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segunda-feira, 4 de janeiro de 2016
TAILÂNDIA - UMA VIRADA DE ANO FABULOSA NA "CIDADE DOS ANJOS"
Olá, colegas! Antes de mais nada, desejo um bom ano novo para todos. Eu, sinceramente, não me impressiono tanto com esse tipo de data. O eterno ciclo de finais e começos é bem conhecido na filosofia oriental, e está presente em muitos conceitos para vários correntes místicas dessa parte do mundo. Nós, ocidentais, até pela nossa raiz cultural e religiosa, não refletimos tanto sobre isso. Porém, parece-me evidente que o final de ano, mesmo que seja um dia como qualquer outro, encarna o ciclo de fim-começo-fim, pois parece ser para muitas pessoas a oportunidade de um novo recomeço, onde todas as esperanças e sonhos podem se renovar, deixando para trás no ano finalizado eventuais frustrações. É claro, como é apenas mais um dia e as pessoas continuam exatamente as mesmas (assim como o mundo), que a esmagadora maioria dos sonhos e esperanças não se concretizarão no ano novo vindouro, mas para isso sempre haverá mais um ano novo, onde ter-se-á mais uma oportunidade para agora sim realizar todos os projetos que alguém eventualmente possa acalentar.
Apesar de não ser um dia especial para mim, assim como o natal também não o é, eu desde jovem sempre compreendi o que significava para a esmagadora maioria das pessoas. São momentos alegres, onde as pessoas gostam de confraternizar umas com as outras, e isso é algo muito positivo, saudável e bonito. Bom seria se todos os dias fossem ano novo ou natal, como o mundo e nossas sociedades não seriam? Uma mudança tão simples de comportamento traria mudanças tão profundas na forma em que vivemos que nenhuma teoria filosófica, econômica ou política conseguiria prever. Logo, essas datas, por esse estado de humor das pessoas, costumam ser interessantes para mim.
O meu ano novo não poderia ser mais diferente . Foi na “Cidade dos Anjos”, também conhecida por nós ocidentais como Bangkok. Já tive a oportunidade de visitar essa cidade muitas vezes, até porque junto com Cingapura e Kuala Lumpur, é um dos maiores hubs dessa parte do mundo. Foco nesse artigo apenas na minha experiência de ano novo nessa fantástica cidade.
Em outras ocasiões já passei a virada do ano em lugares muito inusitados. Como esquecer a vez que estava em Hanói, capital do Vietnã, e os vietnamitas me confundiram com um jogador de futebol europeu famoso. Os vietnamitas são fechados no começo, mas basta abrir um sorriso para eles que eles retribuem com um sorrido ainda maior. Logo, foi um ano novo tirando fotos com inúmeras pessoas que pediam e sorrindo para dezenas, quiçá centenas de pessoas. Ou o final de ano passado no deserto de Thar na fronteira entre Paquistão e Índia (umas das regiões mais tensas do mundo) na presença de um guia chamado Mr. Desert. Tenho um vídeo que é um dos mais legais que eu já fiz, quando o mesmo improvisou uma queima de fogos no meio do deserto. Dormirmos a virada do ano literalmente a céu aberto, no meio de dunas, sendo acordado de noite por um cachorro que vinha nos acompanhando por algumas horas, num dos maiores sustos que já tomei. Ou o final do ano num dos lugares com as praias mais lindas do mundo: El Nido na ilha de Palawan, Filipinas. Tinha feito três mergulhos no dia e meu ouvido estava doendo, a cada explosão de fogo de artifício era um verdadeiro martírio para mim. Ou, mais recentemente, no deserto ao norte do Peru, em Lobitos, um lugar com altas ondas no meio do nada. Enfim, já passei viradas de ano muito interessantes.
Entretanto, esta foi a mais diferente. Primeiramente, o ano novo para os Tailandeses é em abril, pois o calendário deles não é o mesmo que o nosso. Eles estão no ano 2558, não em 2016, já que levam em conta a vida do Buda histórico, não de Cristo. Porém, como é comum em países Asiáticos, eles “adotaram" esse dia como um motivo a mais para comemorar e unir-se com familiares e parentes. As festividades do ano novo Tailandês duram três dias e envolve basicamente reunir-se com amigos, familiares e refletir sobre ações feitas no ano que se passou. Uma tradição interessante é que eles jogam água uns nos outros, no que vira uma grande festa, simbolizando uma forma de purificação.
A “Cidade dos Anjos” geralmente nessa época recebe muitos turistas estrangeiros. A Tailândia é visitada por 20 milhões de turistas estrangeiros por ano, o que é algo notável, pois o Brasil recebe apenas uns 5 milhões, o que mostra como nosso país é mal explorado em muitos setores, sendo o turismo apenas mais um deles. Logo, a festa de final de ano na cidade tem importância turística também.
Eu e a minha companheira começamos a nossa peregrinação noturna pela cidade no dia 31 de dezembro indo para o enclave chinês da cidade, a famosa Chinatown de Bangkok. Já estou muito habituado com esse tipo de lugar. Comidas baratas de rua, várias barraquinhas e muita, mais muita gente. Após comer ostras fritas com uma camada de ovo frito em cima e uma bela cerveja local gelada, começamos a andar em direção ao centro histórico da cidade.
Quando estávamos passando por um dos templos mais sagrados da cidade, e do país, chamado Wat Pho, ouvi cânticos típicos de monges budistas. Eu simplesmente adoro a entonação dessa espécie de canto. Posso fechar os olhos e ficar ouvindo por muito tempo. Resolvi entrar no templo e fui surpreendido com o que vi. Além do templo iluminado de noite ser muito bonito, havia centenas de pessoas sentadas de branco entoando cânticos. Todas estavam com fios amarrados no corpo que por sua vez estavam amarrados numa rede entrelaçada de vários fios acima de suas cabeças.
Percebam que todos estão com fios enrolados a cabeça que por sua vez estão todos conectados em fios esticados no teto num emaranhado de fios que talvez represente que todos nós estamos de alguma maneira conectados. Que mensagem linda, principalmente com tantas pessoas com ódio no coração contra pessoas diferentes, seja por causa de ideias, posicionamentos políticos, orientações sexuais, etnias, ou qualquer outra diferenciação que se possa fazer entre indivíduos que no fundo são apenas e unicamente humanos.
Linda Cerimônia
Essa foto foi tirada uns dias antes, quando por acidente descobri que o Wat Pho ficava aberto de noite e era de graça para visitar. Não havia ninguém e foi uma sensação extraordinária andar nesse templo iluminado sem ninguém (de dia há literalmente milhares de pessoas)
Foi muito bonito ficar um tempo lá apenas assistindo. Minha companheira, no que foi um belo insight, disse-me que talvez as pessoas enroladas nos fios significava que todos na verdade estavam entrelaçados uns aos outros, num conceito que é um dos mais bonitos que eu conheço: o de unicidade. Não sei dizer se ela está correta ou não, apesar de ser bem plausível, mas é uma belíssima explicação.
Saímos do templo e passamos por milhares de Tailandeses. Em inúmeros locais, havia diversas pessoas sentadas e orando, misturadas com alguns estrangeiros sentados ao lado, numa mistura muito bacana de culturas, etnias e religiões (apesar de eu não considerar o Budismo uma religião). Isso para mim foi lindo de se ver, principalmente com tanto ódio existente no mundo em geral e em nosso país em particular.
Countdown Thailand...
Resolvemos então ir para um grande gramado que existe em frente ao Palácio real. Quando chegamos ao local, eu simplesmente não acreditei no que vi. Havia dezenas de milhares de pessoas sentadas, orando, muitas delas com as duas mãos em frente ao coração, uma forma tipicamente Tailandesa de se mostrar respeito e cumprimentar outros. Junto com a saudação japonesa de se curvar o corpo (algo que acho demais e sempre faço quando me despeço de um japonês - outra coisa que aprendi com japoneses é não entregar um objeto com apenas uma mão, mas com as duas mãos), é uma das mais belas formas de interação humana não-verbal que conheço.
Quando olhei essa multidão sentada, de branco, orando e muitos com a mãos perto do coração eu simplesmente não acreditei no que estava vendo.
Coordenando essa multidão havia dezenas de monges num palco montado entoando cânticos. Nossa, foi demais. Quando o ponteiro do relógio marcou meia-noite, eu abracei a minha companheira e desejei feliz ano novo. Percebi que fomos os únicos, muitos continuaram simplesmente na oração. Quando belos fogos sobre o palácio começaram, os monges continuaram entoando cânticos e a maioria da multidão permaneceu sentada acompanhando os monges na cantoria. Foi lindo. Ver fogos iluminando uma das mais belas construções da Ásia, dezenas de milhares de pessoas sentadas entoando cânticos acompanhadas por inúmeros monges, foi algo muito especial mesmo.
Dezenas de Monges no palco (talvez tivesse mais de cem) entoando cânticos. Eu não consigo compreender nada, mas eles são tão belos e trazem uma grande serenidade para mim.
Fogos no Palácio Real ao fundo. Uma grande noite e um grande momento, sem dúvidas. Uma excelente experiência.
Ficamos por um tempo e resolvemos voltar para o hotel. A rua onde ficamos em Bangkok, gosto muito de ficar nesse local, é do lado da famosa Khao San Road, conhecida como o coração Backpacker de toda a Ásia. A primeira vez que vi a mistura de estrangeiros, insetos fritos, barulho, cheiros, locais oferecendo shows de mulheres, massagens sendo feitas na rua, etc, etc tudo ao mesmo tempo, foi algo extraordinário. Hoje em dia, ela não me atrai mais tanto. Nunca tinha visto a Khao tão cheia. Apenas estrangeiros, quase todos jovens, bebendo cerveja, ou qualquer outra droga alcóolica (não era nem duas da manhã e vi inúmeras garotas passando mal), dançando eletrônico. Foi como ir de um oposto ao outro. Ficamos algum tempo, na verdade para atravessar a extensão de toda rua demoramos uns bons 30 minutos e fomos dormir, felizes com mais uma grande experiência vivida.
É isso, colegas. Grande abraço a todos!
terça-feira, 8 de dezembro de 2015
BORNÉU - BAKO NATIONAL PARK: O RARO E INUSITADO PROBOSCIS MONKEY OU O HOMER SIMPSON DOS PRIMATAS
Olá, colegas. Neste artigo, compartilho minha experiência no belíssimo Bako National Park na região de Sarawak em Bornéu. Bom, antes de mais nada, talvez seja interessante dizer onde fica Bornéu. A Malásia é um país que possui uma parte peninsular, basicamente o continente asiático, e uma parte na ilha de Bornéu. Esta ilha é a terceira maior do mundo, e é dividida entre Malásia e Indonésia. Falarei um pouco mais sobre o país, quando for escrever sobre as minhas impressões na minha segunda estada na bacana cidade de Kuala Lumpur.
Bornéu malaio é divido em duas regiões autônomas: Sabah e Sarawak. Para se ter ideia, se passa, apesar de ser solo malaio, por imigração quando se chega nessas duas regiões. Em Sarawak, por exemplo, até visto de permanência é dado. O povo da Malásia em geral, e de Bornéu em especial, é muito educado e simpático, algo que com certeza chamou a minha atenção. A toda hora pessoas sorriem para você na rua ou pedem para tirar fotos. É bacana.
Como dito no último artigo sobre a Malásia contando um pouco mais sobre “O Povo da Floresta”, conheci dois portugueses muito simpáticos e resolvemos dividir o mesmo chalé no parque. Combinamos ainda no ônibus de volta a Kuching da reserva dos Orangotangos, se encontrar de manhã no outro dia dentro do ônibus que nos levaria até o local para pegar um barco até o parque.
A Ilha de Bornéu. A parte indonesiana chama-se Kalimantan e é muito menos turística e bem difícil de se viajar. A parte malaia é mais tranquila para o viajante.
Bornéu malaio é divido em duas regiões autônomas: Sabah e Sarawak. Para se ter ideia, se passa, apesar de ser solo malaio, por imigração quando se chega nessas duas regiões. Em Sarawak, por exemplo, até visto de permanência é dado. O povo da Malásia em geral, e de Bornéu em especial, é muito educado e simpático, algo que com certeza chamou a minha atenção. A toda hora pessoas sorriem para você na rua ou pedem para tirar fotos. É bacana.
Como dito no último artigo sobre a Malásia contando um pouco mais sobre “O Povo da Floresta”, conheci dois portugueses muito simpáticos e resolvemos dividir o mesmo chalé no parque. Combinamos ainda no ônibus de volta a Kuching da reserva dos Orangotangos, se encontrar de manhã no outro dia dentro do ônibus que nos levaria até o local para pegar um barco até o parque.
Numa pontualidade britânica, o Ônibus às 7 e 10 passou no ponto de parada perto da nossa guesthouse e lá estavam os portugueses e mais alguns outros estrangeiros rumando para o parque. Ao chegarmos no pier, fomos avisados que a maré estava muito baixa e teríamos que esperar duas horas para prosseguirmos ao parque. Creio que os barqueiros locais calcularam mal a maré, já que mesmo esperando as duas horas, atolamos no meio do caminho. O caminho de ida ao parque é lindíssimo, e depois de algum esforço conseguimos desatolar o barco dos bancos de areia e prosseguimos viagem.
O Bako National Park é um dos mais antigos da Malásia. Já existe há dezenas de anos e é um refúgio para uma miríade incrível de animais. Além de fazer trilhas no meio da selva, nosso objetivo principal era conseguir avistar o raro primata Proboscis Monkey. Esse inusitado animal está ameaçado de extinção e existe apenas na ilha de Bornéu.
Os portugueses eram umas figuras, muito engraçados mesmo. Um chamava-se Rui e trabalhava como radiologista em Lisboa. O outro, Nuno, era gerente de uma clínica de médicos na Ilha da Madeira. Conversando com os dois deu para ter uma ideia do motivo de muitos comportamentos dos brasileiros, pois a semelhança, apesar de Portugal ser bem mais desenvolvido, entre portugueses e brasileiros é imensa. Foi engraçado quando eles pediram para eu contar alguma piada sobre portugueses, e na hora não me veio nenhuma na cabeça, uma pena, pois contar piada de português para um português é engraçado. Aliás, essa é uma boa forma de se conhecer, mesmo que superficialmente, alguns aspectos de como uma pessoa leva a vida. Quando conto piada de Gaúchos para Gaúchos alguns simplesmente riem, mas há outros que ficam com a cara fechada, o que para mim é uma grande bobagem. Enfim, os portugueses se mostraram muito amistosos e cordiais.
No primeiro dia do parque, fizemos algumas trilhas e andamos uns 10km. Há uma diferença enorme entre fazer uma trilha num lugar frio como a Nova Zelândia ou Nepal, por exemplo, e uma trilha no meio de uma floresta tropical num local quase que na linha do equador. É quente, abafado, úmido e é extremamente difícil andar no meio da mata densa, mesmo que haja uma trilha marcada no chão. Além do mais, no começo da viagem na Nova Zelândia, eu estava muito bem fisicamente. Treinei exclusivamente ginástica funcional no Brasil para isso. Estava muito bem alimentado também, pois éramos nós que cozinhávamos todas as nossas refeições e não economizávamos nas compras de supermercado. Assim, fazíamos trilhas de 12-15km no país do Senhor dos Anéis, ficávamos cansados, mas no outro dia estávamos recuperados. Andar 10km sem estar comendo muitas frutas, já um pouco cansados de oito meses de viagem, no meio de uma floresta úmida, não é fácil, e chegamos quase que no limite das nossas energia nesse dia.
Vimos formações rochosas espetaculares, praias desertas e selvagens, vegetação de inúmeros tipos, mas infelizmente não vimos muita vida selvagem. Eu pensei que seria mais fácil ver os macacos, mas nesse primeiro dia não foi. Pensei comigo mesmo “Amanhã, conseguiremos ver”.
Vistas sensacionais de praias baías desertas...
Caminhar uphill num clima tão abafado e quente numa floresta densa é bem difícil
Belíssimo Bako National Park
Essa rocha foi uma das mais bonitas que já vi, encontrava-se na praia em frente ao alojamento
Depois de jantarmos no nada especial restaurante do parque, resolvemos ir ao Night Walk, que nada mais é do que uma trilha de duas horas no meio da mata de noite, na companhia de um guia, para se avistar animais noturnos, principalmente insetos e répteis. O passeio foi muito bom mesmo, ainda mais pelo preço de apenas 10,00 Ringgit (algo em torno de R$ 8,50). Eram três guias e fiquei surpreendido como eles conseguia avistar os animais no meio da noite apenas com uma lanterna. Vimos cobras (uma bem venenosa), aranhas de vários tamanhos e cores, formigas gigantes, sapos de várias cores e a estrela da noite o Flying Lemur. Este último é bem raro de ser avistado, mas tivemos a sorte não só de vê-lo, mas como também de observar ele “voando" (na verdade, ele não voa, mas plaina no ar). Foi uma experiência bacana.
Uma Viper, cobre extremamente venenosa. Eu fiquei muito impressionado como o guia achou essa cobra na escuridão.
Aranha gigante
Muitas espécies de sapo que faziam um barulho ensurdecedor. Aliás, a floresta de noite parece uma sinfonia de barulhos.
A foto não é minha, mas ver um Flying Lemur foi o auge da noite. Na verdade ele não voa (O único mamífero que pode voar é o Morcego, falarei mais sobre esse fantástico animal em outro artigo)
Alguma semelhança? Há uma área da engenharia que se chama Bio-Engeharia. Tenta pegar aspectos da natureza em plantas e animais e transformar em tecnologia acessível para nós humanos. Esse é apenas mais um dos muitos exemplos.
No outro dia, ainda bem cansados das trilhas feitas, resolvemos fazer mais duas trilhas para ver se conseguíamos ver a estrela do parque. As trilhas foram curtas, mas eram bem íngremes e muito cansativas. Andávamos, e a cada barulho na mata, pensávamos que podia ser o Proboscis Monkey, mas nada de avistarmos um indivíduo da espécie.
Bem cansados, resolvemos voltar para o centro de informações do parque, almoçarmos, descansar um pouco e irmos embora. “Poxa, eu gostaria muito de ver esse animal, mas é assim mesmo” pensei comigo mesmo. Quando estávamos quase chegando no HD do parque, eu avisto um macaco muito diferente sentado numa árvore. Concentro a minha visão no animal e confirmo na minha cabeça “é ele!”. Um grupo de 6-7 macacos estavam ao redor em várias árvores e ficamos durante uma meia hora tirando fotos e olhando aquele macaco tão diferente. Quão diferente ele é? Vejam vocês mesmos, prezados leitores, nas fotos abaixo.
Eu não sei, mas quando vi pela primeira vez o macaco, pensei comigo mesmo que ele parecia o Homer Simpson por causa do barrigão e da cara meio perdida.
Barrigudo e Narigudo...
E segundo um guia do parque, quase sempre pronto para o bem bom. Mesmo dormindo, o "bingolin", ou como uma escocesa casada com um italiano iria me dizer dias depois numa outra excursão o "red chili" estava a ponto de bala.
Praias selvagens, rochas lindíssimas, aranhas e formigas gigantes, cobras venenosas, trilhas no meio da selva, um macaco que parece o Homer Simpson, e ainda por cima a companhia de dois portugueses gente boníssima, o que mais querer de um parque nacional? Nossa estada no Bako National Park foi muito boa mesmo. Uma experiência para se relembrar por muito tempo.
De volta a Kuching, fomos jantar com nossos amigos Rui e Nuno e foi uma noite muito agradável. Falamos sobre os problemas dos nossos países, séries de TV, cinema, capitalismo, finanças públicas, viagens e foi um papo divertidíssimo. O ponto alto da noite foi quando o Nuno estava falando das diversas séries de TV (confesso que depois de Breaking Bad, comecei a assistir mais séries, isso quando estava no Brasil, estou querendo saber o que vai acontecer na quarta temporada de House of Cards), quando o Rui virou para ele e disse num tom meio que sério “Não está na hora de você parar de ver televisão e trabalhar um pouco mais não?”. Eu e a Sra.Soulsurfer caímos na gargalhada. Figuraças.
Nuno (sentado) e Rui (de pé), grande companhia de nossos irmãos portugueses. O repelente é porque foi um dos lugares com o maior número de mosquitos que vi na vida. A Sra. Soulsurfer sofreu, eu, ainda bem, quase nem sinto as picadas de pernilongos.
É isso colegas, grande abraço!
domingo, 6 de dezembro de 2015
BRUNEI - O PAÍS QUE NÃO FOI OU ANATOMIA DE UMA BURRICE
Olá, colegas. Hoje o artigo será bem curto. Estou escrevendo do aeroporto de Miri na província de Sarawak esperando um voo para Kota Kinabalu na província de Sabah. Muito provavelmente, publicarei este artigo daqui vários dias, pois tenho vários artigos prontos sobre Bornéu para serem publicados antes. Entretanto, resolvi escrever esse artigo, pois de vez em quando faz bem “colocar para fora” certas coisas.
Quando ainda estava em Kuching, comprei uma passagem do parque nacional Mulu para a cidade de Miri. Não há muito o que um turista fazer em Miri, a não ser visitar as cavernas de Nias há 100 km ao sul. Como iríamos ver cavernas espetaculares em Mulu, decidi ir para Miri apenas por ser um bom ponto para se ir ao sultanato de Brunei. O meu plano era ir para Brunei, passar duas noites lá, voltar para Malásia, pegando assim mais 30 dias de estada no país, e ir para Kota Kinabalu. Assim, conseguiria estender o visto e de quebra conheceria mais um país. Faltavam apenas Brunei e Timor-Leste para eu ter visitado todos os países do Sudeste Asiático.
Assim, hoje disse adeus ao fabuloso parque de Mulu e aterrissei na cidade de Miri. Peguei um Táxi para o terminal de ônibus e comprei duas passagens para a capital de Brunei Bandar Seri Begawan. Eram 11 e meia da manhã e o ônibus partiria apenas às 15:30. O taxista então perguntou se nós não queríamos ficar no Shopping. Perguntei se ele iria cobrar alguma coisa, ele respondeu que não. O cara foi tão simpático que nos levou perto do shopping e depois voltou de carro para mostrar como se fazia para ir a pé de volta a estação de ônibus, já que o trajeto era um pouco complicado. Um dos taxistas mais gente boa que conheci.
Chegando ao shopping, resolvi apenas por curiosidade checar se brasileiros precisavam realmente de visto prévio para entrar em Brunei. Claro que não precisavam. Quase todos os países do Sudeste Asiático isentam brasileiros de Visto (Malásia, Cingapura e Tailândia, Filipinas) ou você pode pegar na fronteira (Camboja, Laos e Indonésia). Além do mais, eu tinha lido no Lonely Planet que se podia pegar o visto de graça na fronteira, a exceção dos Australianos que deveriam pagar. Está dito isso literalmente no mais famoso guia de viagem.
Quando eu comecei a ler que brasileiros sim precisavam de visto prévio e não faziam parte da lista de dezenas de países que não precisam de pré-agendamento, eu só pensei comigo mesmo “P…que pariu…, eu não acredito que fui tão burro”. Sim, eu não chequei a informação, e descobri que brasileiros não podiam entrar em Brunei sem agendar previamente, ao contrário de Peruanos, por exemplo, que recebem um visto de 14 dias na fronteira.
Imediatamente, abri o guia e pensei “Bom, a bobagem foi feita, vou de ônibus para Kota Kinabalu”. Sabem quanto tempo demora a viagem de 300km meus queridos leitores? De 12 a 15 horas. Sim, você não leu errado. O passaporte é carimbado 10 vezes no percurso e o ônibus passa duas vezes por Brunei. Fui pesquisar na internet se havia alguma espécie de transit visa, e Brunei fornece um de 72 horas, mas as regras não estavam claras nem no site do Ministério de Relações Exteriores do Sultanato. O que fazer? A Sra. Soulsurfer perguntou na companhia de ônibus, e eles não souberam responder se poderíamos ou não pegar um visto de trânsito, acho que latinos viajando por aqui é coisa rara de se ver, e os europeus que fazem esse trajeto, a exceção de habitantes da Croácia, podem receber visto na fronteira sem problemas.
A passagem de ônibus custava 90,00 Ringgit (1 real = 1.15 ringgit). Entrei na internet e vi que havia voo para hoje de noite para Kota Kinabalu por 270,00 Ringgit. Refleti um pouco, e acabei desistindo da ideia de ir de ônibus e visitar Brunei (até porque não poderia) e cá estou esperando por algumas horas o voo para a província de Sabah.
Se eu tivesse visto este detalhe, simplesmente teria pego o voo de Mulu direto para Kota Kinabalu que era apenas um pouco mais caro do que o voo para Miri. Por uma falta de planejamento básico, perdi um dia de idas e vindas, e vou gastar quase R$ 500,00 a mais. Dinheiro esse que não me faz falta, mas se tem uma coisa que não gosto é jogar dinheiro na lata de lixo.
Viajar sem planejamento é uma coisa que realmente gosto de fazer. Planejar uma viagem tão longa como essa então é muito difícil, e creio que destrói um pouco o encanto. Não há nada melhor do que ir decidindo para onde ir de acordo com as novas descobertas que vão se fazendo no decorrer da viagem. Entretanto, visto é algo essencial. Esqueci essa lição básica e singela de viagens overland. Na verdade não esqueci, foi apenas, falando o português claro, uma grande burrice cometida da minha parte.
Bom, ao menos tenho uma história para contar e o que não seria das viagens, e da vida em geral, sem histórias como essa?


Brunei, não foi dessa vez, e tenho uma sensação que nunca será...
Grande Abraço a todos!
sexta-feira, 4 de dezembro de 2015
BORNÉU - O POVO DA FLORESTA
Olá, colegas. Nesse artigo conto a extraordinária experiência de ficar frente a frente com o povo da floresta. Tenho uma profunda admiração pela biodiversidade do nosso planeta. Eu creio que a teoria da evolução das espécies é uma das mais belas explicações sobre a realidade que o ser humano conseguiu elaborar no decorrer da nossa história neste planeta.
A esmagadora maioria das pessoas, talvez por desconhecimento da ideia por trás da evolução, tendem a achar que ela tira a beleza do mundo, ao contrário das inúmeras narrativas de como surgiu a vida de várias religiões, ou de povos mais antigos. Em minha opinião, isso está muito longe de ser verdadeiro. O que é mais sensacional: uma entidade extremamente complexa criando entidades muito menos complexas ( a tônica de quase todas as histórias religiosas de biogênese) ou entidades simples dando origem a entidades complexas (que é a ideia central da teoria da evolução das espécies)? Fica aqui a pergunta para os leitores que acharem interessante refletir sobre a questão.
Partindo do pressuposto de que a evolução das espécies é um fato, a consequência lógica é que todas as espécies estão interligadas, cada uma tendo um ancestral em comum com todas as outras. Assim, nós seres humanos temos um mesmo ancestral comum com golfinhos, baratas, cachorros ou qualquer outra forma de vida existente no planeta terra. Entretanto, há espécies que possuem ancestrais comuns mais próximos e mais distantes. Logo, temos um ancestral comum mais próximo com os golfinhos do que com os gafanhotos. Quanto mais próximo for o ancestral, mais semelhança genética (ou seja no DNA) e fenotípica (ou seja dos aspectos exteriores).
Nós humanos temos quatro espécies muito próximas, e as cinco espécies formam o que os cientistas chamam de Great Apes. Orangotantos, Gorilas, Chimpanzés, Bonobos e Humanos são os cinco Great Apes. Nosso ancestral em comum com os Orangotangos é mais longíquo do que com os Gorilas e muito mais longíquo do que com Chimpanzés e Bonobos. Logo, os Orangotagos são nossos “irmãos" mais afastados. Nossos “irmãos" mais próximos Chimpanzés e Bonobos guardam uma semelhança genética, de aparência e inteligência com os seres humanos simplesmente espantosa.
Um quadro simplificado da nossa árvore biológica e parentesco com os Great Apes
O Orangotango é o único Great Ape, tirado os seres humanos, que possui habitat fora da África. Ele apenas vive de forma selvagem nas florestas de Bornéu e de Sumatra. Infelizmente, para completo ultraje e vergonha da nossa própria espécie, eles estão seriamente ameaçados de extinção. Se isso vier a ocorrer nas próximas décadas, seria uma tragédia sem precedentes para a biosfera, para nós mesmos e para as novas gerações.
Orangotango é uma palavra do idioma Malaio que literalmente significa “Pessoa da Floresta”. Nada mais preciso. Imagino seres humanos milênios de anos atrás se deparando com esses animais fantásticos e tão parecidos com nós humanos. Sim, apesar de serem os nossos “irmãos” mais distantes, eles são extremamente parecidos conosco.
Uma das maravilhas de fazer uma viagem como essa que estou realizando, é ter tempo para tomar decisões de última hora. Não preciso me preocupar em marcar coisas com antecedência, ou se vou ficar alguns dias descansando. Eu decidi vir a Bornéu de um dia para o outro, e comprei a passagem aérea no mesmo dia (foi uma grande “sorte”, pois o preço estava bem razoável). Fiz algumas pesquisas na noite anterior, as quais me aprofundei bem mais quando já estava na terceira maior ilha do mundo, e simplesmente resolvi passar umas semanas nesse lugar tão especial.
Quando decidi visitar a ilha de Bornéu, um dos maiores objetivos, talvez o maior, era ver orangotangos selvagens ou ao menos semi-selvagens. Eu não suporto ir em Zoológicos. Acho a maioria deles deprimentes, e quando vejo a maioria das pessoas simplesmente olhando os animais como se fossem coisas descartáveis uma postura ainda mais deprimente. Agora, quando se vê um animal em seu ambiente natural, que coisa espetacular.
Obviamente, avistar um Orangotango selvagem envolve excursões floresta a dentro por vários dias, muitas vezes em zonas extremamente remotas. Gosto de aventuras, mas esse tipo de excursão está alguns graus acima do que gosto e me sinto confortável (apesar de constantemente passar por situações fora da minha zona de conforto). Felizmente, em Bornéu há três centros de recuperação de Orangotangos que foram encontrados doentes, órfãos ou resgatados de situações degradantes como quando alguns humanos simplesmente os utilizam como animais de estimação.
Os centros às vezes são a última esperança para esses magníficos animais. Vários estágios de recuperação são realizados quando um Orangotango chega ao centro. O último é soltar na floresta. Na reserva Semenggoh, perto da cidade Kuching na região autônoma de Sarawak, há 27 Orangotangos. A reserva é razoavelmente grande, mas ela não possui comida suficiente para durante todo o ano fornecer alimentação para esse número de Orangotangos. Isso apenas me faz lembrar quando morava na Califórnia e vi um jovem falar para mim que a maior revolução tecnológica da humanidade foi a Internet. Talvez, e com esforço, ela pode estar entre as dez maiores. A maior revolução humana foi a agricultura, algo que nossos "irmãos" genéticos não fizeram e por isso dependem exclusivamente do que a natureza os oferece num determinado ecossistema. Sendo assim, e claro também para propósitos turísticos no intuito de arrecadar dinheiro para continuar com o trabalho, o centro realiza alimentações dos animais duas vezes ao dia.
Como os Orangotangos estão soltos na reserva, e como é temporada de fruta (ou seja há muita comida na floresta), não é fácil avistar os Orangotangos nessa época do ano. Eu e minha companheira fomos de manhã no centro. Esperamos algumas horas, mas nenhum “irmão" apareceu para receber frutas. Ficamos um pouco frustrados, mas essa é a beleza de avistar a vida selvagem. Nem sempre é possível observá-la, e quando é possível devemos considerar como um presente. Um dos cuidadores disse que os Orangotangos não apareciam há alguns dias e não era para ficarmos chateados.
Estava muito quente e abafado, e resolvemos voltar para a cidade Kuching onde estávamos hospedados. Comemos um rápido e gostoso Sea Food Nasi Goreng, e eu perguntei para a minha companheira se não deveríamos voltar para tentar observá-los de tarde, já que o ingresso valia para todo o dia. Depois de pensarmos um pouco, resolvemos voltar para o Centro de Reabilitação. Fomos correndo pegar o ônibus público, enfrentando uma baita chuva, quando reparei que o ônibus que ia para o local não estava mais lá. Olhei para frente e vi um ônibus parado no sinal vermelho, corri e vi que estava escrito K6 (o número que ia para o destino) e esbaforido fiz sinal para que o motorista abrisse a porta.
No trajeto de uma hora até a reserva, a chuva se intensificou e apenas pensei comigo “vixe, será que foi uma boa ideia? Ainda mais que a chance de observar um Orangotango é tão pequena”. Alguns minutos antes de chegar ao centro, a chuva passou e um sol muito forte surgiu. Voltamos para o local de alimentação, algo em torno de 1km da entrada da reserva, e esperamos.
Quando avistei o primeiro Orangotango, um sorriso de criança percorreu o meu rosto. Na verdade, eu parecia uma criança, falando para a minha companheira “olha lá, olha lá!”. Eram dois Orangotangos, e a graciosidade com que eles pegavam a comida, e a flexibilidade com que ficavam nas mais inusitadas posições foi um colírio para os meus olhos. Depois de tirar fotos, esqueci por um momento, e fiquei apenas contemplando. Eles estavam há uns 30 metros de distância.
A primeira vez a avistar um Orangotango foi bem emocionante. Olhe a habilidade do mesmo, fiquei impressionado com a elasticidade, não sabia que eram assim tão elásticos e fortes.
Absorto no momento, ouvi um dos cuidadores dizer que mais dois Orangotangos, mãe e filho, tinham sido avistados em outro lugar. Fomos na direção apontada pelo cuidador, quando vimos há uns 80 metros de distância uma mancha marrom se mexendo entre as árvores distantes. Dessa vez, os Orangotangos chegaram bem perto, algo como uns 4-5 metros, e foi demais.
Vindo de longe nas árvores...
"Eu, Primata", nome de um livro e um artigo que escrevi aqui nesse espaço ano passado.
Mae e filho em perfeita sincronia.
Foi um dia bem especial para mim
Passamos uma hora observando esses animais tão parecidos com a gente, e nos sentimos muito gratos pela oportunidade de ter essa experiência, principalmente depois da tentativa frustrada de manhã e de quase perdermos o ônibus para a reserva. Foi um grande momento da viagem e fico feliz de ter vivenciado. Na viagem de volta para a cidade de Kuching, conhecemos dois portugueses muito simpáticos mesmo. O sotaque deles não era tão forte e surpreendentemente eu conseguia entender tudo o que eles diziam (às vezes tenho dificuldades, principalmente com alentejeanos). Disse a eles que estávamos indo para o Bako National Park no próximo dia (assunto de um artigo específico), e se eles quisessem poderíamos rachar um chalé que eu já tinha reservado, pois o mesmo tinha quatro camas de solteiro (era o único disponível quando reservei). Eles concordaram, o que foi ótimo, pois além da hospedagem sair pela metade do preço, a companhia deles foi ótima, e fizemos mais dois amigos nessa viagem que os conhecidos já passam de mais de cinquenta em diversos países.
Ainda veríamos mais um centro de reabilitação: Matang Wildlife Center. Esse centro tinha um ar de zoológico, e numa primeira impressão não gostamos muito. Vimos um macho dominante enorme (os Orangotangos que vimos em Semenggoh eram fêmeas ou crianças) num cercado de uns 2.000 metros quadrados, e ele se mexia com uma graciosidade, apesar do seu tamanho enorme, que me fez lembrar de como os japoneses são graciosos ao realizar as atividades mais triviais. Depois de visitar os animais, fomos ao centro de informações e vimos que eles também realizam a reinserção dos animais aos poucos na floresta. O Macho Dominante enorme que eu tinha visto chamava-se Aman. Ele foi um dos primeiros animais do mundo, pelo menos no que diz respeito aos Great Apes, a fazer uma cirurgia de catarata há oito anos, já que ele estava completamente cego. Tal procedimento cirúrgico custou quase R$ 40.000,00 na época, não sei por qual motivo foi tão caro. Com quase 30 anos de idade, ele está muito velho para ser reinserido na Floresta. Com essa explicação, ficamos mais tranquilos a respeito do que vimos. Aliás, nossa percepção do mundo, dos fatos e de outras pessoas sempre muda quando um contexto maior da situação nos é apresentado.No outro dia, pegamos um voo para o espetacular e magnífico Gunung Mulu National Park, e os dias que passei nesse lulgar mais do que especial, declarado Patrimônio da humanidade pela Unesco, irei contar em outro artigo.
O magnífico Aman
A minha companheira achou essa foto sensacional, tenho que concordar.
Ele realizava todos os movimentos com muita graciosidade, apesar do seu tamanho enorme. Ele sempre olhava, quando alguém chamava pelo nome "Aman".
Essa foi a minha experiência com o “Povo da Floresta”. Gostei bastante. Talvez ainda veja mais alguns Orangotangos semi-selvagens em outro centro de recuperação chamado Sepilok na província autônoma de Sabah.
Grande abraço a todos!
quarta-feira, 18 de novembro de 2015
INDONÉSIA - MENTAWAI: OBRIGADO!
Olá, colegas. É difícil explicar como me sinto. Aliás, talvez seja bem fácil. Sinto-me realizado e feliz. Há uma grande diferença, apesar de não ser muito compreendida e discutida em nossa sociedade apressada, entre estar e ser feliz. Estar feliz é um sentimento associado à satisfação momentânea de algum desejo humano. Comprou um carro novo? Talvez isso faça o adquirente feliz. Conquistou uma garota(o) bonita(o) em alguma festa de fim de ano? Isso pode trazer uma grande sensação de bem-estar. Entretanto, pelo menos entre os pensadores que refletem sobre o tema, essas satisfações momentâneas não parecem nos trazer uma felicidade mais duradoura. Aqui entra o conceito de ser feliz.
Ter uma existência feliz e satisfeita diz respeito a um sentimento mais profundo. Diz respeito a como nos sentimentos em relação à vida e a outros seres humanos. Muito dificilmente essa nossa percepção mais densa sobre nós mesmos vai ser muito influenciada pelos nossos episódios momentâneos de felicidade. É difícil colocar em palavras algo como isso, mas ser feliz é aquela sensação de bem-estar resultante de uma vida bem vivida. Uma vida bem vivida geralmente está associada com a forma que nós interagimos com os seres humanos mais próximos da gente, e como nos sentimentos em relação ao rumo de nossas próprias vidas. É importante sentir-se feliz, mas com certeza se conseguirmos ser felizes a sensação de bem-estar é muito mais intensa e duradoura.
Mentawai me fez estar feliz. Entretanto, mais do que isso, creio que atingi um estado de ser feliz nessas duas semanas. É claro, e isso poderia contradizer o que eu escrevi nos primeiros parágrafos, minha sensação de felicidade na vida não pode ser resultado de 15 dias numa ilha. É verdade. Porém, essas duas semanas fizeram-me sentir muito bem comigo mesmo, não que eu já não estivesse, e com a vida. Estou bem contente mesmo.
Como não ficar feliz?
O Surfe é algo que eu amo. Como peguei onda nessas semanas. Estive pensando que nesses meus 45-50 dias pela Indonésia , principalmente nos últimos 15 dias, talvez eu tenha surfado mais ondas boas do que nos meus últimos 8-10 anos no Brasil. Obviamente, não sabemos quais os caminhos a vida nos reserva, mas por mim eu voltaria várias e várias vezes para esse destino tão especial.
Indo para Mentawai num barco bem pequeno, tentando descansar. Foram mais de duas horas onde eu e Sra. Soulsurfer, e todas as nossas roupas, ficaram completamente encharcadas. Sorte que não estragou o computador.
A recompensa não vem sem os potenciais riscos como aludi no meu artigo sobre Lakey Peak. Machuquei-me com um pouco mais de gravidade, pois atingi a bancada de coral com força. Abri um talo na minha mão, cortes no braço e nas costas. Ao chegar no surf camp, todos os lugares que eu ia surfar precisava pegar um barco, apenas disse para a minha companheira que tinha me machucado um pouco mais sério, e o meu braço estava escorrendo bastante sangue. Isso foi há uns oito dias. Felizmente, foi apenas um susto, e os ferimentos já estão melhorando, inclusive o corte mais profundo na mão.
As pessoas que conheci fizeram a experiência ser ainda mais incrível. Joe “pretty hair” (como eu o apelidei), um surfista local, surfava comigo todos os dias, sempre me incentivando e ajudando. Suu, o barqueiro, sempre sorrindo e falando “go go!” quando algum set com ondas vislumbrava-se no horizonte. Iin, o fotógrafo que capturou em vídeos e fotos meus momentos de alegria nas ondas. Diego, o dono do surf camp. Um colombiano que foi para Austrália, deu certo lá, trabalhava com trading de commodities em Sydney, mas resolveu abandonar essa vida dos “sonhos" para muitos latinos americanos, engravidou uma Indonesiana (Laura, uma mulher de fibra que fez pizzas maravilhosas para a gente.Muito bom matar a saudade de uma pizza boa, algo que adoro comer no Brasil) e hoje possui uma vida devotada para o surfe. Ou a família espetacular de Australianos (ah, coisa boa ter um lugar para ficar na mítica Margaret River, quando voltar para Austrália para fazer a não tão conhecida West Coast) Paul, Adeile e o pequeno Nat. Este, um garoto de nove anos que pega altas ondas. Nove anos! Já tem patrocínio a jovem promessa. Super educado, extremamente gentil e numa felicidade extrema de estar surfando na Indonésia. O pai então era uma alegria só. Também pudera, imagina surfar ondas perfeitas ao lado do seu filho de nove anos. Deve ser uma sensação muito boa mesmo. Vai que o pequeno Nat se transforme no próximo Fanning ou Medina, para garantir tirei algumas fotos com ele! Fora todos os outros locais sempre sorrindo e sendo prestativos. Ah, ainda tinha o cachorro, Shagy, que era uma figura. Caçava caranguejos no mangue, ia junto no barco para o surfe (numa vez ele chegou a pular do barco e ir nadando até onde as ondas estavam quebrando, quando todo mundo começou a gritar para ele voltar) e quando pegava a sua mão de brincadeira não soltava mais.
Uma típica manhã em Mentawai. Indo para o surfe às 8 da manhã para voltar às duas da tarde, quando o mar estava bom. Dias incríveis.
Depois de uma sessão de surf bem bacana num break chamado 4bobs, fomos descontrair nessa lindíssima ilha (eu, minha companheira, o dono do camp, seu filho dando cambalhota no ar e a família de australianos)
Shagy, um dos cachorros mais figuras que já conheci.
A família Aussie. Uma pena que convivemos apenas quatro dias. Todos eram muito legais. O pequeno Nat pegava altas, era extremamente educado e parecia ser uma criança super feliz. Nossa, deve ser demais ter uma experiência dessa com um filho. Quem sabe um dia..
Iin, o Fotógrafo. Gente boníssima. Ao fundo, Suu, figuraça. Divertia um monte com ele dentro da água surfando.
Família Mentawai. Ao centro, Diego, um colombiano que tinha um escritório com vista apenas para o Opera House em Sydney. Largou essa vida, apesar de já ter passaporte australiano, para viver uma vida diferente. Ele me disse que ao se fixar em Sydney realizava o sonho de muitos latinos. Ao morar em Mentawai, realizava o sonho de muitos australianos.
E as ondas? E as ondas…Surfei sete lugares diferentes com níveis de dificuldade diferentes. Com certeza evolui e muito o meu surf. inúmeras vezes surfei com pouquíssimas pessoas na água, ondas incrivelmente boas. Água quente. Isso é o sonho para qualquer surfista brasileiro, e os beach breaks inconsistentes, ondas curtas e várias pessoas na água com níveis grandes de stress algumas vezes. Foi um sonho. Os meus melhores dias surfando, um dos highlights não só dessa viagem, mas como de todas as viagens.
Mandado ver em Beng Bengs...
Na esquerda divertida de Good Times, que dia foi esse....
Beng Bengs, surfei umas 10 vezes nesse lugar. Esse dia foi especial, eu e mais uns dois surfistas na água, um sunset espetacular e ondas incríveis.
Na direita de Nipussy. Foi nesse local que fui fazer uma visita mais próxima a bancada de coral.
Escrevo esse artigo com a Sra. Soulsurfer dormindo nos bancos ao lado num fast ferry de volta para a cidade de Padang na ilha de Sumatra. Tenho algumas horas de viagem. Daqui alguns instantes muito provavelmente um filme de luta chinês com legendas em Bahasa irá passar na televisão que se encontra na minha frente. Despedi das minhas duas companheiras, minhas duas pranchas que me acompanharam desde o Brasil. Como viajaram. Pela terra do Sr. dos Anéis na Nova Zelândia, pelas ondas difíceis e pesadas de Fiji, pelos quase 20 mil Km do “continente" Australiano, e pelas mais diversas ilhas da Indonésia. Meus próximos meses, quantos serão não tenho a menor ideia, serão sem surfe pelo continente asiático e não teria motivos carregar o trambolhão que é o meu surf bag. Assim, vendi tudo. Sou um surfista sem prancha. Não importa, quando chegar a hora compro outras. Agradeço a essas minhas duas companheiras pelos momentos de felicidade compartilhados em vários surf breaks pelo mundo. Vida que segue.
Obrigado, Mentawai. Obrigado pelas suas ondas maravilhosas, por me fazer feliz. Para onde vou agora? Não sei. Quando chegar em Padang, irei decidir se amanhã vou para Malásia, ou se continuo mais uma semana em Sumatra para tentar ver orangotangos mais ao norte. Espero que ainda ache voos com preços bons, mesmo estando em cima da hora. O meu único plano é estar na Mongólia daqui 4-5 meses.
Ah, peço desculpas aos colegas que postaram alguns comentários não respondidos. A internet era realmente muito lenta. Vou tentar responder a todos, pois acho que o acesso a WI FI será mais fácil daqui para frente.
Grande abraço a todos!
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