calote branco. Fui então analisar os dados recentes da Argentina. É bem sabido que os últimos anos para nossos hermanos tem sido difíceis, com crise econômica, inflação, e retrocesso institucional em várias esferas. O que aconteceu com os detentores de dívida soberana Argentina. Aqui está a resposta:
Os últimos cinco anos foram difíceis...
Se ampliarmos para os últimos dez anos a situação não melhora muito.
Nos últimos cinco anos, os detentores da dívida interna argentina viram pouco a pouco seu poder de compra ser corroído. Não chega-se um calote branco muito forte como aconteceu no Brasil entre 1979 e 1981, mas é uma perda considerável. Se considerarmos o pagamento de Imposto de Renda (sim, o poder de compra é diminuído e ainda se tem que pagar imposto sobre os juros nominais) . Eu não sei, e não procurei pesquisar confesso, se o respeitável site Tradieconomics utilizou os dados oficiais de inflação, ou os apontamentos extra-oficiais que nos anos em questão divergiram seriamente. Ao contrário do que ocorreu ou ocorre no Brasil, houve claros indícios de manipulação dos índices oficiais de inflação. Não sei como anda a questão atualmente na Argentina, creio estar melhor, mas não posso afirmar se ainda não há problemas desse tipo por lá. Acaso o site tenha utilizado a inflação oficial, então os juros reais efetivos foram muito mais negativos, o que, se este for o caso, quem investiu dinheiro em dívida soberana argentina teve o seu poder de compra destruído.
Por qual motivo citar a Argentina. Prezados leitores, o cenário que mais gosto de analisar é o pior cenário possível. Evidentemente, o Brasil passar por dificuldades econômicas como a Argentina não é o worst case scenario, nós podemos nos tornar uma Síria. Entretanto, a probabilidade deste último evento ocorrer eu creio muito remota, logo para efeitos práticos vou considerar que uma deterioração institucional e econômica a la argentina seja o pior cenário para o nosso país no médio prazo. Por qual motivo faço isso? Simples, e as razões foram elevadas no meu artigo independência financeira. Quando entro numa operação imobiliária via leilão, por exemplo, eu quero saber o que de pior pode acontecer. Se sair como o planejado, então é só alegria. Se sair melhor do que o planejado, alegria em dobro. É muito melhor se preparar para um cenário adverso, ou pelo menos tentar pensar no que se pode fazer se algo degringolar no planejamento.
Logo, se o país piorar, talvez o mercado de dívida soberana, se por uma tragédia o nosso destino econômico for parecido com o da Argentina, não seja um porto tão seguro. É verdade que o Brasil possui títulos indexados à inflação. Eu não sei se a Argentina possui ou não títulos assim. Logo, se alguém acredita que o pior pode acontecer, a melhor saída é títulos com algum indexador inflacionário como NTN-Bs. Mesmo títulos sem duration como LFT, ou eventualmente alguns títulos como CDBs-LCI-LCA-CRI-CRA-LC com carência de alguns anos, pode sim sofrer brutalmente se a inflação disparar,e a taxa de referência, SELIC, não acompanhar, ficando o Brasil com juros reais negativos como a Argentina.
Um título como a NTN-B obviamente sofreria com juros reais básicos negativos, mesmo se comprado com cupons positivos, pois o Imposto Inflacionário poderia até mesmo fazer com que os juros acordados ficassem negativos, acaso a inflação fosse muito alta como 40-50% (cenário que acho pouco provável no momento). Outro problema poderia ser a manipulação dos índices oficiais (prioritariamente o IPCA),como ocorreu com a Argentina, porém não há motivos que isso possa acontecer, já que o IBGE tem se mostrado uma autarquia com independência técnica. Entretanto, com títulos do governo não há como se proteger disso.
Portanto, há risco sim para quem detém dívida pública federal, ou instrumentos atrelados à taxa básica de juros que possuam carência de alguns anos.
E os imóveis onde entram nisso? Já escrevi um artigo sobre a correlação negativa ou não entre preço dos imóveis e yield de aluguel. O motivo para tanto foi saber se o preço no valor dos aluguéis poderia ser tão afetado e ser tão volátil como o valor dos imóveis. A minha conclusão foi que não, a dinâmica do valor dos alugueis parece ser bem diferente da dinâmica do valor dos imóveis subjacentes. Acaso queira conferir este é o artigo FII - Riscos Atuais, Comparações Internacionais e outras reflexões
Há um artigo publicado pela NAREIT que indica que os REITs (FII americanos), logo depois do ouro, foi o ativo mais resiliente a períodos de maiores inflação. Qualquer dia posso escrever um artigo apenas sobre este estudo. Assim, e levando em conta a tendência história de imóveis seguirem a inflação, mais precisamente uma pequena valorização real, conforme abordado nesse artigo Imóveis - Expectativa de Retorno Realista no Longo Prazo, seria de se esperar que os alugueis na Argentina teriam preservado o poder de compra dos locatários e subido pelo menos em compasso com a inflação real, ou seja a extra-oficial, da Argentina. Era de se esperar também que o valor dos imóveis tivessem guardado o seu valor.
Pesquisei alguns dados na internet, e não há tantas informações sobre o mercado imobiliário argentino. Quando um país possui uma inflação muito alta, e a extra-oficial argentina era e ainda é muito alta, é normal que transações de grande monta, como é o caso de imóveis, sejam feitas em uma moeda forte como dólar, ou ao menos cotada em dólar. Foi assim na época hiper-inflacionária do Brasil da década de 80, tanto é verdade que minha mãe sempre me fala que oferecem por um terreno que ela possui uma quantia alta em dólares, logo depois da estabilização. Talvez as pessoas ainda tivessem a mentalidade de se negociar imóveis tendo como referência o dólar. Fico feliz que minha mãe não tenha aceito, pois o terreno se encontra hoje em dia numa região de grande movimentação, e se o Brasil entrar nos trilhos, lá por 2020-2022, e a depender do plano diretor que parece ter aumentado o gabarito, é bem possível negociar um bom contrato de permuta por muitos apartamentos. Aliás, pretendo escrever sobre o investimento em terrenos, que é um dos potencialmente mais lucrativos para um investidor.
Logo, em situações de grande inflação, os imóveis muitas vezes são precificados em algo que represente algo com valor mais estável, no caso o dólar. Com isso em mente, é possível entender os dizeres da seguinte reportagem (reportagem Reuters sobre mercado imobiliário argentino)
"Prices per square meter for a used apartment in Buenos Aires are still down 6.5 percent in dollar terms since 2012 but they were up 4.1 percent in May over the same month last year, according to the consultancy Reporte Inmobiliario, which analyzes prices every three months.”
Assim, desde 2012, detentores de imóveis na Argentina tiveram uma perda, na sua média, em dólar de 6.5%. Surpreendeu-me, pois pelo controle rígido de capitais, principalmente de dólares, imposto pelo governo, uma grande inflação e uma grave crise institucional, os proprietários tiveram o seu poder de compra em moeda forte razoavelmente preservado.
E o preço dos alugueis? Consegui, consultando o site Reporte Inmobiliario referido na reportagem, alguns dados sobre o mercado de Buenos Aires, que de longe é o mais significativo da Argentina. Segundo o relatório:
"Los valores locativos promedio para departamentos usados de dos ambientes se incrementaron en promedio un 33,56 % los últimos 12 meses.
Estos valores locativos promedio para departamentos usados de tres ambientes se incrementaron en promedio un 35,35 % en el mismo periodo. Los valores más elevados de alquiler para los departamentos de uno y dos dormitorio se observan en las localidades del corredor norte."
Bom, segundo o relatório, o preço dos aluguéis em média subiu algo em torno de 35% nos últimos doze meses. A inflação esperada na Argentina para o ano de 2015 é de (inflação argentina):
"FocusEconomics Consensus Forecast panelists expect official inflation of 16.6% at the end of 2015, which is down 0.1 percentage points from last month’s estimate. Panelists estimate that official inflation will end 2016 at 26.2%, which is up 0.9 percentage points from last month’s forecast. The panel expects non-official inflation of 27.0% in 2015. Analysts see non-official inflation increasing to 34.3% in 2016."
Os alugueis parecem ter sido resilientes nas Argentina, fazendo com que na média os proprietários de imóveis para alugar tenham preservado o valor de compra dos seus fluxos de renda, conforme atestado pelo gráfico a seguir:
Aparentemente, os alugueis acompanharam a inflação extra-oficial da Argentina, o que é uma boa notícia para os proprietários brasileiros.
Portanto, mesmo com uma situação econômica das mais difíceis possíveis, proprietários de imóveis estiveram muito mais protegidos do risco de ver o seu patrimônio pulverizado, do que detentores de títulos de dívida soberana.
Durante alguns períodos nos últimos 40 anos, mesmo na maior potência econômica do mundo, detentores de dívida soberana viram o seu patrimônio diminuir consideravelmente, numa espécie de calote branco por parte dos Estados.
Ativos reais como imóveis, em certa medida empresas desde que o investidor esteja bem diversificado, tendem a ser ativos resilientes contra o risco de inflação. Como não tem muito sentido um imóvel falir, não é à toa que muitas pessoas almejam ter renda advindas de imóveis para as suas aposentadoria ou suas independências financeiras.
Espero que o presente artigo possa ajudar em reflexões sobre mercado de dívida, volatilidade, imóveis, fluxos de renda e prêmios de crédito e liquidez oferecidos por alguns instrumentos de dívida de entidades financeiras de segunda linha.
Espero que o presente artigo possa ajudar em reflexões sobre mercado de dívida, volatilidade, imóveis, fluxos de renda e prêmios de crédito e liquidez oferecidos por alguns instrumentos de dívida de entidades financeiras de segunda linha.
Voo atrasado por duas horas, mas pelo menos consegui escrever esse artigo. Volto para a parte peninsular da Malásia, e daqui o plano é subir até a Rússia, vamos ver o que vai acontecer com a minha vida. Por mim, sigo pela Rússia, passo pela Ásia Central (sempre quis conhecer o Uzbequistão, Quriguistão, Tajiquistão, Armênia, Irã, etc) e iria até Portugal. Tudo isso por terra. A Sra. Soulsurfer não está tão convencida do plano. A ela parece mais interessante a ideia de voltar daqui uns meses, e se preparar para fazer uma grande viagem de carro pelos EUA, Canadá e América Central nos moldes que fizemos na Austrália e Nova Zelândia, vamos ver. Estou num momento bem definidor da minha vida, onde em pouquíssimo tempo terei que tomar uma grande decisão.
Estou lendo esse livro. Fiquei feliz que voltei a reler livros não necessariamente relacionados há algum tema pertinente à ciência. É um baita livro. Trata do cerco alemão de 1942 a cidade Russa de Leningrado, no que seria a maior e mais decisiva batalha da segunda guerra mundial. Canibalismo, estupros, fome, morte e uma resiliência incrível do povo russo. Não é brincadeira enfrentar os Russos não.
Grande abraço a todos!
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