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domingo, 17 de janeiro de 2016

AS CONEXÕES IMPREVISÍVEIS DA VIDA E BLOGS NOTÁVEIS

23 comentários : Postado por soulsurfer às 07:59 Marcadores: Finanças Pessoais , Reflexões
  Olá, colegas! Espero que estejam todos bem.  Minha estada na Tailândia que deveria durar duas semanas já passa de um mês e ainda devo ficar mais algumas semanas. Muito bom estar por aqui.  Neste artigo, entretanto, escrevo sobre como um comentário de um Anônimo, que se identificou como Victor, fez-me revisitar alguns estudos, ler muitos outros e criar um contato muito maior com blogs realmente notáveis.

Na magnífica cidade histórica de Sukhothai (primeira capital do que se pode chamar culturalmente de Tailândia há 700 anos). O espetacular Buda leva o nome de "Subduing Maya". Mais explicações abaixo


 Isso é muito interessante mesmo. Como um comentário em uma postagem pode ser o catalisador de algo bacana. A vida muitas vezes, talvez na maioria das situações, opera por “caminhos misteriosos”. É simplesmente impossível saber o que vai ou pode ocorrer com nossas vidas, e o controle é simplesmente uma ilusão, algo maravilhosamente retratado na cena do acidente da bailarina no estupendo filme “ O Curioso Caso de Benjamim Button”. A mesma temática é mostrada de forma muito assaz no filme “Instinto" com Antony Hopkins. A cena dele ameaçando tirar a vida de um psiquiatra se o mesmo não respondesse qual ilusão ele tinha acabado de perder é fantástica. O conceito de Ilusão - Maya -  é central para o Budismo e qual não foi a minha surpresa ao ver um shopping luxuoso com nome de Maya na cidade onde atualmente estou no norte da Tailândia: Chiang Mai. Não deixa de ser interessante colocar um nome como esse em um dos lugares que mais promove a ilusão no mundo contemporâneo.

Esse filme tem uma cena sublime (sempre me emociono), quando ele é capturado no meio dos Gorilas e um deles morre.

Esse é um belo filme. Há muitas cenas interessantíssimas. Uma das que mais me fazem refletir é a da cena do acidente e a cadeia de eventos completamente fora de controle que levou ao incidente. Uma reflexão bem parecida é feita no clássico livro "A Insustentável Leveza do Ser".


  Outro anônimo, o qual eu agradeço também, enviou link para ver o famoso discurso de Jobs para os formandos de uma universidade de ponta nos EUA. O discurso é simplesmente brilhante. Muitas das falas me chamaram a atenção. Uma delas é quando Jobs disse que largou o curso regular na faculdade, pois custava muito dinheiro, e a poupança dos seus pais adotivos (eu não sabia que ele era adotado) estava sendo dilapidada por algo que ele não conseguia ver sentido. Ele começou então a literalmente “zanzar" pela universidade fazendo alguns cursos gratuitos. Um deles foi de Caligrafia. Sim, o gênio que revolucionou a forma como relacionamos uns com os outros no mundo moderno fez um curso de Caligrafia. Ele disse no discurso que algo que aparentemente não tinha qualquer relação, ou algo “útil" na vida prática moderna, foi o que mostrou para ele a importância da beleza e da estética. Foi por causa disso que ele se tornou tão obcecado com a aparência estética dos dispositivos da Apple, o que viria a revolucionar a informática e muitas outras coisas.

   Pensem sobre isso, colegas leitores. O Design de seu smartphone, se eventualmente você possui um, talvez tenha ocorrido porque uma pessoa fez um curso de Caligrafia. Logo, é simplesmente impossível saber as consequências ou relações do que eventuais eventos em nossas vidas podem ter no futuro. Desconfie de pessoas que ridicularizam a teoria ou práticas “não muito úteis” (na perspectiva única e pessoal delas) dando uma ênfase quase que absoluta à “prática" (seja lá o que essas pessoas possam definir o que seja “prática”).  Se, enquanto espécie, dependêssemos delas, teríamos uma vida muito, mais muito mais pobre em todos os sentidos. Não teríamos, com absoluta certeza, alcançado o desenvolvimento científico, tecnológico, cultural e humano que temos hoje em dia.

 Assim, de uma maneira quase “serendiptosa”, um simples comentário de um anônimo me levou a leitura de dezenas de artigos, a feitura de diversos textos (em processo de escrita) e a criação de um novo blog (em construção com a ajuda do colega Estagiário).  “Ok, Soul, sobre o que foi esse comentário, foi sobre o sentido da vida ou se há vida após a morte?”. Há uma cena que acho muito engraçada no filme “A Vida Secreta de Walter Mitty”. Como dizem os americanos “to make a long story short”, o filme tem como enredo a busca desesperada do protagonista  na procura de um negativo de uma foto que deveria ser supostamente a última capa da edição impressa da revista Life. Depois de muitas aventuras em volta do mundo, numa busca que se torna interior também, Walter Mitt descobre o negativo. Como a empresa está fazendo downsizing, ou seja despedindo quase todo mundo, há uma cena no elevador onde um dos seus companheiros de trabalho pergunta sobre o que tinha ma foto “Era por acaso a imagem do Pé-Grande ou do Mostro do Lago Ness?” querendo significar que uma busca tão intensa por algo, esse algo só pode ser uma coisa “grandiosa”. Fiz essa breve digressão apenas para que a pergunta de um leitor imaginário pudesse ser melhor entendida e para que assim pudesse ser um pouco engraçado. Aliás, o humor é essencial para que uma sociedade se mantenha saudável. Os Judeus faziam piada até mesmo sobre o seu destino trágico no holocausto conduzido pelos Alemães. Uma sociedade que perde a capacidade de ter humor ou que se ofende facilmente com brincadeiras sobre suas instituições, moralidade, religião, ética, etc, é um agrupamento humano com uma grande propensão a uma vida pior. Isso, evidentemente, também vale para indivíduos.

Cena do filme onde Walter Mitty descobre que há um negativo faltando na presença de seu colega de trabalho. Será que o comentário que aludo nesse artigo foi sobre algo extraordinário na vida?

   Não, o comentário não foi sobre a Teoria M (que tenta unificar os campos da gravitação e física quântica, o Holy Graal da física contemporânea), ou sobre como gerar Alpha (o sonho de qualquer investidor), mas foi simplesmente a indicação de um blog americano chamado Brave New Life.

   Eu irei, muito provavelmente no meu novo blog, falar muito sobre esse Blog e mais outros dois, principalmente focar nas diversas questões interessantes que eles abordam. Na bem da verdade, muitos dos temas ali tratados já foram objeto de reflexões aqui nesse espaço, mas é inegável que os blogs em questão falam de forma muito mais direta sobre assuntos de muito interesse a todos investidores amadores, cidadãos e seres humanos preocupados com a sua posição no mundo em geral. 

  O mais antigo chama-se Early Retirement Extreme, também conhecido pele acrônimo ERE. Como o nome diz, trata-se de independência financeira de forma muito rápida. O autor arrepende-se um pouco de ter colocado o termo “retirement” (aposentadoria), pela conotação que a palavra representa na sociedade. As palavras e os sentidos que elas tem em um determinado agrupamento humano contam e muito. É uma área do conhecimento humano que gosto bastante, mas não irei me estender aqui. O blog iniciou-se em 2007 e é um dos pioneiro no assunto na internet. O autor, Jacob, é um Dinamarquês que mora nos EUA, se entendi corretamente, que largou a profissão de físico profissional e hoje em dia vive financeiramente independente vivendo com menos de U$ 10.000,00 por ano. 

O autor do Blog escreveu um livro. Pretendo lê-lo quando tiver oportunidade;


  O Blog indicado pelo comentário é o Brave New Life. É a história de um engenheiro e a sua jornada de auto-conhecimento que o levou de forma sistemática a desistir de um emprego de U$ 170.000,00 anuais  (sim R$ 700.000,00 por ano) para viver com sua família de dois filhos com um orçamento em torno de U$ 30.000,00 anuais. O interessante é que a história dele em muitos aspectos se assemelha a minha. Ele tem 35 anos, durante os primeiros 10 anos de sua vida profissional teve uma alta taxa de poupança (muito semelhante a minha) sem saber muito o que fazer com isso, até que uns cinco anos atrás a ficha de muitas coisas começou a cair e a sua compreensão do mundo, sua vida, e o que ele realmente acha uma boa vida alargou-se de uma forma fantástica. 

  Por fim, o terceiro blog é o já clássico MMM, ou também carinhosamente conhecido como Mr. Money Mustache. Ele se “aposentou" com 30 anos de idade, como ele está atualmente com 40 anos, há uma década ele goza de independência financeira.  A forma dele abordar diversas questões é simplesmente fantástica. Ele, se não me engano, trabalhou como Engenheiro, exatamente como o Brave New Life.  Há artigos muito interessantes. A forma como ele discorre sobre a Taxa Segura de Retirada é muito boa mesmo. O artigo que ele trata sobre Margem de Segurança, e suas diversas camadas protetivas,  é como eu vejo a questão de independência financeira em meus modelos mentais, mas ele conseguiu traduzir isso em palavras, o que foi algo bem interessante. O texto que ele aborda sobre a ilusão da segurança era algo que eu estava a beira de escrever nesse espaço e devo fazê-lo em um dos diversos artigos que irei tratar sobre Taxa Segura de Retirada e Independência Financeira. Hoje de manhã, li o artigo onde ele fala que apego à luxo é apenas uma fraqueza humana, algo com o qual concordo plenamente, e já tratei do tema de forma indireta diversas vezes nesse espaço. Ter um sentimento de dependência ao luxo é a mesma fraqueza de ser dependente de uso de substâncias químicas legais ou não.

Mr. Money Mustache: belo bigode!

   O nível desses três blogs relatados é muito alto, algo que não se encontra muito por aqui. Infelizmente, eles são escritos em língua inglesa,e talvez isso afaste uma grande maioria de leitores brasileiros que possam ter dificuldade em ler textos em Inglês. O nível dos artigos, na maioria, é bem alto. Os comentários dos leitores, principalmente no MMM, são bons e às vezes muito instrutivos. Faço questão de ler todos os comentários, e muitos artigos interessantes de outros sites foram recomendações dos comentários. Os autores não caem em contradições lógicas banais, como muitas pessoas no Brasil atualmente o fazem, bem como sabem escrever de forma clara e precisa,  e saem dessa lógica preguiçosa intelectualmente entre "bons x maus, direta x esquerda", ou qualquer "Fla-Flu ideológico" que a sociedade brasileira infelizmente está tornando muito comum, sem se dar conta das consequências terríveis de médio prazo que isso pode ocasionar no tecido social. Leitura de alto nível e espero compartilhar alguns pensamentos deles por aqui.

  É evidente que o que eles falam não é novo. O MMM, por exemplo, até pouquíssimo tempo atrás não sabia o que era estoicismo, e nem sobre os estóicos. Aparentemente, ter contato com essa forma de pensamento teve uma grande influência em sua vida recente (ainda preciso ler o artigo em específico). Logo, como sempre disse o meu pai, em matéria de sentimentos e paixões humanas não há muito de novo sendo refletido pelos humanos. Entretanto, é inegável que eles - os blogs - trazem uma roupagem mais moderna e acessível para as pessoas, bem como conectam reflexões mais profundas de vida com finanças pessoais, um dos objetivos primordiais do blog pensamentos financeiros.

   Encerro o artigo recomendando fortemente a leitura dos blogs em questão para os leitores que podem ler em Inglês. Se a leitura no idioma do grande Escritor não é muito boa, desafie-se um pouco, faz bem para o cérebro. Acaso seja realmente difícil a leitura em outro idioma, prometo que vou tentar trazer muito dos temas abordados por lá para a nossa realidade brasileira. Por fim, coloco o famoso discurso de Jobs. Vale muito a pena assisti-lo, e agradeço novamente o anônimo que enviou o link.

                               Um discurso cativante, emocionante e inspirador. 

  Acabo esse artigo embaixo de um coberta na cidade bem pequena no meio das montanhas de nome Pai. Está frio, o que é algo unusual para a Tailândia. No caminho entre Chiang Mai e Pai eu e minha companheira fizemos amizade com um casal de americanos que mora no Alasca. Ele nasceu e cresceu no Havaí. Eu falei só pode estar de brincadeira! Quero morar no Havaí uns meses e quero muito viajar pelo Alasca. Que coincidência. Ele me contou cada história bacana do Alasca, que fez a minha vontade de conhecer essa região apenas aumentar. Comentei sobre o filme “Into the Wild”, e ele já tinha visto várias vezes, assim como eu. Muito interessante encontrar alguém que quando eu falo sobre a cena de um filme específico se lembra da cena em detalhes. Nos conhecemos por algumas horas, mas parecemos amigos que se conhecem há muito tempo. Estamos no mesmo hotel, e é incrível como quando estamos abertos a novas experiências, quando saímos um pouco da “defensiva" e interagimos com outras pessoas, podemos encontrar pessoas bem bacanas pelo caminho.

Essa noite na agradável cidade de Pai. Ela trabalha fazendo Café. Ele é DJ e cozinheiro. Acabou de comprar 2.5 alqueires de terra no Alasca e quer produzir a sua própria comida, bem como construir a sua casa com as próprias mãos. Ao se despedir para dormir, ambos deram um abraço bem forte na gente, algo inusitado para americanos, o que foi bem legal. Como é bom fazer amigos e procurar se dar bem com outras pessoas.



  Um grande abraço em todos!
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terça-feira, 22 de dezembro de 2015

ZONA DE (DES)CONFORTO

45 comentários : Postado por soulsurfer às 21:02 Marcadores: Reflexões
  Olá, colegas. Espero que estejam todos bem.  Escrevo nesse artigo sobre a nossa zona de conforto. O que é isso? Muitos já devem ter ouvido falar dessa expressão, e talvez boa parte desses muitos já tenha se questionado se não é hora de “desafiar a própria zona de conforto”.  Basicamente, entende-se como “zona de conforto” toda situação a qual um ser humano se sente habituado a ela, e mais importante seguro dentro dela. Se eu vivo dentro de um país que fala minha língua nativa, podemos considerar essa situação uma zona de conforto principalmente se eu considerar a hipótese de ir morar em outro país com idioma diverso. “Soul, mas alguém que não é feliz vivendo aqui, não estaria numa zona de “desconforto?”, entendo que sim, e pretendo chegar lá em poucos parágrafos.

  Qual é o problema de se sentir familiarizado e seguro com algo? Nenhum, caros leitores. Em certa medida isso é uma característica biológica nossa enquanto espécie. Logo, sentir-se bem numa situação confortável é algo natural e humano.  Entretanto, e assim é a vida, muitas coisas extraordinárias apenas ocorrem quando nos colocamos em situações desconfortáveis, ao menos num primeiro momento. Quando nos sentimos muito confortáveis com um relacionamento, com um trabalho, com um estilo de vida, há uma tendência natural de esquecermos, ou ao menos perdemos o interesse, em outras formas alternativas de relacionamento, trabalho ou estilo de vida.  E qual é o problema com isso? O maior problema é que às vezes nos esquecemos o quão diverso e complexo é o nosso mundo, e que outras realidades poderiam ser tão ou mais “confortáveis” do que a realidade vivida dentro de uma zona de conforto.

  Pensemos no primeiro ato de nossa vida que é nascer. Creio que não podemos saber o que se passa na cabeça de um nascituro quando ainda está no ventre da sua mãe. Porém, uma criança com 8-9 meses de gestação já é indubitavelmente um ser humano. Dentro da sua mãe, a realidade é extremamente confortável. Eu imagino o choque que deve ser para uma criança ao sentir a luz pela primeira vez, o ar, um ambiente externo gigantesco. Talvez por isso haja todo um debate hoje em dia de como um parto poderia ser mais “humanizado”. Nosso ato ao nascer é uma saída de uma zona de conforto e nos primeiros momentos deve ser extremamente desconfortável. Porém, se estou escrevendo esse texto, se estou numa ilha da Tailândia, se tenho prazer em comer um sashimi, tudo isso é derivado do meu ato de nascer, de um ato de extremo de desconforto.

A primeira zona de conforto, talvez a maior de todas, deve ser enfrentada por qualquer ser humano que venha a existir.


  Isso, a existência de todas as possibilidades pelo fato de estarmos vivos derivada de um ato de saída de uma “zona de conforto”, deveria ser sempre um alerta para nós humanos de como coisas maravilhosas podem existir quando ousamos dar um passo fora do nosso mundo conhecido. O mundo é vasto, ele é imenso mesmo. Podemos pensar sobre isso de forma abstrata, mas essa realidade só se torna tangível quando olhamos por nós mesmos. As formas que as mais diversas pessoas vivem suas vidas são inúmeras. Logo, o lugar onde moramos, a forma como expressamos nossas opiniões e sentimentos, o trabalho que realizamos, as pessoas com quais interagimos no dia a dia, tudo isso é apenas uma fração muito pequena da realidade, é apenas uma maneira de viver a vida dentre tantas outras possíveis.

   As diversas “zonas de conforto” podem nos levar sim a paralisia e a ignorarmos tantas coisas bonitas, e feias também, que a vida e o mundo podem nos oferecer. Este e um grande problema, ou melhor dizendo uma grande perda de oportunidade. Entretanto, não é a maior delas. Uma coisa é realmente se sentir bem com a vida que se leva, outra é estar numa zona de “desconforto”, mas por receio, medo ou ansiedade ficar preso numa forma de existência que não nos traz bem-estar.

  O trabalho por exemplo. Posso estar infeliz, seja porque se ganha pouco ou porque não se encontra sentido no que faz, ou uma mistura de ambos. Entretanto, largar o emprego é uma atitude arriscada, “e se der errado?”. Estudar para fazer um concurso público, ou para se aprimorar na área, ou para mudar completamente de campo de conhecimento é desconfortável no início. Envolve talvez deixar de ver televisão, ler blogs, abrir mão de algumas coisas. Apenas a visão do esforço necessário para desafiar a situação atual de vida pode ser uma corrente que deixa a pessoa presa. Porém, estudar novos assuntos, se deparar com novos livros, novas formas de pensamento, por mais desconfortável que seja no começo, sempre será algo maravilhoso e muito provavelmente engrandecedor para a pessoa que se esforça nessa direção.

  A nossa saúde. É difícil muitas vezes largar alimentos nocivos e altamente viciantes. Fast food é muitas vezes comparado com cocaína, pois possui efeitos no cérebro muito parecidos no que toca ao mecanismo de satisfação e recompensa. Por isso, realmente é difícil do ponto de vista lógico fazer uma distinção, do ponto de vista dos malefícios para o ser humano,  tão profunda entre um traficante de drogas e um vendedor desse tipo de comida para o público infantil, por exemplo. Tratei desse tema ao falar de sucesso financeiro, e vi que é algo que toca profundamente as pessoas, e não pretendo me alongar mais uma vez nesse tema. Logo, assim como é difícil largar o cigarro, é difícil largar a “zona de conforto” do sendentarismo e da má alimentação. Na verdade, é desconfortável mesmo, sendo que dependendo do estágio de intoxicação alimentar (e fico abismado como isso está se espalhando feito uma doença em nossa sociedade), o nosso corpo irá estranhar uma alimentação mais saudável.

  Na verdade, os exemplos dados do trabalho e alimentação representam uma zona de desconforto. A pessoa se sente habituada e segura com algo, mesmo que essa situação não traga bem-estar para a mesma. A segurança e estabilidade é algo muito forte nas pessoas, mesmo que seja uma estabilidade e segurança de uma situação ruim. Não é à toa que dizem que o mercado financeiro prefere uma certeza ruim, a uma situação de incerteza. Não fomos criados para lidar com a incerteza, apenas com certezas. Também não é de se estranhar que muitas pessoas no Brasil enxergam o serviço público com brilho nos olhos. Porém, o incrível, é que o mundo é formado de incertezas, e até no nível fundamental da matéria jaz um cânone que se chama  Princípio da Incerteza (também já tratado nesse blog, princípio da incerteza e a precipitação dos seus investimentos). 

  O meu exemplo pessoal. Eu, no Brasil, vivia numa zona de absoluto conforto. Ao olhar um pen drive que trouxe na viagem para consultar o meu IR, não olhava o conteúdo desse dispositivo há quase nove meses, vi umas fotos do meu apartamento. Tomei até um susto.  Falei com a Sra. Soulsurfer algo como “mas esse apartamento é muito confortável, é quase luxuoso”. Depois de dormir cinco meses num carro, e trocar de pousadas, Hostels e guesthouses dezenas de vezes, ficando em quartos simples, olhar a foto da minha sala foi algo muito diferente.

Tenho que confessar que às vezes sinto falta de deitar neste sofá e ficar assistindo algum filme. Ou sentar na varanda e olhar as dunas e a natureza. Pensei em vender esse apartamento, mas é bom ter um porto seguro para chamar de casa, principalmente quando é um lugar que se sente bem. Por outro lado, olhar essa foto apenas me fez perceber o quão privilegiado eu sou, bem como que não preciso de tudo isso para ser satisfeito com a minha vida.


  É evidente que não preciso disso tudo para viver bem e feliz. Por outro lado, é bom saber que quando quiser retornar ao Brasil poderei voltar para algo tão confortável. O meu apartamento além de tudo é grande. Tem vista para o verde, mar, dunas. Fica a cinco minutos andando de uma praia com altas ondas, por uma trilha que passa por meio de vegetação e dunas grandes, e quando não é temporada pode se andar sozinho pela praia. Uma das coisas que mais gostava de fazer erra correr de manhã e tomar um banho de mar numa praia quase vazia. Conheço todos os vizinhos, sou amigo de muitos e me dou bem com quase todos. É uma rua sem saída, então não tem trânsito, o final da rua é uma mata fechada que começa o início da trilha para a praia. Mais zona de conforto do que isso, para o estilo de vida que gosto, é difícil. E olha que já morei na Califórnia e rodei por muitas cidades na costa da Austrália (cito esses exemplos específicos, pois em certa medida são parecidos com a minha cidade), e não sei se trocaria pelo lugar onde moro.

  Comida. Como sinto falta da comida brasileira. Todo dia precisamos comer comidas diferentes, num idioma diverso com temperos variados. Às vezes é muito bom, às vezes é muito ruim. Sinto falta de comer pizza, a melhor pizza do mundo que se encontra numa pizzaria não tão longe da minha casa. Não estou de brincadeira, é a melhor pizza disparada. Todos amigos que me visitam, eu levo nessa pizzaria, inclusive um blogueiro “Poeta Investidor” que estava de passagem pela minha cidade, fiz questão de levá-lo lá e foi bem legal.

Melhor pizza do mundo. Metade Série ao fundo, metade melhor da série. Que delícia. Pagaria uma bela grana para poder comer essa pizza estando onde estou. Aliás, qualquer pizza como essa em qualquer país do mundo é certeza de empreendimento de sucesso. Já passou pela minha cabeça a ideia de montar algo como isso nos EUA - Califórnia ou Austrália.


  Carro. Eu não sou aficcionado por carro. Tinha um I30 e achava extremamente confortável. Câmbio automático, banco de couro, carro extremamente silencioso. Eu como viajava bastante a trabalho, sentia que era bem seguro. Para onde eu fosse, poderia ir de carro de forma bem confortável. Hoje, pego transportes apertados. Tenho muitas vezes que carregar uma mochila relativamente pesada para procurar uma acomodação, já que não tenho transporte. Toda hora precisamos andar de scooter, ou negociar duro com motorista de táxi ou Tuk-Tuk, para conhecermos o lugar.

  Mesmo vivendo extremamente confortável, numa grande “zona de conforto” portanto,  resolvi temporariamente largar tudo isso e trocar por quartos simples, às vezes apertados, às vezes mal-iluminados, comidas não tão saborosas e gostosas, transportes lentos e apertados, e isso, ao contrário de ser uma experiência terrível,  está me fazendo muito bem mesmo, pois está me possibilitando ampliar ainda mais a minha visão desse lindo mundo e de certa forma sobre mim mesmo. 

  Ah, o trabalho. Minha maior zona de (des)conforto. Não foi difícil vender o carro, deixar o meu apartamento ou os quitutes da nossa culinária. Agora, estou prestes a tomar uma grande decisão. O meu trabalho é estável, bem remunerado, não tenho chefe (não no sentido de hierarquia de alguém determinando algo), posso fazer home office, não tenho horário. É o trabalho dos sonhos para muitos brasileiros. Porém, não sou satisfeito com aquilo que faço. Posso continuar no mesmo cargo, e com o patrimônio acumulado que possuo, ter uma vida para lá de segura financeiramente, sem se preocupar muito com yield, margem de segurança, juros reais, etc. Nomenclaturas que farão parte da minha vida de forma mais consistente acaso opte por um outro caminho. Será que vale a pena? Será que não vale a pena? Até que ponto essa segurança financeira vale a  não-satisfação? Jobs já disse no seu cérebro discurso de que "todos nós estamos nus". Eu estou 95% decidido, mas, como sempre fui uma pessoa conservadora e não sou genial como Steve Jobs, tenho os meus receios. Espero ter coragem e sabedoria suficiente para decidir se vale a pena desafiar essa zona de conforto, que na verdade para mim nos últimos anos mais se assemelhou a uma zona de desconforto. 


  Por outro lado, é preciso ter equilíbrio. Estamos, eu e minha companheira, sentido falta de um certo conforto na estadia. Por isso, resolvi tonar a viagem um pouco mais lenta, algo também conhecido como Slow Travel, e devo alugar um apartamento pelo Airbnb em Bangkok por umas três semanas. Recarregar as energias, escrever bastante (estou pensando em escrever um livro sobre viagem e outro sobre leilão), vivenciar mais uma incrível cidade da Ásia e se preparar para o caminho por terra até a Rússia. 



  Ache o seu ponto de equilíbrio, prezados leitores. É sempre bom desafiar-nos nas mais variadas esferas de nossa vida. É bom também termos um porto seguro. Agora, não se acostume com uma zona que não é de conforto, mas sim de desconforto. Não vale a pena. O mundo é amplo demais e a vida curta demais para sentirmos medo de mudar, e esse conselho vale para mim mesmo também.


  Grande abraço e se não escrever mais nada, um bom natal a todos!







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sábado, 19 de dezembro de 2015

BLOGUEIRO MILIONÁRIO, IMÓVEIS, RISCOS E ALEGRIA PELOS OUTROS

12 comentários : Postado por soulsurfer às 07:02 Marcadores: Finanças Pessoais , Reflexões
  Olá, colegas. Este artigo provavelmente será uma miscelânea. Eu escrevi vários esboços de textos, pois há tantos assuntos, mas resolvi comentar um pouco sobre o blog conhecido como Pobre Catarrento. Tenho descansado nos últimos dias e está sendo bem aprazível. Estou numa ilha não tão conhecida da Tailândia (Koh Lipe), e aqui é uma maravilha. Uma das ilhas mais bacanas que já estive. Tem bastante gente, mas nem de longe se compara as ilhas mais famosas de  Krabi, Pukhet, Koh Phi Phi, Ko Samui e Ko Tao (já tive a oportunidade de visitar todas em outras viagens). Além do mais, o lugar é lindo, muito bonito mesmo.  Assim, estou bem relaxado para escrever e irei fazê-lo por tópicos. Aliás, se um dia quiser viajar para um lugar e trazer sua família, com segurança, água mais cristalina que você já viu, preços baratos-razoáveis (é um pouco mais caro do que o resto da Tailândia), uma cultura lindíssima e um povo extremamente educado, que diferença para a gente, venha para Koh Lipe.

Koh Lipe  de dia...

Koh lipe no entardecer...

Nós, a praia, o barco e o macaco...

Essa preciosidade fica perto da Malásia. Estávamos na bela ilha de Langkawi na Malásia e resolvemos ir para a espetacular Lipe (fico feliz que tomei essa decisão).

UM BELO COMENTÁRIO

   O colega PC fez um artigo dizendo que passou a marca de 1M em patrimônio (a-vez-do-milionario-sr-catarro). Como número em si, isso não quer dizer nada. Assim como dizer que esteve em 100 países. São apenas números. Porém, é inegável que certos números exercem fascínio nas pessoas e funcionam como importantes barreiras psicológicas. Assim é o ser humano. Logo, em matéria de finanças pessoais, entrar na barreira dos sete dígitos é visto como uma grande conquista, e não deixa de ser, e isso com certeza é positivo para auto-estima. Portanto, fico contente que um colega tão simpático tenha atingido essa marca.

  Pelo dinheiro que fico contente? Não, colegas. Eu nunca dei, não dou, e possivelmente nunca darei importância demasiada ao dinheiro, principalmente como forma de sucesso humano (se quiser conferir já escrevi a respeiro sucesso financeiro não é sinônimo de sucesso humano), ou o que é pior e muitas pessoas fazem, como uma forma de julgar se uma pessoa é melhor do que a outra. Eu não faço a mínima ideia de quando quebrei a barreira mencionada, se foi em 2007, 2008, isso não importa para mim. Porém, o caminho sim é importante. Para se acumular uma determinada quantia, na esmagadora maioria dos casos, é preciso economizar, é preciso abrir mão de algumas coisas, e quanto menos se tem de início, o “sacrifício” exigido costuma ser maior. Assim como, e eu já cometi esse erro e percebo como fui tolo, o simples fato de visitar países não quer dizer nada. O que importa é o caminho que uma viagem pode fornecer, como a possibilidade de ver culturas, formas de ver a vida diferente, fazer amigos, perder o chão, perder o fôlego, etc. Se isso for feito em vários países é uma consequência, não é o objetivo. Logo, fico feliz pelo blogueiro, pois ele está concretizando os seus objetivos financeiros, e isso me deixa feliz.

  Por qual motivo me deixaria feliz? Há um conceito na parte mística do Judaísmo, também conhecida como Cabala, que uma das grandes virtudes que um ser humano pode ter é “comprazer-se com o prazer do outro”. Há um nome em hebreu para isso, mas eu esqueci. O que quer dizer? Basicamente, é ficar feliz com a satisfação do outro. Na nossa sociedade hoje em dia,  é difícil realmente ficarmos felizes com o sucesso de outros. Talvez sentimos que poderíamos ser nós no lugar. É um sentimento ruim, mas quem já não sentiu isso em alguma medida? Agora, quando realmente conseguimos ficar felizes com o sucesso dos outros, que sentimento maravilhoso! Nos sentimos leves e genuinamente felizes. Creio que evolui muito nesse aspecto nos últimos anos, e sinceramente era um dos meus objetivos enquanto ser humano.

  Logo, até mais do que a conquista pessoal do colega, eu fiquei feliz com o seguinte comentário feito por outro colega com Nick “Acumular Patrimônio”:

"Clap Clap Clap

PC, não tenho palavras para descrever o quanto fiquei feliz com esse post. Eu cheguei a abrir uma cerveja aqui e brindar em sua homenagem. Sério!"


  Eu achei fantástico o comentário. Um belo exemplo da aplicação da sabedoria mística judaica. Muito provavelmente os dois não se conhecem, assim um desconhecido ficou genuinamente feliz com a conquista de outra pessoa. Isso, meus amigos, para além do dinheiro, é qualidade de vida. É uma vida mais fácil de ser vivida. Imaginem se nos sentíssemos mais assim em relação a outras pessoas, e não apenas ao nosso círculo mais íntimo? Como o nosso mundo não seria diferente? Como não seria mais prazeroso nosso dia a dia. Isso nenhum modelo econômico pode captar. Isso não se pode ensinar, e pode parecer obtuso e sem sentido para alguns, mas apenas sentir. E isso para mim é, depois de que resguardado um mínimo para uma vida material digna,  o que nos faz realmente feliz na vida. Como as pessoas deixam se enganar e iludir que viajar de avião de primeira classe, ou andar num carro de luxo, é o que trará satisfação para elas a longo prazo? Eu sei o motivo, mas deixo para uma outra oportunidade esse tema.

LIQUIDEZ

  Eu avisei no começo que este post serIa uma miscelânea.  Quando escrevi brevemente sobre Renda Fixa nesse artigo  (breve guia sobre as classes de ativo) falei que existem três principais prêmios nessa classe de ativo: crédito (Credit Risk Premium), duration (Bond Risk Premium) e liiquidez . Tratei dos dois primeiros, mas não falei do último.

  Colegas, a falta de liquidez é um fator de risco. Ele deve ser remunerado, assim como o fator de risco crédito. Isso tudo é intuitivo, e qualquer livro sobre renda fixa irá abordar com mais profundidade a respeito. O nosso amigo PC já sentiu na pele o risco que é a ausência de liquidez, conforme ele relata nesse artigo aqui , onde ele teve que encarar um prejuízo de 35k para não deixar passar uma oportunidade.

  Amigos, há vários motivos para se ter dinheiro em alguma espécie de ativo líquido que não esteja sujeito a grandes flutuações e o artigo do PC é um exemplo prático. No Blog do Tetzner, eu sempre chamava atenção a este fato para vários colegas que não viam problemas numa estratégia 100% numa espécie de ativo. Porém, como explicar, que as pessoas podem deixar oportunidades passarem se não tiverem liquidez?

  O colega blogueiro agiu. Assumiu um prejuízo de 35k, pois no entendimento dele a oportunidade de negócio que ele poderia perder possui potencialmente espaço para retornar muito mais do que 35 mil reais (se não a conduta seria irracional do ponto de vista financeiro). Além de mostrar coragem de assumir o erro e encarar o prejuízo, tal conduta mostrou o apetite necessário para se assumir riscos para ter retornos maiores (o negócio já parte de um prejuízo de 35 mil reais).

  Porém, não é apenas em relação a dinheiro. E se alguém conhecer uma Norueguesa numa viagem e resolver largar tudo e montar uma pousada no nordeste. Será que a pessoa seguiria o projeto se estivesse 100% em ações num período de grande bear market?  Será que a pessoa entraria de sócio num empreendimento promissor se tivesse que realizar prejuízos de 100 mil, por exemplo, devido à falta de liquidez? Percebam que os exemplos podem ser muitos. Liquidez é sinônimo de facilidade de estar pronto para oportunidades, sejam elas financeiras ou não.

  É simples. Eu tenho um rendimento de 93% do CDI em LCA do BB, onde reservo minhas aplicações em renda fixa.  É um bom rendimento tendo em vista ser um instrumento líquido e de um banco de primeira linha. Isso dá uns 13% aa. Se eu conseguir um outro título de dívida, mais com iliquidez por 3 anos por exemplo, me pagando 108% líquido do CDI, o que não é fácil, isso daria algo em torno de 2% aa a mais. Logo, para cada 1M ilíquido, apenas para título de exemplo, eu seria teoricamente pago R$ 20.000,00 a mais por ano. Ao longo de três anos isso daria aproximadamente R$ 60.000,00. 

  O que isso quer dizer? Que estaria abrindo mão de qualquer oportunidade que aparecesse para mim até o valor de 1M por três anos pela quantia de R$60.000,00 (ou R$ 6.000,00 para cada R$ 100.000,00). Vale a pena, não vale a pena? Cada um deve sopesar, mas a ausência de liquidez pode nos fazer deixar de ganhar dinheiro ou simplesmente ser um obstáculo a mais na realização de outros objetivos.



RISCO, MERCADO FINANCEIRO E IMÓVEIS


    No mesmo artigo que escreve sobre a quebra da barreira psicológica de 1M, o PC fala que conseguiu um retorno alto com imóveis. Imóveis são ilíquidos. Pela ausência de liquidez, e portanto de precificação imediata, as pessoas acreditam que são investimentos mais seguros ou que seriam diferentes de ativos atrelados a imóveis como FII. Nem uma coisa, nem outra. 

  Eu, em minhas transações imobiliárias vou em direção à iliquidez. Contraditório? Não, colegas. No ramo imobiliário bem específico que gosto de atuar, a realidade é que quanto mais líquido for um imóvel (pense num belo apartamento, num belo bairro), mais concorrido é o leilão, e menor é a margem. Quanto maior a falta de liquidez, as margens, quando os diversos outros requisitos se fazem presentes para uma arrematação segura, tendem a ser muito maiores.

  Eu adoraria comprar apartamentos desocupados com uma margem grande com mais frequência (felizmente, foi o que ocorreu há alguns meses. Nunca imaginei que isso iria acontecer, ainda mais um apartamento a poucas quadras da minha casa. Sinal de crise, e de que as pessoas estão sem liquidez? Talvez, se for o caso, em que pese a crise,  vou me carregar de operações simples como esta), mas é difícil. Logo, a solução que encontrei foi ir em direção à iliquidez. Mas não é para ganhar 2% aa a mais, e sim 30-40%. Houve um caso que o retorno foi de 100% em um ano. Essa é uma iliquidez, em minha opinião, que vale a pena se expor.

   Isso vem do céu? É fácil? Claro que não. Primeiramente, como bem notado pelo Pobre Catarrento, é preciso correr riscos e sair do pensamento tradicional. No caso específico de imóveis, é preciso um certo acúmulo de capital prévio, seja para construir pequenas casas, seja para fazer prédios, seja para comprar à vista em leilões. Além do mais, cada área terá suas dificuldades, riscos e expertises. A que eu atuo, se feita uma boa análise dos riscos jurídicos-processuais (o que demanda treinamento específico e conhecimento técnico), é a mais sem risco. Já pensei em construir. Aliás, minha família construiu alguns empreendimentos. Meu pai resolveu construir um prédio de 10 andares em 1996-1997. Queria fazer algo produtivo num período difícil do país. Até hoje, quase 20 anos depois, meu pai tem alguns casos na Justiça cobrando dinheiro pela venda de algumas unidades. Sem contar que um amigo do meu pai da ordem, o meu pai já foi mestre Rosacruz, que estava junto no empreendimento deu um desfalque de grande monta. Até hoje ele ainda não pagou o que deve, o meu pai diz que isso pertence aos herdeiros (nas diversas vezes que toquei no assunto por qual motivo ele não o processou ainda), mas sempre o alerto sobre o prazo prescricional. Enfim, se o meu pai tivesse ficando numa simples renda fixa, na época de juros estratosféricos, talvez esse prédio pudessem hoje em dia a equivaler a uns 8 prédios.

   Sendo assim, construir possui riscos. A margem tradicional é na faixa de 40-50% para dois-três anos (basta ver a margem bruta da Eztec), e se tem risco de obra, risco de inadimplência, burocracia, risco de acidente, etc. Posso conseguir margens semelhantes em um terço do tempo, logo a ideia de construir não passa mais pela minha cabeça.  Porém, é um ramo que pode dar ótimos retornos, principalmente se feito com profissionalismo e cuidado.

  Evidentemente, não é sempre que se pode transformar um imóvel em dois imóveis em apenas um ano. Consegui uma vez. Tenho outro que talvez possa ser assim. É difícil, mas eu preciso de uma operação dessas a cada 3-4 anos para pagar minhas despesas do período. Logo, posso ter calma, mas quando aparece a oportunidade tenho que estar líquido e preparado.

  Eu não conseguiria nada disso no mercado financeiro. Isso ficou muito claro para mim. O mercado financeiro serve sim para multiplicar o patrimônio, mas em períodos longos de tempo, como já refleti nesse artigo (crescer ou manter o patrimônio? Um crescimento de 6% real ao ano, multiplica por 8 o capital em aproximadamente 36 anos, o período de uma geração. Evidentemente, isso é multiplicar o capital e foi assim que países ricos ficaram ricos, um acúmulo constante, longo e gradual de capital. Esse mesmo processo pode acontecer entre gerações. Entretanto, é um processo lento, e é necessário visão de muito longo prazo, algo cada vez mais em falta numa sociedade apressada e em pessoas impacientes.


  Se a pessoa quer retornos maiores, a possibilidade de fazer grandes aportes, terá que se arriscar em negócios “no mundo real”, seja com imóveis, seja comprando e vendendo empresas, abrindo franquias, exportando e importando, etc, etc. É claro que é possível prosperar rapidamente com o mercado financeiro, é apenas improvável, e mais improvável ainda para investidores amadores.


  Termino esse artigo, parabenizando o colega PC pelo caminho transcorrido. Porém, o que mais chama a minha atenção é a educação e simpatia do mesmo, não o seu patrimônio. Entretanto, sei o quanto é importante para ele, e como isso demonstra que os seus esforços estão sendo recompensados. Parabenizo também o colega que fez o comentário, oxalá esse tipo de postura fosse mais incentivada em nossa sociedade. Criticamos demais, apontamos os defeitos em outras pessoas demais, e isso não é sinal de uma sociedade equilibrada. Eu espero sinceramente que todos atinjam os seus objetivos. “Até mesmo para pessoas que não gostam de você, ou eventualmente te ofenderam?", sim até para essas pessoas. Posso não querer ser amigos delas (apesar de não ter nenhuma objeção em ser amigo), mas nunca desejo o mal. Além do mais, é muito melhor conviver com pessoas felizes porque conseguiram algo que as faça felizes, do que com pessoas frustradas e rancorosas. Desejo sucesso e sorte para todos. 

   Não se esqueçam que lliquidez tem o seu preço, e que na vida é preciso arriscar de vez em quando, é preciso ter aquele friozinho na barriga, aliás qual a graça seria se não sentíssemos mais aquela sensação de apreensão, esperança, receio, otimismo? Às vezes é isso que nos leva para frente, a darmos passos financeiros maiores, ou, num nível mais profundo, a entendermos a realidade de uma maneira mais ampla.

  Abraço a todos!

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terça-feira, 1 de dezembro de 2015

UMA ANÁLISE MAIS DETIDA SOBRE A DECISÃO DA CVM EM RELAÇÃO AO BLOG "O PEQUENO INVESTIDOR"

61 comentários : Postado por soulsurfer às 08:13 Marcadores: Finanças Pessoais , Reflexões
Olá, colegas. Iria escrever sobre refugiados nesse artigo, mas resolvi mudar o tema. Como tenho um certo tempo aqui no aeroporto, gostaria de abordar a decisão da CVM de suspender o blog bem conhecido na blogosfera financeira do “Pequeno Investidor”, pois creio que a questão é relevante. Iria escrever dois artigos, mas resolvi ser um pouco mais sintético e fazer apenas um. Irei abordar o tema por tópicos. Já aviso que o artigo terá muitas folhas, pois é difícil elaborar um raciocínio claro sobre o tema sem fazer uma breve digressão sobre diversos outros tópicos.

obs: O artigo está pronto há dias. Entretanto, fui a um parque nacional remoto em Bornéu e não havia internet por lá. Estou publicando esse texto  na cidade de Kota Kinabalu capital da província de Sabah. Escrevi vários artigos sobre Bornéu e um sobre a minha não ida a Brunei  e devo ir publicando aos poucos.

DEVE O ESTADO REGULAR PROFISSÕES E ATIVIDADES?

  Sempre parto da premissa de que se não entendemos os fundamentos, fica difícil discutir questões mais complexas. A primeira questão, base para tudo mais, é se o Estado deve ou não regular profissões e atividades. Aqui, remeto ao site do Instituto Mises Brasil. Há muitos artigos interessantes lá sobre regulação. Admito que me fizeram mudar de opinião sobre muitos aspectos. A linha central de argumentação do portal da internet em questão é que regulação do Estado apenas ajuda determinados grupos de interesse econômico, e não a sociedade como um todo. Eu creio que é um ótimo ponto, apesar de ter alguns pontos de discordância.

   Eu viajei 27 mil Km de carro na Austrália e Nova Zelândia. Fui ver no mapa, com essa distância percorrida poderia ir de Ushuaia (lindíssima cidade no extremo sul do nosso continente) até o Alasca e ainda sobraria alguns milhares  de quilômetros. Em toda essa enormidade percorrida, tive que colocar milhares de litros de gasolina. Eu e minha companheira o fizemos diretamente. Não há pessoas abastecendo o carro nos postos de gasolina nestes dois países. No Brasil, isso não ocorre, pois há uma lei que proíbe essa prática. Faz sentido essa regulamentação? Não, em meu ponto de vista. Isso apenas  faz os custos de um posto de gasolina maiores e tem como consequência com que não se invista em automação dos postos de gasolinas, o que de certa maneira faz com que o avanço tecnológico seja mais lento no país. Parece evidente que é uma regulamentação que atrapalha a vida da maioria das pessoas e protege os interesses de algum grupo bem restrito na sociedade.

  Jornalismo, por exemplo. Grandes jornalistas não foram para universidade de jornalismo. E precisa? Agora para escrever um texto preciso ter ido para uma faculdade? Não faz sentido, e parece uma reserva de mercado que simplesmente tem o condão de restringir a liberdade das pessoas sem qualquer grande justificativa. Assim como o caso de postos de gasolina e jornalistas, há diversas outras regulações de profissões e serviços que não fazem sentido, se entendermos que a função de uma regulamentação é melhorar a vida da maioria das pessoas numa determinada sociedade. Nisso, concordo plenamente com a linha editorial do Instituto Mises. 

  Entretanto,  não estou convencido que podemos ter uma completa desregulamentação em algumas profissões. Quando falo de profissões penso principalmente em médicos e engenheiros. Também não consigo imaginar uma atividade como uso de energia nuclear sem qualquer tipo de regulação estatal.  Portanto, como o escopo desse artigo não é tratar esse tema de forma profunda, e nem condições eu teria para isso, vou partir do meu pressuposto pessoal que a regulação Estatal sobre profissões e atividades deve ser a exceção, não a regra, partindo da premissa que deve haver uma clara e coerente justificativa para se limitar a liberdade das pessoas, pois qualquer regulamentação é sim uma restrição à liberdade individual. Se eu quero exercer a medicina, mas preciso ter ido a uma faculdade de medicina por determinação legal, claro está que minha liberdade foi diminuída. Porém, essa diminuição da liberdade individual em casos específicos talvez não seja necessariamente algo ruim, podendo até mesmo ser algo positivo para um melhor convívio em sociedade.


RÓTULOS DE CERTIFICAÇÃO


   Colegas, há um livro muito interessante chamado “Darwin vai às compras”.  É muito interessante mesmo. Como o artigo não será tão extenso, não vou entrar em muitos detalhes do livro, mas apenas num. Produtos, marcas, diplomas universitários, nada mais são do que símbolos de identificação individual numa coletividade. Uma bolsa original Chanel mostra que se tem dinheiro para outras pessoas.  Uma Ferrari demonstra sucesso financeiro e poder por parte do proprietário.  São símbolos reluzentes para a nossa sociedade, como vestir um colar cheio de caveiras de inimigos o era para algumas sociedades do passado. Não preciso dizer que a publicidade explora ao máximo esses símbolos de reconhecimento, já que o ser humano, algo que pode ser minorado por processos reflexivos,  quer ao máximo ser reconhecido dentro do grupo a qual pertence.

                                    Um livro excepcional!


Isso pode soar natural para os leitores. Entretanto, algo que não é tão intuitivo é o mesmo raciocínio aplicado a instituições educacionais ou entes qualificadores. Um diploma de Harvard de economia, como símbolo geralmente aceito,  mostra-se que  o detentor é inteligente e competente. Porém, um formado de Harvard em economia pode ter uma boa opinião sobre o mercado de capitais? Claro que pode. Ele necessariamente terá? Claro que não. Isso é apenas uma subvariante do argumento de autoridade, nada mais do que isso. Sempre chamou a minha atenção como as pessoas são facilmente impressionáveis com esses símbolos de identificação.

  Eu nunca me impressionei com títulos de doutor, universidades famosas, ou seja lá mais o que for. Lembro do meu mestre de capoeira que quando eu era adolescente me disse que “ o cordão branco - de mestre - serve apenas para segurar a calça”. Isso, apesar da simplicidade da frase, foi e é de uma grande sabedoria. Meu pai sempre disse coisas nesse sentido também. É evidente que para se chegar a mestre de capoeira, pressupõe-se que o indivíduo tenha bastante conhecimento sobre a prática, mas no final o cordão branco, o símbolo que identifica um mestre de capoeira,  serve apenas para fazer que a calça não caia, ou seja, o que importa é o real conhecimento do mestre de capoeira, e não o título exterior da sua condição de mestre, nesse caso o cordão branco.

  Logo, pressupõe-se que alguém com mestrado em Harvard em economia tenha conhecimentos sobre economia, mas obviamente num argumento econômico não se pode dizer “ah, um mestre em economia de Harvard disse isso, contrário ao seu argumento, logo você não tem razão”. Isso é um argumento fajuto e uma postura intelectual medíocre. Se alguém dedicou tempo numa universidade de ponta a estudar algum assunto humano, parece-me claro que essa pessoa terá inúmeros argumentos objetivos e racionais numa discussão sobre essa área de conhecimento. Não é necessário argumento de autoridade. Agora, se um “leigo" em economia tiver opiniões melhores do que alguém com mestrado em Harvard sobre algum ponto econômico, ao invés de se usar argumento de autoridade, que nesse caso parece mais uma “reserva de mercado intelectual”,  deveríamos ficar impressionados com o fato. Se um não-físico fala de física de forma melhor do que uma pessoa formada em física, isso só pode representar que a pessoa que não fez física é muito boa mesmo no assunto, pois sem formação formal, ainda consegue um entendimento melhor da matéria, o que demonstra uma competência muito maior.

   Uma vez disse a colegas de profissão, havia um membro do MP estadual também presente, que  eu não achava necessário ter diploma de direito para ingressar na nossa carreira. Na ocasião, o presidente de uma Associação Nacional ficou pasmo, assim como meus colegas. Apenas argumentei: “ora, se alguém que não fez faculdade de direito consegue passar num concurso para Juiz, Promotor, Procurador, Delegado, isso apenas mostra que essa pessoa é extremamente competente”. Houve uma reprovação geral a minha fala ( estou muito acostumado a estar nesse tipo de situação, e às vezes eu gosto, pois faz com que eu apure ainda mais minha capacidade argumentativa), mas não me deram nenhum elemento objetivo, a não ser argumentos como reserva de mercado e a necessidade de regulação, porém nenhum me disse porque é necessário a regulação, ou seja a necessidade de curso superior em direito, para esse caso.

   Eu tenho uma profunda admiração por pessoas que conseguem entender de um assunto por esforço próprio. Ora, se alguém quiser mesmo entender de direito, inclusive a sua parte técnica, não há nada que ela não possa encontrar em livros e em precedentes jurisprudenciais. Aliás, se as pessoas no curso de direito ficassem lendo em casa, ao invés de ir em aulas, tenho certeza que saberiam muito mais, e um exame ridiculamente fácil como o da OAB não teria índices de reprovação de 80-90%.


   Portanto, OAB, Harvard, certificação da CVM, etc, etc, são apenas rótulos de identificação que não necessariamente significam que o símbolo exteriorizado é compatível com a ideia que as pessoas tem desse mesmo símbolo. 


AGÊNCIA REGULADORAS NÃO FAZEM PARTE DO JUDICIÁRIO


  Aqui começo a tratar mais especificamente do caso do blogueiro em questão. Uma agência como a CVM não faz parte do Judiciário. No Brasil, apenas o Judiciário exerce jurisdição, ou seja a capacidade de dizer qual é o direito aplicável num conflito. A CVM pode multar, mas ela não pode expropriar bens para o pagamento dessas multas. Só o Judiciário pode fazer isso. Logo, se a CVM aplica uma multa isso não quer dizer que ela é devida, e muito menos que essa multa um dia será efetivamente cobrada. Quem pode dizer e fazer é o Judiciário e apenas ele. Até mesmo se as pessoas não quiserem resolver os seus problemas no Judiciário e conciliarem ou  escolherem um arbitrador, caso não haja cumprimento do acordado, apenas o Judiciário tem força para executar  o acordo extra-judicial.

   Logo, não podemos confundir “alhos com bugalhos”, agências reguladoras podem regular determinadas atividades, e podem exercer algum poder de polícia, mas elas não podem fazer atos que são tipicamente judiciais. A existência de agências reguladoras, que é uma espécie de Autarquia como o INSS, por exemplo, se dá única e exclusivamente para regular o funcionamento de alguma atividade tida como essencial. Assim, para toda a atividade envolvendo a cadeia de energia elétrica tem-se a ANEEL. Para regular o funcionamento de transporte via terrestres tem a ANTT. Até para regular o cinema o Brasil possui uma agência e se chama ANCINE. Há muitas agências reguladoras no Brasil, e tenho sérias dúvidas se precisamos de tantas, ainda mais para regular um assunto como artes cinematográficas.

   Porém, que fique claro, agências reguladoras não possuem poder jurisdicional, qualquer ato de uma agência pode ser questionado no Judiciário.


INSTRUÇÕES NORMATIVAS, REGULAMENTOS, RESOLUÇÕES NÃO SÃO LEIS E NÃO PODEM CRIAR DEVERES

   Colega, o subtítulo é claro, não vou repetir a mesma frase aqui. E por qual motivo isso ocorre? Porque vivemos num Estado de Direito, e gosto de pensar que nos encaminhamos para viver num verdadeiro Estado Democrático de Direito. Quando se vive nesse arranjo político, se parte da ideia de que apenas o legislativo, por meio de representantes eleitos pela própria população, podem restringir os direitos das pessoas. Esse princípio está insculpido em nossa Constituição Federal no Art.5, II, onde diz que:

 "ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei;"

   Esse é um dos princípios mais importantes que se encontra em nossa Lei Maior.  O Estado não pode criar deveres ou restrições por meio de atos emanados do Executivo (a não ser no caso de medidas provisórias, um instituto que foi completamente distorcido no Brasil). Não há a figura do Decreto Autônomo do Brasil, um decreto, uma resolução, instrução só podem ser existir para dar operacionalização a uma lei, eles não podem criar deveres. Pensem, prezados leitores, numa resolução da CVM como uma espécie de derivativo de alguma Lei, ou seja sem a Lei não pode existir a espécie derivada, no caso a resolução.


O MERCADO DE CAPITAIS DEVE SER REGULADO?

    Em minha opinião, sim. Deve existir alguma forma de regulação no mercado de capitais. É o que ocorre em todo mundo, e o Brasil evidentemente não deve tentar inventar a roda. Mesmo numa questão mais conceitual, creio que nas sociedades modernas o mercado de capitais tornou-se tão vital e importante, que alguma forma de regulação para previnir fraudes deve existir, e não podemos ser inocentes e achar que é impossível que elas ocorram quando há tanto dinheiro e instituições com elevado poderio econômico. Se deve haver muita ou pouca regulação nesse mercado específico, eu não sei e provavelmente não tenho  expertise e competência para falar objetivamente qual deve ser o tipo de regulação. Porém, alguma regulação mínima deve existir. 

   Portanto, o mercado de capitais é um ramo de atividade onde a regulação do Estado se faz importante, logo faz sentido a existência de uma agência como a CVM - Comissão de Valores Mobiliários para cumprir tal desiderato. Aqui, faço uma reflexão e mea culpa. Realmente, para se falar sobre um jogo, é imprescindível que se compreenda bem as regras do jogo.  Logo, para se falar de investimentos, é importante que se conheça as eventuais regulações do mercado. Evidentemente, não para ser uma especialista na parte jurídica, mas para ao menos se ter uma ideia das vedações que a legislação impõe. Reparo que esse fato é quase que ignorado pelos livros nacionais sobre o assunto e por toda blogosfera financeira (o blog pensamentos financeiros incluso). Se eu estivesse no Brasil e com acesso de internet rápido, eu baixaria as principais normativas sobre o tema para ter uma melhor compreensão.


A ATIVIDADE DE ANALISTA DO MERCADO DE CAPITAIS DEVE SER REGULADA?


   Se o mercado de capitais deve ser regulado isso implica necessariamente que a atividade de analista de valores mobiliários deve ser regulada? Deve o Estado dizer quem pode ou não analisar ativos mobiliários? Deve o Estado exigir alguma espécie de certificação para que essa atividade seja legalmente exercida?

   Eu, com a devida vênia de quem pode pensar contrariamente, tenho sérias dúvidas de que o Estado deveria se imiscuir nesse assunto. Veja, uma coisa é a Lei, ou seja a regulação Estatal, tentar evitar situações de conflito de interesse, fraudes ou atitudes que podem potencialmente lesar dezenas de milhares de pequenos investidores. Outra coisa muito diferente é exigir que alguma pessoa tenha que passar por um processo de certificação estatal para emitir opinião sobre valores mobiliários. É muito diferente, em minha opinião, o ato de realizar uma cirurgia cardíaca numa criança de dois anos (daí talvez a necessidade de haver regulação estatal para a profissão de médico) de analisar uma empresa em bolsa, ou a emissão de uma Debênture da Vale do Rio Doce, por exemplo.

   É preciso deixar claro que qualquer regulação do Estado sobre atividades e profissões será um cerceamento da liberdade. No caso específico de uma analista de valores mobiliários, um cerceamento à liberdade de livre expressão. Nenhum direito, talvez apenas a dignidade da pessoa humana, pode ser absoluto. Eu não acredito em direitos absolutos.  Nem mesmo o  direito à vida, já que uma pessoa pode ser legalmente morta se ameaçar a vida de uma outra pessoa e for essa a única forma de auto-defesa. O direito de liberdade de expressão não pode ser absoluto. Porém, é preciso ter motivos e razões muito fortes para que o direito fundamental de se expressar possa ser tolhido em algumas ocasiões. Veja, o tolhimento desse direito deve ser a exceção, e é necessário ter uma bela justificativa para tanto.  Eu não vejo essa justificativa no caso em análise.

   Obviamente, esse é um juízo de valor meu, não um juízo de fato, logo não posso afirmar que eu estou sem sombras de dúvida correto e outras opiniões não tem qualquer valor. Porém, é o que acredito ser mais correto com o direito de liberdade de expressão previsto em nossa Constituição. Seria uma regulação desse tipo  inconstitucional ou apenas  uma opção equivocada do Estado? Eu não saberia dizer, e estaria aqui numa linha tênue argumentativa. É por isso, colegas, que o direito está longe de ser um conhecimento humano sem diversas interpretações, e não possui nenhum caráter científico. Eu sempre acho engraçado quando vejo profissionais da área falando “Ciência Jurídica”. Não há nada de científico no direito, e na minha opinião nem em economia. Em assuntos como esses, geralmente há diversas opiniões no mínimo defensáveis.


O QUE DIZ A LESGISLAÇÃO (LEI 6385-76)

  A lei que regula o mercado de valores mobiliários no Brasil, e que criou a Comissão de Valores Mobiliários - CVM,  é a de número 6385 de 1976  sancionada em plena ditadura militar pelo Presidente Geisel. Essa é a lei no qual qualquer regulamento ou instrução da CVM deverá se basear. Eu já tive a oportunidade de trabalhar junto à CVM, mas não me interessei na época (teria me interessado se tivesse sido lá por 2005-2006), pois teria que mudar para Brasília, e eu já estava num momento da minha vida onde estava refletindo muito sobre dinheiro, poder, felicidade, tempo livre, satisfação, etc, todos os temas que procuro abordar por aqui. Tenho certeza que se lá atuasse, sairia com expertise mais do que suficiente para atuar num nicho bem específico e bem pago de advocacia, caso optasse por seguir na iniciativa privada. Como não fui para lá, eu não conheço absolutamente nada da matéria, e antes de preparar esse artigo, nem a lei básica sobre a matéria eu tinha lido. Entretanto, pelo meu conhecimento, a CVM é uma das autarquias mais técnicas que existem no país. 

    Deixo aqui claro que não sou especialista na matéria, e apenas olhei rapidamente o conteúdo da mesma. Não tenho tempo, nem acesso a internet de qualidade, para esmiuçar jurisprudência e artigos doutrinários sobre o tema. Talvez o fizesse, acaso não estivesse viajando. Portanto, os próximos parágrafos são apontamentos dos mais básicos possíveis. 

    Começo pelo quase final da lei, a parte onde a mesma institui crimes (sim, apenas lei pode instituir crimes, chama-se princípio da legalidade em direito penal) e foi o artigo citado nos outros dois blogs (Di Finance e Economicamente Incorreto) que abordaram o tema:

   "Art. 27-E. Atuar, ainda que a título gratuito, no mercado de valores mobiliários, como instituição integrante do sistema de distribuição, administrador de carteira coletiva ou individual, agente autônomo de investimento, auditor independente, analista de valores mobiliários, agente fiduciário ou exercer qualquer cargo, profissão, atividade ou função, sem estar, para esse fim, autorizado ou registrado junto à autoridade administrativa competente, quando exigido por lei ou regulamento:

        Pena – detenção de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos, e multa.  (todos os grifos são meus)"


  Para entender a extensão desse artigo de lei, e os conceitos por ele citados (grifados por mim), é imprescindível olhar outras partes da lei, é o que irei fazer a partir de agora.

    A lei em seu primeiro artigo declara que:

“Art. 1o Serão disciplinadas e fiscalizadas de acordo com esta Lei as seguintes atividades
I - a emissão e distribuição de valores mobiliários no mercado;         
II - a negociação e intermediação no mercado de valores mobiliários;         
III - a negociação e intermediação no mercado de derivativos; 
IV - a organização, o funcionamento e as operações das Bolsas de Valores; 
V - a organização, o funcionamento e as operações das Bolsas de valores
VI - a administração de carteiras e a custódia de valores mobiliários; 
VII - a auditoria das companhias abertas; 
VIII - os serviços de consultor e analista de valores mobiliários. “
  
Percebe-se que o escopo da lei é a regulação do mercado mobiliário, os seus intermediários, administradores e analistas. Assim, faz-se necessário saber o que são valores mobiliários para a lei, e isso é definido no artigo segundo:

"Art. 2o São valores mobiliários sujeitos ao regime desta Lei: 
        I - as ações, debêntures e bônus de subscrição;
        II - os cupons, direitos, recibos de subscrição e certificados de desdobramento relativos aos valores mobiliários referidos no inciso II; 
        III - os certificados de depósito de valores mobiliários; 
        IV - as cédulas de debêntures; (Inciso incluído pela Lei nº 10.303, de 31.10.2001)
        V - as cotas de fundos de investimento em valores mobiliários ou de clubes de investimento em quaisquer ativos;
        VI - as notas comerciais; 
        VII - os contratos futuros, de opções e outros derivativos, cujos ativos subjacentes sejam valores mobiliários; 
        VIII - outros contratos derivativos, independentemente dos ativos subjacentes; e 
        IX - quando ofertados publicamente, quaisquer outros títulos ou contratos de investimento coletivo, que gerem direito de participação, de parceria ou de remuneração, inclusive resultante de prestação de serviços, cujos rendimentos advêm do esforço do empreendedor ou de terceiros.

§ 1o Excluem-se do regime desta Lei:
        I - os títulos da dívida pública federal, estadual ou municipal; 
        II - os títulos cambiais de responsabilidade de instituição financeira, exceto as debêntures.”


   Sendo assim, ao contrário do que algumas pessoas pensam, o mercado de renda fixa também pode se constituir um valor mobiliário quando as empresas se endividam via debêntures. A Lei exclui expressamente os títulos públicos do escopo da lei. Assim, aparentemente analisar uma debênture da Vale do Rio Doce faz a pessoa se sujeitar aos ditames da lei em comento. Comentar uma Letra do Tesouro Nacional não. Para mim, pelo menos numa primeira análise, não faz muito sentido. Ambos são instrumentos de dívida, e há possibilidade de calote em ambos, com o agravante de que numa debênture a pessoa sabe do risco, e quando empresta para o governo nem sempre.

  A Lei então discorre sobre a criação da CVM, suas atribuições, sua estrutura orgânica e muitos outros detalhes. Nos artigos nove e onze, a Lei fala sobre a fiscalização e apenamento de eventuais descumprimentos. Dos artigos 12 até vigésimo segundo, a lei trata sobre os agentes que distribuem, emitem, e intermediam valores mobiliários. O assunto é interessante, mas não é pertinente para a análise do caso em questão.

  O artigo 23 trata da administração de carteiras. Importante ressaltar que a Lei diferencia o administrador de carteiras do analista de valores mobiliários. Esse é o teor do dispositivo:

"Art . 23. O exercício profissional da administração de carteiras de valores mobiliários de outras pessoas está sujeito à autorização prévia da Comissão.
        § 1º - O disposto neste artigo se aplica à gestão profissional e recursos ou valores mobiliários entregues ao administrador, com autorização para que este compre ou venda valores mobiliários por conta do comitente.
        § 2º - Compete à Comissão estabelecer as normas a serem observadas pelos administradores na gestão de carteiras e sua remuneração, observado o disposto no Art. 8º inciso IV.” (grifos meus)

  
  Portanto, colegas, administrar carteira de outras pessoas, desde que haja ativos mobiliários, não é permitida pela lei, ao menos que você possua autorização específica da CVM, e que creio não se confundir com a certificação para ser analista de valores mobiliários. A Lei diz claramente o exercício profissional, o que presume que a pessoa está exercendo profissionalmente por meio de contrapartida monetária. Entretanto, o Art.27-E parece não apontar para essa interpretação, volto ao tema em instantes.

  Chega-se então ao art.27 que aduz:

"Art . 27. A Comissão poderá fixar normas sobre o exercício das atividades de consultor e analista de valores mobiliários.”
  
     A lei é clara ao afirmar que a CVM poderá fixar regulação sobre o exercício da atividade de consultor e analista de valores mobiliários, ou seja, não há obrigação da existência de regulação, como a lei expressamente determina para gestores de carteiras. Lembrem-se, colegas, Autarquias não podem criar leis, ou seja não podem criar deveres, pois isso fere a Constituição Federal, mas precisamente o art.5, II. A CVM possui uma instrução de número 483 de 2010. Como não é o foco desse artigo um detalhamento minucioso de pormenores legais, e no momento nem teria capacidade de o fazer, cito apenas o artigo primeiro:

"Art. 1º  Analista de valores mobiliários é a pessoa natural que, em caráter profissional, elabora relatórios de análise destinados à publicação, divulgação ou distribuição a terceiros, ainda que restrita a clientes.

§ 1º  Para os fins da presente Instrução, a expressão “relatório de análise” significa quaisquer textos, relatórios de acompanhamento, estudos ou análises sobre valores mobiliários específicos ou sobre emissores de valores mobiliários determinados que possam auxiliar ou influenciar investidores no processo de tomada de decisão de investimento.”


A lei mais uma vez diz que a atividade deve se dar em caráter profissional  A instrução então nos seus variados artigos vai discorrer sobre diversos aspectos que um analista deve se submeter. Inclusive, há a exigência sem menor sentido, em minha opinião, que para ser analista de valores mobiliários é preciso ter curso superior. 

  Depois desse breve “passeio" pela lei de regência da matéria, podemos voltar novamente ao art.27-E:

   "Art. 27-E. Atuar, ainda que a título gratuito, no mercado de valores mobiliários, como instituição integrante do sistema de distribuição, administrador de carteira coletiva ou individual, agente autônomo de investimento, auditor independente, analista de valores mobiliários, agente fiduciário ou exercer qualquer cargo, profissão, atividade ou função, sem estar, para esse fim, autorizado ou registrado junto à autoridade administrativa competente, quando exigido por lei ou regulamento:

        Pena – detenção de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos, e multa.  (todos os grifos são meus)"


   Colegas, a Lei não faz qualquer distinção entre serviço remunerado ou não. A Lei não fala que gerir uma carteira com valores mobiliários de um terceiro, sem autorização da CVM, gratuitamente não se enquadraria no art.27-E da Lei, ou seja seria não só uma infração, mas um crime punível com detenção. Há, e aqui falo tendo feito apenas uma análise superficial, uma aparente contradição entre o art.23 da Lei que fala de gestão profissional, e o caput do artigo em comento que fala mesmo que a título gratuito. O mesmo raciocínio se aplica ao analista de valores mobiliários.

  Vejam, você, se não for médico, ou advogado com inscrição na Ordem dos Advogados, não pode exercer a medicina ou advocacia, mesmo que ofereça serviços gratuitos, ou seja não atue profissionalmente. Logo, se aplicássemos a mesma lógica aqui, o fato de se cobrar ou não por um serviço de gestão de carteiras ou análise de valores mobiliários não faria que a atividade não fosse ilegal, e em tese enquadrável como crime.


  Entretanto, essa me parece uma interpretação muito estrita da lei, e se fosse assim, nos aproximaríamos e muito da censura. Portanto, creio que é muito prudente se alguém quer cobrar por serviços de consultoria financeira que peça autorização da CVM ou que se certifique junto às empresas credenciadas pela CVM.

  Depois de ler a Lei em toda a sua extensão, tenho que confessar que tenho sérias dúvidas de que sites profissionais e que cobram por serviços  de análise de valores mobiliários como do Bastter e Tetzner, se as pessoas que realizam os serviços não forem certificadas , estejam de acordo com a legislação sobre o mercado de capitais


O BLOG PEQUENO INVESTIDOR

   Eu não acompanho muito o blog do Pequeno Investidor. Eu quando estava iniciando minha jornada de auto-conhecimento em finanças pessoais li diversos artigos desse site. A primeira vez que li sobre o conceito de Equity Bond foi num artigo lá. Nunca achei que os textos eram profundos e instigantes como o blog do Viver de Renda, por exemplo.Entretanto, é inegável que o Fabio criou um espaço conhecido na internet e creio que foi e ainda o é de extrema valia para investidores iniciantes.


    Vejam, colegas, já disse aqui diversas vezes que o livro mais completo de finanças que já tive o prazer de ler é um chamado “Expected Returns”. É um calhamaço o livro, com letras pequenas, folhas grandes , dezenas de notas de rodapé (cada uma quase sempre citando um artigo ou um livro) e um conteúdo digno de profissional de gestão de primeira linha. Talvez nem mesmo gestores profissionais intermediários tenham um pleno domínio de tudo que é abordado no livro. Por exemplo, a estratégia de investir em BONDS, ou mercado de dívida, como uma escada com maturidades diferentes para diminuir a Duration média da carteira, tema muito bem abordado pelo blog do Investidor Internacional num artigo recente, é básica no mercado de dívidas, mas quase nunca li nenhum texto a respeito no Brasil. Não é sobre esse tipo de coisa que o “Expected Returns” trata, até porque a expertise do autor é mercado de dívidas. São quase 100 páginas só sobre renda fixa numa profundidade que não há nada nem remotamente parecido produzido no Brasil. É conhecimento de primeira linha mesmo.

Se realmente quer se aprofundar em finanças, e quem sabe seguir profissão na área, muito mais do que qualquer certificação, leia esse livro.


   Agora, uma pessoa que ganha R$ 4.000,00 por mês e gasta os R$ 4.000,00 mensalmente precisa ler sobre complexidades do mercado de dívida? Talvez nem mesmo sobre Tesouro Direto essa pessoa precisa ler. O que talvez esse indivíduo precise é ler um livro como “Pai Rico, Pai Pobre” e dar o estralo que economizando R$ 0,00 por mês, ele não vai a nenhum lugar do ponto de vista financeiro. Talvez depois dessa conscientização, ele poderá ir atrás de tesouro direito, FII, mercado acionário etc. Depois disso, acaso seja do interesse do mesmo, se especializar ainda mais em doutrinas mais complexas e completas. 


  Qual é o ponto desse meus últimos dois parágrafos? O fato que alguém às vezes precisa ler textos simples, falando de forma simples, que nossos blogs amadores (o blog pequeno investidor até é bem maior do que a maioria dos blogs por aqui)  produzem.  Logo, eu nunca diria que um blog como o Pequeno Investidor é desnecessário, ou que é uma perda de tempo, pois há artigos muito melhores produzidos em outros espaços. Ás  vezes a forma de escrita do blog em questão pode ser atraente para muitas pessoas, muito mais do que ler um livro clássico como “O Investidor Inteligente”. Em alguns casos, um livro mesmo que simples como “O Investidor Inteligente” pode simplesmente afastar as pessoas de uma maior educação financeira. Por isso, acho tão interessante a blogosfera financeira. São pessoas comuns falando sobre seus objetivos financeiros para pessoas comuns, e isso pode ser muito mais motivador do que algum analista de uma grande instituição financeira falando sobre finanças pessoais.



A NECESSIDADE DE SE CUMPRIR AS LEIS

   Quando se vive num Estado de Direito, não se pode eximir-se de cumprir alguma lei alegando desconhecimento da mesma. Isso é um princípio jurídico elementar. Se assim não o fosse, um assassino poderia alegar que não sabia que matar uma pessoa era crime. A única forma de não se cumprir uma lei é a revogação da mesma ou a declaração de inconstitucionalidade, que só pode ser feita pelo Judiciário já que todas as leis presumem-se constitucionais (isso é um princípio interpretativo em direito constitucional). 

  Portanto, eu posso achar que a regulação da atividade de analista de valores mobiliários indevida. Posso acreditar que é uma violação do livre pensamento sem que haja uma justificativa muito forte para tanto, mas tenho, enquanto cidadão, aceitar que para ser analista de valores mobiliários é necessário se submeter a uma certificação estatal.   Há muitos autores, Thoreau é um deles, que pregam que se pode resistir às leis, a chamada desobediência civil. Se uma lei é odiosa, eu creio que sim a sociedade e os indivíduos podem se opor a mesma, mas é preciso ter claro que a força estatal às vezes pode ser implacável. Evidentemente, quando falo de alguma lei odiosa não estou a falar sobre a regulação de uma atividade como analista de valores mobiliários. Não vejo nenhum grande motivo para que uma desobediência civil fosse aceitável nesse caso.

   Se a Lei diz que não se pode analisar valores mobiliários sem ter uma certificação estatal, a única maneira de mudar as coisas, se considerarmos a inexistência de inconstitucionalidade nisso, é modificando a lei. Uma lei pode ser simplesmente ruim sem ser necessariamente inconstitucional.

   Se uma lei não foi respeitada, é dever do Estado aplicar as sanções previstas em legislação ou ao menos instalar procedimento para que se apure em quais condições houve o descumprimento dessa legislação. 


PARA OS AMIGOS TUDO, PARA OS INIMIGOS A LEI

   A frase é bem conhecida e infelizmente uma realidade para países com um grande gap social e institucional como o nosso. Quer dizer que a lei sempre é aplicada para todos os indivíduos em todas as situações de forma idêntica em países desenvolvidos? Não, claro que não. Porém, é muito mais difícil imaginar a situação de dois atos idênticos praticados por uma pessoa poderosa e outra não tão poderosa, desde que os dois sejam de público conhecimento, terem um tratamento jurídico diferente num país como a Nova Zelândia. Entretanto, não somos Kiwis, e infelizmente a Justiça não parece ser tão cega no Brasil quando da aplicação de sanções pelo descumprimento de leis.

  A aplicação diferenciada da legislação para situações semelhantes causa um tremendo mal-estar na sociedade e a sensação de impunidade. Num ambiente assim, é difícil evitar tensões graves no tecido social. Quando se tem a impressão de que só vai para cadeia favelados, negros e excluídos, algo que sempre teve presente em nossa psique social, é impossível criar uma população que respeite as regras.

  É por isso que uma operação como a Lava-Jato, e o julgamento do “Mensalão" em muito menor escala, são marcos na história do nosso país. Empresários riquíssimos estão não só sendo investigados, bem como presos. Políticos estão sendo presos. Quando isso ocorre, passa-se uma mensagem para toda sociedade que a Justiça começará finalmente a ser cega e não olhar as condições sociais e econômicas de pessoas investigadas-processadas, mas sim apenas os fatos trazidos à juízo. Isso pode ter um efeito transformador enorme em nossa sociedade. Porém, necessita tempo, e teremos que aguardar o que ocorrerá nos próximos dez anos.

   Entretanto, o fato de pessoas e empresas com mais poderio econômico serem atores recentes nos bancos de réu, obviamente não justifica que o Judiciário, órgãos repressivos como a Polícia ou Agências Reguladoras quando fazem esse papel, não apliquem a legislação em pessoas e empresas com menos poderio econômico. Argumentar em sentido contrário, seria um erro argumentativo, ou um argumento fajuto como procurei demonstrar no meu artigo com o mesmo nome. É exatamente o mesmo caso de quando A fala que assassinar uma pessoa, excetuando os casos de legítima defesa, é errado e B replica afirmando que isso não é verdadeiro, pois A já matou sem ser em legítima defesa. O argumento de A não foi rebatido com a fala de B, aliás B em nada se contrapôs ao argumento de A. Não se pode dizer que uma conduta vedada em Lei praticada por A não deve ser combatida, pois um agente mais poderoso B  teve a mesma conduta e não sofreu represálias. Isso é uma falácia argumentativa.

  Ora, se a CVM por ventura não aplicou a legislação em relação a um agente econômico mais forte, isso em nada justifica que um agente mais fraco, no caso o Blog Pequeno Investidor, não deva sofrer as sanções previstas em lei, acaso o mesmo tenha violado algum dispositivo legal. 

  Devemos ser críticos vorazes de uma aplicação seletiva da Justiça ou de pressão de órgãos que exercem poder de polícia. Em minha opinião, isso também se aplica a vazamentos seletivos de operações investigativas em curso, que é aliás um dos calcanhares de Aquiles  do processo de apuração de inúmeros desvios batizado de lava-jato.  Entretanto, não é porque a atuação de um determinado órgão foi tíbia numa determinada ocasião, que a mesma também deve ser fraca em outra ocasião, pois isso é o caminho para o caos.


SOBRE A BLOGOSFERA FINANCEIRA AMADORA

    Colegas, diversas vezes já teci elogios ao que se convencionou chamar blogosfera financeira. Apesar do adjetivo “financeira”, há vários blogs que tratam de tudo menos finanças pessoais. O meu espaço também procura falar de uma gama variada de questões e não se restringe a finanças. Há artigos bons e ruins. Há blogs mais fracos e outros mais consistentes. Cabe a cada leitor fazer as suas escolhas de leitura. 

  Por acaso não é assim que o mercado funciona? Se há diferentes pizzarias numa cidade, cabe aos consumidores escolher quais irão frequentar. O mesmo ocorre com os diversos blogs. Não tenho qualquer problema de blogs lançarem livros ou promoverem outros materiais, por mais fracos que eles possam ser em alguns casos. Ora, cabe a cada um escolher no que gastar o seu tempo e dinheiro. Argumentar contrariamente a isso de um lado, e de outro se mostrar um entusiasta do livre-mercado é uma bela contradição. 

  A esmagadora maioria dos textos produzidos são gratuitos. Muitos são de qualidade e quase todos, mesmo que alguns por ventura não sejam de tão boa qualidade, mostram um desprendimento genuíno daquele que escreveu. O ato de escrever não é fácil. Quando você expõe as suas ideias ao mundo, assume também o ônus que é ter suas ideias criticadas. Por isso, quando vejo alguns artigos dizerem que não suportam opiniões contrárias, só posso concluir que eles não sabem muito do que estão falando. Quando se expõe uma ideia ao público, a contrapartida é saber tolerar críticas, sendo que muitas delas poderão até mesmo fortalecer nossas ideias preestabelecidas ou até mesmo fazer nos mudar de opinião. Mas, às vezes, por mais treinado que seja o indivíduo, é preciso paciência para ouvir e ler críticas.

   Assim, o ato de escrever para o público, não de forma anônima, é um ato de coragem. Num mundo onde estar errado parece ser um crime e perder dinheiro coisa de “otário”, ler blogs onde as pessoas contam sobre os seus erros no mercado financeiro é muito bacana, pois demonstra sim coragem e desprendimento do que terceiros possam pensar. Sendo assim, temos sim que congratular a existência de uma rede de blogs que tratam sobre finanças pessoais e assuntos correlatos direcionados a pessoas comuns.

  Até pouco tempo atrás quase todos acreditam que a carteira de ações da semana indicada pela corretora X ou Y era uma análise muito boa do mercado acionário. Talvez a esmagadora maioria das pessoas ainda acredite nisso, mas não, quero crer, a maioria das pessoas que lê sobre finanças pessoais nos blogs financeiros. O gozado é que um pequeno blog pode causar essa balbúrdia, mas comportamentos como esses de agentes certificados pelo Estado que servem única e exclusivamente para girar patrimônio e comissões, está tudo certo aos olhos dos experts. Não faz sentido para mim do ponto de vista racional e filosófico, mas se a lei é essa, cumpra-se a lei.

  Não creio existir problemas de ordem jurídica para blogs amadores da blogosfera financeira que não cobrem por serviços.  Por mais talvez que a lei não fale isso expressamente, se algum colega queira cobrar por qualquer tipo de serviço relacionado ao mercado de capitais, seja por envio de relatórios, análise de carteiras, de ativos, etc, certifique-se junto ao órgão competente. Nessas coisas, sempre procuro ser conservador, e creio que os demais colegas deveriam também ser nesse assunto.


  Um grande abraço a todos!!

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