BLOG DO SOUL

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terça-feira, 16 de junho de 2015

A RACIONALIDADE POR TRÁS DO ATO DE ROTULAR E O SEU LADO MAIS SOMBRIO

35 comentários : Postado por soulsurfer às 03:32 Marcadores: Reflexões

Olá, colegas! Hoje o tema do artigo com certeza fará alguns leitores torcer o nariz. Sem problemas, o objetivo desse blog nunca foi escrever para agradar alguém, defender ideologia X ou Y ou fazer média com formas de pensar mais corriqueiras. Entretanto, e aqui muitas pessoas confundem as posturas, isso em nenhum momento significa que os textos devem ser agressivos ou não se importar em ter o mínimo de respeito com pessoas. Tenho a impressão que as pessoas não são acostumadas a ser desafiadas, ou postas em cheque suas ideias, principalmente no Brasil. Há um antigo ditado hebreu que diz algo mais ou menos assim: “Quase todos estão insatisfeitos com a sua forma física, quase todos estão satisfeitos com os seus intelectos”.  Essas duas frases em relação ao Brasil caem como uma luva. Homens que querem abdomens sarados a todo custo, músculos maiores, etc. Mulheres desesperadas para se tornarem “perfeitas" ou esconder os anos de vida por meio de agressões ao próprio corpo. Todos insatisfeitos com os seus corpos, numa ansiedade impressionante. Agora, se alguém perguntar: “ Está satisfeito com a sua inteligência? Com as suas opiniões? Há formas de evoluir a sua atual forma de pensar?”, o que vocês acham, prezados leitores, que seria a resposta preponderante? “ Sim, estou insatisfeito com as minhas opiniões, minha inteligência e minha percepção do mundo, preciso melhorar” seria uma resposta usual? 

Eu Também não sei Sr.Thoreau (em homenagem a Sra.Soulsurfer, que começou a ler um livro do Thoreau, colocarei algumas frases desse grande pensador no artigo).

    Assim, as pessoas, geralmente, não gostam de desafios intelectuais que coloquem em cheque a própria percepção delas do mundo. Desafiar para uma partida de futebol, uma queda de braço, ok, desafios intelectuais são tidos como rudes e agressivos. Talvez pelos meus pais, e principalmente pelo fato do jogo xadrez ser um constante desafio intelectual com outra pessoa, eu nunca me senti desconfortável com isso. Vejam, no xadrez a responsabilidade é sua, e somente sua. Como é um jogo eminentemente intelectual, você está sempre em constante batalha mental com o seu oponente. Inúmeras vezes você tem que admitir, principalmente depois de uma derrota avassaladora, que o seu oponente foi muito melhor do que você, foi intelectualmente superior. Uma sociedade que não realiza embate de ideias ou que eventual choque de ideias não se dê no campo amistoso de respeito as pessoas (como é o caso atual do Brasil em muitas ocasiões, e é muito interessante que posso ver isso no meu blog, como um pequeno experimento) não tem a menor possibilidade de evoluir, muito menos num mundo onde o conhecimento intelectual será cada vez mais e mais predominante.

    “Vixe, Soul, e qual é a relevância disso tudo para o tema do artigo?”, chegarei lá colega. O que significa rotular? Basicamente, é colocar uma classificação em alguma coisa ou em alguém. Isso é ruim? Não, claro que não. Aliás, nós estudamos matérias que possuem determinada classificação.  Isso torna mais fácil o aprendizado e a sistematização do estudo da realidade para nós que temos um cérebro naturalmente limitado. Porém, a natureza é compartimentada? Não, colegas. A realidade e a natureza simplesmente existem. Há uma realidade, não uma realidade para a química, uma realidade para matemática, uma para física, existe apenas uma realidade e todas essas classificações são atalhos que o homem toma para melhor entender o universo que o circunda, ou a si próprio.

   Assim, rotular, classificar, com certeza tem a sua serventia para a humanidade, há até mesmo um ramo da biologia onde essa é a principal função: a taxinomia. A propensão de  rotular também está impressa no nosso cérebro, pois com certeza absoluta essa é uma habilidade fundamental para se sobreviver num ambiente hostil, faz todo o sentido separar quais plantas se pode comer e quais não se pode comer, por exemplo, se você fosse um ser humano habitando o planeta azul há 30 mil anos. 

   “Ótimo, Soul, mas rotular não pode ser só bom, senão você não estaria escrevendo um texto a respeito, não faz o seu estilo”, pode pensar algum um arguto leitor. Excelente observação, e aqui o artigo realmente começa. Para desenvolver o raciocínio vou dar um toque pessoal. As pessoas adoram toques pessoais, e são quase imunes a dados. Essa atitude não é racional por razões óbvias, mas é assim que o nosso Sistema 1 gosta, e é quase sempre ele que está no controle. Não foi por outra razão que Stalin foi preciso ao dizer que “ A morte de uma pessoa é uma tragédia, a morte de milhões apenas uma estatística”. O ditador soviético não poderia conhecer na época o que a ciência sabe hoje sobre formas de pensar, mas ele foi preciso. Nosso cérebro não evoluiu para trabalhar com dados, números e estatísticas. Logo, histórias com algum toque pessoal sempre prendem mais a atenção.

   No penúltimo artigo que escrevi sobre o Brasil houve uma série de comentários. O artigo pode ser resumido assim: O Brasil melhorou diversas métricas nos últimos 30 anos. Assim, do ponto de vista apenas econômico está melhor do que muitos países. Porém, o nível de agressividade está tão alto, até em atitudes cotidianas das mais banais, que mesmo países mais pobres do que o Brasil parecem ter relações mais saudáveis entre os seus membros. Algumas das pessoas não concordaram, o que é algo normal e natural, mas até hoje me pergunto exatamente com o que elas não concordaram, pois em nenhum momento ficou claro. Outras, quase que servindo como exemplo para o que foi escrito no texto sobre agressividade na forma de “idiota” para lá,  “imbecil” para cá, chamaram-me de “defensor do marxismo cultural”, “esquerdista caviar”, “esquerdopata”. Permitam-me,então, contar a mesma história, mas apenas com o sinal trocado.

  Eu tenho um primo que é filiado ao PT. Não é apenas filiado ao PT, como exerceu cargos em comissão importantes. Toda hora via fotos dele em Brasília com gente graúda. Bom, o meu querido Primo, é como o colega do blog Heavy Metal, e tantos outros anônimos que se manifestaram, mas de cabeça para baixo, ou com sinal trocado (poderia fazer um paralelo com antimatéria?). Ao invés de “Petralha”, “Esquerda Caviar”, os termos preferidos eram “Coxinha” e “PIG”. Ao invés de “Todas as sementes ruins foram plantadas há 12 anos”, ele dizia que “todas as sementes boas foram plantadas apenas há 12 anos”. Aliás, sobre essa afirmação,apenas um comentário. As pessoas não conseguem perceber a contradição lógica e evidente que era ficar brabo quando o Lula dizia “nunca antes na história desse país” aproveitando-se do fato da economia ir muito bem, e agora dizer que tudo de errado vem de 12 anos? A contradição no discurso é ululante. Sempre me incomodava ouvir o ex-Presidente insinuar que o Brasil tinha começado com ele, como se a própria possibilidade  da eleição para o cargo máximo do país de uma pessoa como o Lula não fosse fruto de um longo caminho de melhora institucional do nosso país. Entretanto, se essa é a forma de se raciocinar, não faz sentido , e aqui falo apenas de lógica formal mesmo, que todas as malezas do nosso país advieram com o ingresso do PT no poder. Esse é apenas um exemplo de como esses discursos inflamados estão cheios de erros de lógica simples, sem falar que eles não costumam se manter em pé depois de um sopro argumentativo.

  Pois bem. Eu comecei a usar o facebook mais frequentemente ano passado (porém, eu ainda utilizo pouco e fico impressionado com o tempo que certas pessoas perdem com bobagens em redes sociais), e fiquei assustado com o nível das mensagens do meu primo. Havia muito rancor e tantos erros, principalmente quando ele se manifestava sobre economia, que era algo muito insólito. Comecei a me manifestar da forma que sempre faço. O meu primo ficou tão descontrolado, que ele chegou a dizer que eu tinha votado no Collor quando o tema do assunto era a influência da CIA ou não nos rumos da América Latina (What a fuck?). Aliás, é muito comum que em discussões como essa temas do arco da velha surjam. Quando salientei que eu tinha 8-9 anos na eleição do caçador de marajás, ele simplesmente me deletou do Facebook, não antes de me chamar de neoliberal, defensor dos capitalistas e é claro coxinha (seja lá o que isso signifique).

   “Soul, mas também pudera, você é chato para caramba!”, um leitor mais mordaz talvez tenha dito agora ao ler o texto. Talvez, talvez jocoso leitor. Porém, o ponto que mais me chamou atenção é que meu Primo se manifestava em diversas ocasiões quando as proverbiais palavras “petralha”, “imbecil” eram ditas. Ele dizia as mesmas palavras em sentido contrário, e como num teatro a discussão encerrava. Depois do meu último texto sobre o Brasil, eu refleti mais uma vez sobre o episódio, e posso entender que muitas pessoas só conseguem lidar com posições muito bem definidas, não importando se elas fazem sentido ou não, se elas são compatíveis com a realidade e os dados ou não. Assim, a pessoa sabe lidar com aquilo que se encaixa nos seus modelos mentais previamente estabelecidos.  Quando a forma de classificar é mais fácil, a pessoa sente um alívio, ao leitor mais atento sim é o nosso Sistema 1 preguiçoso trabalhando.  Logo, se o meu primo  aparecer em algum espaço “anti-pt”, o rótulo será rapidamente aplicado, e as eventuais ofensas de praxes serão desferidas, e está tudo certo. Porém, quando uma determinada opinião foge do "rótulo padrão", eu creio que se cria alguma forma de GAP nos sistemas de pensamento. A pessoa se sente, nem que no nível inconsciente, desconfortável com a situação. Como a situação não pode perdurar muito tempo, eu creio que se abre duas possibilidades (creio que também podem acontecer de forma inconsciente): a) o Sistema 1 toma o controle novamente, e, por aproximação (uma forma muito comum do nosso cérebro tomar decisões, o que leva a inúmeros equívocos, talvez escreva um artigo  sobre esse tema algum dia) simplesmente traz essa nova informação para algum rótulo já previamente bem estabelecido ou b) o Sistema 2, nossa forma de pensar mais custosa e racional, é chamado para corroborar ou não os nossos rótulos anteriores.  A toda evidência a solução “b" é mais custosa, mais trabalhosa, mas de certa maneira traz algum tipo de evolução.


Ou as colunas das revistas Veja, Caro Amigos, Carta Capital.....

  Na bem da verdade, eu acho que há uma terceira forma. E aqui dou mais um toque pessoal. Qualquer pessoa mais acostumada com alguns pensamentos budistas, talvez já tenha ouvido falar sobre o ser humano ser uma máquina de classificação. Como vimos alguns parágrafos acima, isso é verdade. Porém, há algo mais profundo aqui, pois essa nossa convulsão por classificar coisas e pessoas pode atrasar a nossa evolução e embotar a nossa visão sobre a verdadeira realidade das coisas. Quando estava em Auckland na Nova Zelândia, fiquei hospedado na casa de uma amiga da Sra. Soulsurfer. Foi muito maneiro, pois além da amiga e o namorado serem muito gente boa, eles nos apresentaram a pessoas muito legais (além é claro de ter rolado banho quente e uma cama confortável de graça né!), uma delas foi o Eric.

  O Eric é mais um brasileiro tentando a vida no exterior. Desgostoso com a vida no Brasil, principalmente a violência cotidiana nas relações mais simples, cidades agressivas a uma boa vida, ele resolveu tentar a sorte na NZ (foi muito engraçado, aliás ele é uma pessoa extremamente engraçada, ouvir ele dizendo que a rádio mais tocada em SP é a “rádio trânsito” e que isso diz muito a respeito de uma cidade e sobre as relações que lá se desenvolvem). Ele passou e ainda passa por uma situação muito particular, e é um belo exemplo de superação. Num determinando momento de uma conversa que estávamos tendo, ele disse que estava começando a ficar incomodado de ser conhecido como “O Eric do Pilates”. Ele é professor de Pilates , e aparentemente muito bom no que faz. Porém, ele me disse que era muito mais do que “O Eric do Pilates”. Sim, meu caro Eric você com certeza o é. Uma vez vi uma palestra dada na Índia que o nome era “a verdade fundamental sobre a natureza humana” e a pergunta principal feita era "quem é você?”. Você não é a sua profissão, o seu nome, as suas opiniões políticas, você é muito mais do que isso. Ou os colegas blogueiros Corey e Rover são apenas empreendedores? O Neymar é apenas jogador de futebol? O Soulsurfer é apenas viajante, ou apenas comunista, ou apenas defensor dos capitalistas?  Evidentemente que não. Aliás,faça essa pergunta a si mesmo, “quem é você?”, e veja o que você responde.

Uma das frases que mais gosto. Ás vezes parece que a verdade pouco interessa a várias pessoas.

    Entretanto, máquinas classificadores que somos, apoiados no nosso Sistema 1, em sistemas educacionais que alimentam apenas essa forma de pensar, muito dificilmente se enxerga algo sem colocar inúmeros rótulos nele. Não damos, por preguiça, medo ou ignorância mesmo, passos para que nossa forma de ver o mundo seja muito mais abrangente.  Assim, rótulos podem tornar a nossa visão do mundo e das outras pessoas muito mais empobrecida do que ela poderia ser. Porém, há algo mais nefasto nos rótulos que às vezes faz surgir a faceta mais sombria dos humanos. E, infelizmente, eu vi a semente disso aqui no meu próprio blog num comentário que associava pessoas ou uma visão política específica a uma doença.

  Quer se aprofundar realmente nos recônditos da alma humana? Colegas, não achem que irão encontrar isso em obras como “Quem mexeu no meu queijo?”, “ O Monge e o Executivo”, “ Como influenciar Pessoas”, etc, etc.  Um escritor que se torna clássico tem um bom motivo para isso. Eu sou um admirador muito grande de Kafka. Para mim, ele é um dos maiores escritores de todos os tempos. Suas análises sobre comportamento humano, ética, sociedade, justiça são simplesmente devastadoras. O livro “O Processo” é um que já li duas vezes, e creio que irei ler pela terceira vez brevemente. É simplesmente brilhante. É tão magistral que se utiliza o termo kafkiano para muitas situações desconcertantes hoje em dia.  Esse é um ótimo autor para entendermos mais sobre nós mesmos. Outro gigante é Doistoiéviski. Livros como “Irmãos Karamazov”, “O Idiota” são absurdamente geniais e desnudam a “alma” humana com uma profundidade marcante.

"Marxista Cultural, Coxinha, Defensor de Capitalista, Não Patriota, Patriota, Individualista, Coletivista, Direitista, Esquerdista, Convencido, Humilde e inúmeros outros istas" depois de tantos rótulos recebidos, Soulsurfer com dificuldades existenciais para saber quem é. Nope, minha  única dúvida existencial esta noite é sobre se escolho peixe ou pasta e se amanhã vou para Frigates ou Pipes.


  “Ok, Soul, por qual motivo agora essa digressão sobre literatura?” Quando estive em Praga (aliás é uma das cidades mais bonitas em que já estive), tive o prazer de visitar um museu inteiramente dedicado a Kafka. Eu ainda quero voltar a esse museu e aproveitá-lo melhor, porém há algo que eu lembro como uma imagem muito vívida em minha mente. Na parte do museu que travava sobre o livro “O Castelo”  - outro livro sensacional também - havia uma montagem muito forte. Era mais ou menos assim (não sei se alguém que porventura ler esse artigo já leu o livro em questão): começava com um castelo que se tornava meio escuro, uma figura humana aparecia na tela - muito provavelmente representando o protagonista da história - , e uma  série de frases apareceram “Quem era ele?”, “Ninguém.”, “Não, ele não era ninguém, ele não pode ser ninguém”. "Ele era um estranho”, “ Um estranho.”, daí a imagem do homem ia se transformando aos poucos até que ficava visível pessoas num campo de concentração nazista. Não consigo pensar numa forma mais brilhante de colocar a questão. O processo de desumanização dos Judeus feito pelos nazistas passou exatamente pela habilidade de se construir uma imagem de “estranhos”. Está aí uma palavra que raramente utilizo no meu vocabulário para me referir a pessoas que não conheço, e quando o faço e me dou conta, sinto-me muito mal.

   O que isso tem a ver com rótulos? O exemplo do holocausto judeu vem bem a calhar. Há um livro muito forte também do escritor Primo Levi chamado “ É isto um homem?”. Não consigo imaginar um relato mais pungente sobre a miséria humana do que esse. O prefácio do livro é extremamente forte. Nele, Levi escreve expressamente que enquanto existir a mentalidade do “estranho”, “do outro”, as sementes para o abominável sempre estarão presentes. A forma mais nefasta que os rótulos podem ter é quando se tenta por meio de classificações associar pessoas, ou grupos inteiros, a conceitos extremamente ruins, e baseado nisso de certa forma “desumanizar" pessoas ou grupos de pessoas. Aliás, o primeiro passo sempre é a tentativa de desumanizar, tirar o que há de humano, de grupos ou indivíduos específico.  “Soul, está muito confuso e abstrato”, não é, colega. O padrão é, sem surpresas,  o mesmo. Um anônimo associou pessoas com doença. Isso foi exatamente utilizado pelos nazistas em relação aos judeus, que eram considerados sujos, mais propensos a transmitir doenças, bem como comparados a ratos. Os Hutus, no genocídio de Ruanda de 1994, também associavam os Tutsis a doenças, e os chamavam de baratas. Os exemplos históricos são muitos.  Por isso, é com extrema tristeza que eu constato que as afirmações de Primo Levi são verdadeiras. De alguma maneira, nós humanos temos a propensão de criar “estranhos” por meio de processos de rótulos, e que isso, na pior hipótese, pode levar a atos de genocídio.

  Conviver numa sociedade em que, mesmo que a nível inconsciente, de alguma forma se dê vazão, e muitas vezes são até mesmo incentivadas,  a condutas tão deploráveis como essa é algo para se preocupar. Isso apenas me faz ter certo que esse período de estabilidade social em que vivemos não é necessariamente um arranjo permanente. Quem não garante que “ defensores de capitalistas ” não poderiam perseguir, torturar, “marxistas culturais”, se tivesse poder para tanto? Quem não garante que “marxistas culturais” não perseguiriam e torturariam “defensores de capitalistas" se tivessem o poder para tanto? O que garante que isso não ocorra é um Estado de Direito, Instituições Sólidas, e relações humanas mais saudáveis e equilibradas. Ajuda também um lugar sem muitas tensões “raciais”, étnicas e religiosas,e nisso nosso país, ainda bem, é relativamente estável. Eu como posso ser rotulado de “marxista cultural” e “defensor de capitalistas” a depender do humor e do sinal se + ou - do interlocutor (já que as opiniões nesse nível são as mesmas, apenas possuem o sinal trocado), me daria muito mal se pessoas como essas algum dia chegassem ao poder num Estado desestruturado como tantos que existem no mundo. A única defesa é o Estado de Direito, e é por isso que sempre defenderei os direitos humanos, a legalidade constitucional e relações humanas mais saudáveis e menos agressivas. Não é de se estranhar também que luminares da humanidade tenham sido assassinados por trazerem mensagens de paz e amor, que de certa maneira são mensagens anti-rótulos - quando aplicados na sua pior utilidade que fique claro. Talvez seja por isso também que Nietzche disse que o único cristão morreu na cruz. Porém,  creio que começo a me afastar do tema proposto.

  Portanto, é preciso, no meu sentir, fazer sempre uma auto-crítica quando rotulamos ideias e pessoas e ter cuidado para que não cheguemos nas piores formas, como algumas pessoas parecem chegar por tão pouco.

   Eu, sinceramente, não me incomodo com nenhum rótulo que por ventura coloquem em mim. Já me chamaram de tantas coisas no trabalho, na vida, e até aqui mesmo nesse espaço pequeno da internet Aliás, esse foi um processo meu de amadurecimento. Para mim já é bastante claro que a forma de rotular ideias e pessoas de maneira acrítica é uma forma incompleta, preguiçosa e ineficiente de se analisar a realidade. Além do mais, não se tem controle sobre o que outros podem pensar sobre você, e se libertar disso é uma fonte a menos de stress e ansiedade. Acima de tudo, o Eric é muito maior do que o “Eric do Pilates”, assim como o Soulsurfer é muito maior do que qualquer rótulo verdadeiro ou não, e qualquer colega que esteja lendo esse blog é muito maior do que qualquer categorização que se tenha de si mesmo. 

Para desanuviar um pouco e incentivar mais pessoas a sair da rotina, cito uma última frase de Thoreau que bem poderia ser traduzida como "ode à viagem zen".

   Como último pensamento desse artigo, digo que nunca terei nenhum pejo para dizer o que penso sobre qualquer coisa. No ano passado, tive uma reunião em Brasília com o chefe da minha instituição. Provavelmente, ele é responsável de maneira direta e indireta pela gestão de bilhões ou centenas de bilhões de reais. Ele, para minha surpresa positiva, foi muito polido e gentil mesmo discordando de mim diversas vezes. Eu, por outro lado, mantendo a educação que recebi dos meus pais, fui respeitoso e o tratei como trataria qualquer outra pessoa. Discordei diversas vezes também, mesmo tendo assessores engravatados tendo olhos fixos em mim. Sendo assim, quando falo que se deve tratar com respeito qualquer pessoa, independente do seu poder ou dinheiro, eu falo realmente sério. Além do mais, não vai ser num espaço da internet que escrevo sem ganhar nada, sem qualquer responsabilidade, que terei algum receio de assumir posições sobre qualquer coisa. 

Não, Soulsurfer não estava dançando a macarena Foi uma tentativa satírica, talvez não bem sucedida,  de imitar a famosa foto do Jânio um pouco antes dele renunciar. A foto é sensacional e mostra a indecisão de um homem.

É isso colegas. Abraço a todos!
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sábado, 13 de junho de 2015

FIJI+CLOUDBREAK+WCT+SLATER+ EU = SICK!

13 comentários : Postado por soulsurfer às 13:56 Marcadores: Fiji , Incrível Mundo
 Bula! E aí colegas! Hoje foi demais mesmo! Atualmente, estou em Fiji. O lugar é simplesmente fantástico. O povo é um dos mais acolhedores que eu já conheci. A beleza é indescritível. Na última semana, depois de tanta aventura e dias com inúmeras atividades na Nova Zelândia, eu e a Sra. Soulsurfer ficamos simplesmente sem fazer muita coisa. O lugar? Nacula Island pertencente a  Yasawa group. Ficamos num resort simplesmente espetacular. “Espetacular, aposto que era um resort luxuoso 5 estrelas!” alguém pode estar pensando. Nope. Na verdade ficamos num dormitório (um resort ter um dormitório foi novidade para mim), numa ilha paradisíaca. Quando falo paraíso, não estou exagerando. Já vi praias lindíssimas no Panamá, Filipinas, Tailândia, Indonésia, Malásia, mas uma ilha como aquela eu nunca tinha visto. Foi demais.

 Que lugar é esse...
Uma boa vista para se ter enquanto se come um delicioso café-da-manhã ou almoço.
Sem quase ninguém na ilha. Sem resorts cinco estrelas como é comum em muitas ilhas bonitas. Com um povo hospitaleiro ao extremo. O lugar é simplesmente sensacional. Se tivesse onda, eu acho que eu iria fazer um curso de dive master e morar um tempo no lugar.
   
Por 130 dólares por dia o casal, ficamos no resort com todas as refeições incluídas. Algumas refeições eram simplesmente deliciosas, pareciam feitas por algum chef extremamente talentoso. O resort era completamente integrado a natureza com capacidade para umas 70 pessoas. Nada de shopping-resorts como em Cancun ou algumas partes da Tailândia. Também não era tão rústico como San Blás no Panama. Era simplesmente perfeito. Passamos seis dias sem usar nem mesmo chinelo, fazendo SUP, andando de caiaque, nadando, ficando com o pé na areia e aproveitando as inúmeras atividades culturais que aconteciam de noite. A hospitalidade dos funcionários foi impressionante. Havia ali uma alegria e educação genuínas.

 Uma cervejinha local na janta sempre vai bem...
 Sempre havia atividades culturais, quase todas elas ligadas às pequenas vilas que existem na ilha e que de diversas maneiras se beneficiam do turismo. Uma forma inteligente de se ganhar dinheiro. Nesse dia era um coral, muito por sinal. O legal era que sempre envolvia todas as gerações. Tinha até mesmo uma criança muito simpática com síndrome de Down. Todos os dias tinha cerimônia de Kava, onde se tocava um som muito gostoso de se ouvir. Na última noite, teve dança típica e foi muito divertido mesmo. 
Educação e gentileza no atender e no se portar. Talvez uma boa medida seria trazer milhares de Fijianos para o Brasil. Ajudaria aos brasileiros serem um pouco mais gentis e menos agressivos no trânsito, em blogs de finanças pessoais, na fila do supermercado? Não sei, mas seria uma tentativa:)

    
       O lugar é tão bonito que um dos filmes que mais gosto foi filmado aqui: o sensacional e maravilhoso “Contato”. Se não bastasse isso, o famoso filme “Lagoa Azul” foi filmado na região, e eu tive a oportunidade de visitar alguns lugares da filmagem. Preciso rever esse filme, pois eu não lembro quase nada da história e do cenário.

Um dos locais onde gravaram o filme lagoa azul. Tentativa minha frustada de capturar o momento de um pulo.


 Todos os dias o sunset era impressionante, com uma explosão incríveis de cores. Alguns dias o céu era muito estrelado (não tanto como em alguns lugares que já estive, mas mesmo assim impressionante). Caminhar com a Sra. Soulsurfer descalço numa praia com uma água que parecia uma lagoa,sem quase nenhuma luz artificial com a iluminação das próprias estrelas na água (isso eu nunca tinha visto) foi uma experiência incrível mesmo. Um lugar para se voltar, com certeza absoluta.

 Sunsets sensacionais todos os dias...
Soulsurfer em momento de criança!


   Entretanto, o objetivo principal de estar em FIJI não é para relaxar em alguma ilha paradisíaca, apesar disso não ser nada mau e o divertido da viagem é se adaptar as circunstância do lugar, mas sim ver e tentar surfar ondas perfeitas que habitam o sonho de qualquer surfista.

   O velho e bom Nick também está em FIJI. Para quem não se lembra, ele é um dos americanos que conheci no salto de Bungy, depois reencontrei na iradíssima cidade de Raglan e viajamos diversos dias juntos, sendo que até mesmo num jogo de Rugby fomos em Auckland. Nick estava em FIJI há uma semana a mais do que eu. Em apenas 12 dias, o intrépido americano fez um curso de certificação de mergulho, mergulhou com tubarões de noite, tirou o longo atraso de meses (ele estava viajando com o Steve numa campervan por vários meses na NZ) num barco pesqueiro, quase garantiu vaga num navio partindo de FIJI para Austrália numa viagem que irá passar (meu deus do céu!!) por Vanuatu, Ilhas Cook, Nova Caledônia e ainda quase morreu numa experiência surreal para alguém como ele.

   Sobre trabalhar num barco, ele me indicou o site findacrew.net  É simplesmente sensacional. Meus olhos brilharam, pois é algo que sempre quis fazer. Simplesmente se pode cruzar oceanos, viajar por lugares impossíveis de serem atingidos se você é turista convencional, e isso tudo de graça. Fantástico. Com certeza eu vou querer aprender algumas noções básicas de navegação (e em alguns barcos nem isso é requerido) e vou querer fazer uma viagem dessas. Se juntar com os diversos sites que oferecem hospedagem em casas de graça desde que você cuide da mesma na ausência dos donos ou de algum animal de estimação, as opções de viagem são ilimitadas. Fiquei tão animado com a ideia, que estou considerando seriamente a possibilidade de mudar radicalmente a minha viagem. Talvez não volte tão cedo para o Brasil. Porém, creio que neste exato momento a possibilidade é pequena de fazer uma jornada como essa. Irado Nick!

    Sobre a quase morte do Nick, isso me leva ao tema da minha experiência extraordinária de hoje. Nick não sabia surfar há seis meses. Ele e seu amigo foram para NZ com o objetivo de aprender a surfar. Eu surfei com eles e fiquei impressionado com a postura deles na água. Obviamente, eles eram surfistas com quase nenhuma habilidade, mas surf é um esporte muito difícil mesmo. Atingir o nível deles de remar num mar de um metro e meio até o line up, remar em ondas e dropar (mesmo que reto) uma onda dessas é algo incomum para quem surfa há tão pouco tempo. Entretanto, eu adverti o Nick “Cara, Fiji é outro nível, pode ser muito perigoso, tome cuidado”. Não é que ele foi para Cloudbreak num mar de 6 pés plus (eu não surfaria num mar desses, muito menos se fosse a minha primeira vez em Cloud), junto com o Medina, Slater, Fanny, Toledo e o cara não pegou uma onda? Eu falei: “Não acredito que você fez isso”. Como ele não tem quase nenhuma habilidade, algo que vem com muito tempo de surf, ele dropou reto a onda. Não se faz isso numa onda como Cloudbreak. Ele se viu na zona de arrebentação e sendo cada vez mais empurrado para os reefs (corais) mais rasos. Não tem como remar de volta, e fico feliz que ele se lembrou do meu conselho dado ainda em Raglan de remar paralelo e tentar de todas as maneiras voltar para o canal. Ele disse que  remou quase 40 minutos pela vida e foi a coisa mais assustadora que ele passou na vida (e olha que o cara já fez semi-profissionalmente wakeborad e mount bike e tem inúmeras cicatrizes de acidentes com esportes). Apenas disse : “Meu amigo, isso que você fez foi uma mistura de coragem, insanidade e burrice”, ele apenas assentiu e respondeu “É, eu sei, mas eu surtei Cloudbreak dude!” O que me traz finalmente ao assunto do presente artigo.


   A etapa do campeonato mundial de surf (WCT) está acontecendo em FIJI nessa semana. Pensei comigo mesmo que seria algo sensacional assistir de perto a etapa mais alucinante do Tour. Cloudbreak é uma onda que quebra nos chamados outer reefs, ou seja no meio do nada. O acesso se dá apenas por barco. Sendo assim, não há ninguém assistindo, apenas os surfistas profissionais, o barco oficial onde eles fazem as filmagens e eventuais outros barcos que resolvem ir lá ver a competição (não é permitido surfar lá em dias de campeonato). O Nick arranjou um barco para nos levar lá de Nadi. Hoje de manhã, lá estava eu, minha companheira, o nick, uma família de indianos muito bacanas (conheciam até mesmo Ubatuba, o que foi algo bem fora do comum), dois franceses e um Kiwi. Meus amigos, para mim que sou surfista foi algo extraordinário avistar o palanque dos juízes no meio dos corais (quem é do surf conhece essa imagem). Quando chegamos lá, avisaram por megafone que barcos deveriam ficar bem mais afastados, mas mesmo assim era possível ver as ondas e os profissionais. O Mar estava 8 pés plus, ou seja grande (cloudbreak segura até 15 pés, quando está assim é uma das ondas mais perfeitas, pesadas e perigosas do planeta).

 Torcida de Fiji para o surfista local. Não deu para torcer para o fijiano, pois a bateria era contra o prodígio brasileiro Felipe Toledo.
 Cloudbreak e os seus tubos largos, compridos e pesados. 
Eu e Nick curtindo as baterias. Quem diria que iria ter tantas experiências fantásticas com esse americano sensacional.


      Ficamos vendo baterias do Felipe Toledo, e outros feras. Até que o Slater caiu na água. Para quem não conhece o Kelly Slater é o Pelé do surf, ou talvez o Pelé seja o Kelly Slater do futebol. O cara é 11 vezes campeão do mundo, tem mais de 40 anos e ainda é extremamente competitivo num  esporte dificílimo e que requer muito vigor físico. Ou seja, o cara é simplesmente uma lenda do esporte e não apenas do surf. A primeira onda do Slater ele pega um tubo bem profundo. A galera vibrou. Falei comigo mesmo, “caraca, preciso ver isso mais de perto”. Perguntei para o barqueiro se eu poderia remar na minha prancha até onde estavam os Jet Skis da competição. Ele falou “provavelmente não, mas vai lá e tenta”. Munido com a minha Go Pro fui remando até bem perto, chegando bem devagar. Quando me dei conta estava no meio dos Jets, bem perto das ondas, e olhei para o lado e tinham vários surfistas profissionais gringos conhecidos.

 Nossa, foi surreal aquilo para mim. Comecei a pensar “Estou em Cloudbreak vendo a famosa etapa do Tour, sentando na minha prancha nessa mar absurdamente azul,  vendo bem de perto essa onda excepcional”. Depois desse pensamento, vi que estava do lado do Kelly Slater e ele estava dando uma entrevista para um repórter sentado numa prancha como eu. A entrevista acabou e o Kelly Slater passou por mim e eu falei “Hey, man!”, e ele assentiu com a cabeça e fez um Hang Loose. 

   Logo depois disso chegou, creio eu, o chefe dos Jets e disse que eu não poderia ficar ali. Eu respondi “Beleza”, ele polidamente agradeceu. Foram uns 20-25 minutos bem intensos e muito bacanas para um surfista como eu que apesar de não ser um bom surfista em matéria de habilidade, possuo um grande sentimento em relação a essa prática que é muito mais do que um esporte. Aliás, é desse sentimento que vem o meu Nickname Soulsurfer.

 Soulsurfer remando em direção à adrenalina (canto direito sem camisa). Ao fundo área dos Jet Skis, e depois fui descobrir que as outras pessoas ali era a imprensa oficial do evento e alguns surfistas internacionais muito famosos (eu creio que eu vi o Fanny, a lenda Occhilupo)

Soulsufer sentando em sua prancha em Cloubreak. Ao fundo Kelly Slater dando entrevista. Mais ao fundo ainda as ondas de cloudbreak. Irado demais!! Ou como diriam os gringos: "Sick Bro!" (algo como "maneríssimo cara!")

    De tarde, depois de tanta adrenalina, peguei um cinema em Fiji (adoro ir a cinemas no exterior, tenho histórias interessantes em cinemas na Índia e Filipinas). Após o mediano filme "Lost World",  comi  camarões gigantes fritos no alho (yummy!!). What a day! Daqui alguns dias, se tudo der certo, será hora de não apenas assistir, mas de surfar Cloudbreak. Será que estou preparado? Não sei, só de pensar já me dá frio na barriga, muito, mais muito maior do que saltar de paraquedas, pular de bungy, ou pensar na possibilidade de perder dinheiro. Apenas a possibilidade de pegar um tubo, ou tentar entubar,  nessa onda perfeita coloca um sorriso na minha face, parecendo que voltei aos dias tão bacanas de criança.  Vamos ver o que vai acontecer.

Escrevi inúmeros artigos enquanto estava na ilha paradisíaca (vou publicando aos poucos). Também com um visual desses (pegava internet na praia), é um incentivo a escrever e manter a serenidade e paz de espírito ao responder alguns comentários...

Grande abraço a todos!


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terça-feira, 9 de junho de 2015

BRASIL: EDUCAÇÃO, VIOLÊNCIA E AS SEMENTES ERRADAS

57 comentários : Postado por soulsurfer às 03:46 Marcadores: Brasil , Reflexões
   Bula! E aí colegas tudo certo? Hoje escrevo sobre um tema recorrente, principalmente na blogosfera financeira. Aliás, retomo um tema já aqui tratado. Quando escrevi um artigo chamado "O Brasil é tão ruim?", procurei colocar a minha percepção de como deveríamos analisar o nosso país na conjuntura internacional. Não mudei a minha visão desde então. Eu realmente acredito que é um erro não olhar para o andar de baixo da humanidade, para os três bilhões, eu disse BILHÕES, de seres humanos que sobrevivem com menos de dois dólares por dia.

   Além do mais, parece claro que o Brasil evoluiu em diversos aspectos. Os índices de mortalidade infantil, por exemplo, diminuíram sensivelmente nos últimos 30 anos. Alguém pode pensar "e daí?". Bom, uma sociedade onde os recém-nascidos tem uma probabilidade grande de falecerem com menos de um ano de idade, é uma sociedade que está a anos-luz de sociedades mais desenvolvidas. O Brasil era tão ruim nesse quesito que nós estavámos no andar de baixo em mortalidade infantil no plano internacional.  A miséria extrema também foi diminuída, hoje em dia muito menos pessoas passam fome. Isso não é trivial, muito pelo contrário. Uma pessoa que passa fome não tem possibilidade de ser nada, nem trabalhador, nem cidadão, nem qualquer coisa que imaginemos. A fome é uma chaga na humanidade e é incrível pensar que 1 bilhão de seres humanos são considerados pela ONU como deficientes nutricionais, ou seja ingerem menos caloria do que o mínimo recomendado pela ciência médica. Índices de matrícula de alunos em escola, expectativa de vida, e muitos outros melhoraram consideravelmente nas últimas décadas.

   Isso não é pouco, colegas.  Se nosso país ainda é extremamente deficitário em várias áreas, a situação há 30 anos era ainda mais desesperadora. "Tudo muito bom, tudo muito bem, mas a vida aqui no Brasil é horrível comparada com de um país desenvolvido", alguém pode estar pensando. Há força nesse argumento, admito.

   O colega Rover escreveu um texto sobre as razões de se querer deixar o Brasil. Os argumentos não são novos e  sempre muito utilizados em vários textos, ou vídeos que existem na internet principalmente de brasileiros que vivem no exterior.  Há, no meu entendimento é claro, exageros e certas conclusões equivocadas, principalmente no que toca ao fato da grande variedade de etnias e culturas que formaram o Brasil ser um dos motivos principais pelos problemas nacionais. Não concordo, muito pelo contrário. A nossa exuberância cultural, e ela é reconhecida internacionalmente, é fruto direta da nossa heterogeneidade. Ao contrário de outros países, onde há diversidade, mas não há integração efetiva entre diversas etnias, no Brasil todos os grupos se misturaram, criando um caldo cultural talvez único no mundo. Talvez por isso não tenhamos nenhum problema sério de conflito religioso, étnico ou "racial" (não, não existem raças na humanidade). Para as pessoas que acham isso pouco, basta olharmos os diversos problemas no mundo, e não apenas em países pobres, onde a intolerância com membros de outras etnias ou culturas é catalisador de disputas sangrentas.

    Entretanto, muitos pontos abordados no texto supracitado são verdadeiros. Quero aqui me ater em apenas dois que acho os mais preocupantes. A Corrupção é um fenômeno internacional de maior ou menor medida a depender do país. Muitas instituições brasileiras estão cada vez mais fortes no combate a corrupção e creio que aqui o Brasil vem avançado, por pior que possa parecer a situação (agora imaginem como não era há 30 anos sem um ministério público forte, sem um TCU atuante, sem uma imprensa vigilante, etc). A infraestrutura é um problema, mas nada que não possa ser solucionado. Há centenas de bilhões de dólares de investidores internacionais loucos em colocar o seu dinheiro em projetos que tenham taxas de retornos muito maiores do que projetos em países desenvolvidos. Aliás, talvez a aposentadoria da classe média dos países mais ricos irá depender no futuro da poupança acumulada deles irem para projetos de desenvolvimento ao redor do mundo com taxas de retornos maiores para poder possibilitar taxas maiores de retirada de seus portfólios. Uma maior segurança institucional, um norte mais claro sobre os marcos regulatórios, e dinheiro para melhorar a nossa infraestrutura não irá faltar.

   Os reais problemas, em minha opinião, são a violência e a falta de educação. Quando falo de educação não falo apenas da educação formal, que aliás é uma lástima, mas também na forma como nos comportamos nas relações sociais mais triviais. Quando falo de violência, não falo apenas de atos violentos contra a vida ou patrimônio, mas também a violência "invisível" a qual a maioria dos brasileiros são submetidos no seu dia a dia.

  Vejam, a renda per capta do Brasil é muito maior do que a do Camboja, Laos, Myanmar, Fiji (para citar apenas alguns países  não tão desenvolvidos em que já estive). Muito provavelmente, por mais precária que seja, a nossa educação formal é melhor do que estes países citados. Entretanto, as relações humanas nesses países, pelo pouco que pude observar, se dão num contexto de muito mais respeito. Um brasileiro que conheci em Auckland há poucos dias disse-me que isso se dava pelo conceito de carma. Já tinha pensando nisso. Na maioria dos países citados, o conceito de carma é algo muito arraigado. Assim, a religião acaba tendo uma função de controle social e apaziguamento de tensões muito grande. Porém, para além dessa questão, eu creio que nestes lugares as pessoas simplesmente são mais educadas.

   Isso me leva à violência. É claro que assassinatos, sequestros, etc, são crimes violentos abalam profundamente, quando praticados em grande número como no caso do Brasil, a possibilidade de uma vida mais tranquila. Porém, aqui chamo atenção para a violência mais banal e aparentemente espalhada em todas as relações.  É a pessoa irritada porque você esbarrou na mesma na fila do supermercado, é a disputa acirrada por uma vaga de estacionamento num shopping, é os xingamentos no engarrafamento de alguma metrópole brasileira, é algum vendedor atendendo com rispidez um cliente, é um servidor público destratando algum cidadão, etc, etc. A verdade é que nós Brasileiros estamos cada vez mais violentos. É visível a diferença quando eu volto ao Brasil. Olhe na internet. É imbecil, burro, ignorante, idiota para lá e para cá. As pessoas que dizem isso não estão prestando atenção quão horrível esse tipo de conduta é, e quão significativa ela é do nosso estado de humor enquanto sociedade. É deprimente.

   Isso me deixa preocupado. A educação formal no espaço de 30-40 anos nós poderíamos sim dar um grande salto (aqui é outro problema, será que enquanto nação estamos preparados para sermos generosos e saber que devemos plantar sementes boas para as gerações futuras e que talvez nós não venhamos a desfrutar, mas sim nossos filhos?). Porém, será que poderemos tornar as nossas relações sociais e humanas mais gentis e educadas? Isso não é um problema apenas de educação formal, pois o nível de agressividade atual do brasileiro parece não depender de nível financeiro. O exemplo da Coréia do Sul sempre é citado. Acontece que a Coréia do Sul possui uma história tão antiga como o Japão. Há conceitos lá arraigados há centenas, quiçá milhares, de anos. Assim, a educação formal florescer num país como esse não é tão difícil, e evidentemente não é a única parte da história (eu conheço muitos sul-coreanos, são pessoas gentis e esforçadas).

  Eu, sinceramente, tenho sérias dúvidas de que uma mudança na forma de interagirmos uns com os outros de maneira mais cordata possa ser feita em menos de duas gerações. Está a se falar de 60-70 anos, no mínimo. Assim, não, nós não teremos nem mesmo no médio prazo uma sociedade onde a palavra "sorry" parece fazer parte da educação mínima. Nos EUA, Nova Zelândia, ou qualquer outro país desenvolvido, a pessoa cotidianamente fala "desculpa". em várias situações.  Pode ser um ato mecânico muitas vezes, mas atos como estes induzem comportamentos, que induzem hábitos. Aqui é muito difícil ouvir ou ler a palavra "desculpe", infelizmente. Tenho diversos defeitos, mas uma das minhas qualidades é não ter qualquer pejo, receio ou problema de dizer "desculpe". Quantos "desculpe" você ouviu recentemente?

   Sendo assim, o Brasil é um país complexo mesmo. 200 milhões de habitantes, um continente, com desigualdades regionais talvez inexistentes em qualquer outro país do mundo. É inegável que melhoramos muito em várias métricas importantes. Entretanto, é inegável também que plantamos sementes ruins no passado e estamos colhendo resultados muito ruins quando o assunto é violência, educação e relações humanas disfuncionais. O que me assusta é que parece que não só continuamos a plantar sementes ruins, mas como em certos aspectos estamos nos esforçando para escolher sementes ainda piores. A continuar nessa toada, talvez seja realmente muito difícil nos tornarmos uma sociedade mais equilibrada e boa para se viver.

Tolaga Bay - East Cape. Lugar maneiro, uma das estradas mais bonitas que já peguei (250km margeando a costa)
 Raglan! Paraíso do Surf na Nova Zelandia. Altas ondas de Point Break e o lugar ainda é magnificamente bonito. Se um dia eu escrever um livro, voltarei a Raglan para morar alguns meses. Imagem feita de onde eu fiquei (um albergue maneríssimo, com wi-fi liberado, coisa rara na NZ)
Na minha última trilha na NZ (talvez tenha andado uns 250km) fui presenteado com uma sucessão de arco-íris surreal. 

 A tarde no mesmo dia ainda peguei altas ondas (pequenas, mas perfeitas) na surf city de Whanganmata. Sim, fui surpreendido mais uma vez com um belíssimo arco-íris - além da praia ser belíssima. Remar para o line up com um arco-íris duplo não tem preço.
 Fiji Time! Meus limites no Surf serão testados ao extremo nas famosas, e imperdoáveis, esquerdas perfeitas de Cloudbreak e Frigate Pass.
Que lugar lindo, um dos mais bonitos que já estive. Todos os dias o sunset é inesquecível


    Grande abraço a todos!
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quarta-feira, 3 de junho de 2015

O DINHEIRO PODE APRISIONAR?

38 comentários : Postado por soulsurfer às 13:54 Marcadores: Dinheiro , Reflexões
   Olá, colegas! Vixe, tanta coisa para escrever que realmente não sei sobre o que será esse artigo. Iria escrever sobre a trilha mais fenomenal que já fiz na vida, mas lembro que já se foram mais de 10 dias desde então, e tanta coisa maneira aconteceu. Nos últimos dias, fiquei sem qualquer contato com o mundo, e foi muito bacana. Estou escrevendo de dentro da Campervan numa noite chuvosa, pois dei sorte de estar num camper park  do lado de uma biblioteca pública. Aqui em Aotearoa é muito comum as cidades terem acesso de wi-fi gratuito nas bibliotecas. Aliás, é impressionante, pois cidades muito pequenas com 2 ou 3 mil habitantes possuem bibliotecas públicas muito bem estruturadas. A biblioteca da capital do país é fantástica, parece um shopping com vários andares e inúmeras opções de livros, Dvds, teatro, etc. Infelizmente, no nosso país as bibliotecas não são tão espalhadas e incentivadas. O que é uma pena e mostra um pouco da nossa falta de desenvolvimento humano. Porém, não irei escrever sobre diferenças entre países nesse artigo.

Soulsurfer e companheira flutuando na Cathedral Cove

   Ao terminar o primeiro parágrafo, veio à minha cabeça um tema interessante. Na minha última postagem, o colega Corey falou algo que parece muito natural e tido como verdadeiro por quase todos: quando se tem um certo patrimônio, há uma preocupação maior em mantê-lo. Afinal, essa é uma atitude correta? À primeira vista, parece evidente que a preocupação de se manter um capital acumulado prévio é maior de quem mais tem poupança acumulada, do que alguém que não tem. Ora, se uma pessoa deu duro por diversos anos e hoje tem um certo patrimônio, é claro que essa pessoa irá querer ao menos manter o poder de compra do seu patrimônio. Eu concordo, mas aqui quero falar de uma outra faceta do dinheiro que não é muito comentada: a possibilidade do dinheiro nos tirar a liberdade.

  "Como assim Soul?" alguém pode ter pensando. O dinheiro não serve exatamente para nos fornecer liberdade? Não é por isso que as pessoas acalentam o sonho de ser independente financeiramente?  Sim, o dinheiro pode nos oferecer mais liberdade, principalmente em relação a atividades ou situações  com as quais não gostamos.  Porém, o dinheiro pode ter o efeito oposto, fazendo com que nossa liberdade seja diminuída e nossos relações humanas pioradas. Explico-me.

  Eu gosto muito de filmes, e qualquer dia desses pretendo escrever sobre filmes que acho interessantes. Um deles é "Into The Wild" (Na Natureza Selvagem). O filme é sensacional por vários motivos, sendo a trilha sonora um dos principais deles, mas aqui atenho-me apenas a um aspecto do mesmo. O protagonista é um jovem recém-formado. Ele resolve, sem avisar a ninguém, doar todo o seu dinheiro (uns vinte e pouco mil dólares) doar para uma organização humanitária chamada Oxfam e viajar a América com o seu carro velho (a cena dele recusando um carro novo oferecido pelos seus pais e dizendo que eles só se importavam com "things, things, things" é muito boa também). Numa certa parte do filme, o protagonista resolve queimar o pouco dinheiro que ele possuía e resolve viajar pedindo carona e realizando trabalhos nos lugares por onde passa.  Numa outra cena bem bacana, inclusive com uma citação extraordinária de Thoreau, o jovem responde a um casal de "Hippies" (não gosto muito dessa forma de categorizar as pessoas) que queimou o dinheiro, pois o mesmo torna as pessoas mais cautelosas, e, via de consequência, as relações humanas mais pobres.

  Isso é uma afirmação forte e com uma grande dose, em minha opinião, de verdade. Num exemplo extremo, temos alguém com muito dinheiro mesmo que não sabe se as relações de amizade e amor são verdadeiras ou não. Como a pessoa não pode saber, talvez a forma de interagir com outros seres humanos não possa atingir a sua completude. Recentemente, li um artigo no blog pequeno investidor de uma carta de uma jovem recém-milionária queixando-se expressamente desse fato. No caso de uma pessoa com centenas de milhões de reais isso é fácil de perceber, ou de se refletir a respeito. Porém, no caso de pessoas mais comuns, será que é tão nítida essa faceta do dinheiro?

  Ao encontrar tantas pessoas diferentes nessa viagem, eu me peguei refletindo algumas vezes sobre esse aspecto do dinheiro. Eu encontrei os americanos que compartilharam a minha experiência com Bungy 40 dias depois numa cidade que é o paraíso para quem pega onda. Dessa vez, o encontro não foi tão fugaz e passamos vários dias juntos fazendo diversas coisas (pegar onda numa praia deserta e selvagem, depois  da sessão de surf ir nadando até pedras com milhares de mariscos e cozinhar a comida na praia mesmo, foi uma dentre várias experiências fantásticas). Um deles, o Nick, tinha uma passagem comprada para FIJI e não tinha dinheiro para sair do país. Ele iria tentar achar emprego num barco para poder viajar de FIJI para Austrália, trocando o trabalho por hospedagem e comida no barco. Mesmo sem ter dinheiro, ou não tanto dinheiro para os padrões de um americano (não, eu não esqueci que metade da população humana vive com menos de dois dólares por um dia, sempre reflito sobre isso quando penso que alguma coisa está "difícil" na minha vida), é inegável que ele está gozando de uma grande liberdade, não está deixando que eventuais temores o afaste de buscar aquilo que o possa fazer mais satisfeito com a sua vida. Nós conversamos bastante sobre isso. Ele poderia facilmente ter seguido a vida de uma maneira mais tradicional, poderia estar agora com mais bens, mas se assim o fosse ele provavelmente estaria muito mais cauteloso e com medo de perseguir os seus reais objetivos.

Nick pegando nossa comida depois de uma sessão de surfe numa praia irada, selvagem e deserta. Não há almoço grátis mesmo? :P Experiência fantástica que irei lembrar por muitos e muitos anos.

  Olhe a sua volta, e principalmente para si mesmo, e reflita se o dinheiro não pode muitas vezes ser um empecilho. Quanto mais a pessoa vai possuindo, parece que com mais medo vai ficando de tomar algumas decisões. Sempre haverá algum motivo relacionado à alguma situação material (imóvel, emprego, estabilidade, etc) para muitas vezes justificar a não realização de algum ato ou atividade nova que pode trazer riscos para a manutenção da situação atual, mas que pode ter um significado humano muito grande para a pessoa.

  "Ok, Soul, estou indo no banco tirar o meu dinheiro e a fogueira vai ser grande lá em casa!" :) Colegas, antes de fazer fogueira com o dinheiro, seria melhor, como o protagonista do filme, fazer uma doação para uma organização como o Médico Sem Fronteiras.  Soul, quero manter o que eu arduamente conquistei. Eu também, colega. Não há nenhum mal nisso, pelo contrário, pois o dinheiro por outro lado pode sim nos trazer muita liberdade. O que talvez precisamos, e como o meu Pai sempre tentou me passar quando criança e adolescente, é ter uma relação saudável com o patrimônio acumulado. Não podemos deixar (em certa medida infelizmente isso é inevitável) que o dinheiro nos deixe cautelosos demais a ponto de desistirmos de alguns objetivos, pois o receio de alguma perda patrimonial possa estar presente. Acima de tudo, não podemos deixar que o dinheiro enfraqueça nossas relações humanas. Eu cada vez mais me convenço, na verdade já estou convencido, que a nossa satisfação enquanto ser humano é mais facilmente atingida quando compartilhamos com outros seres humanos momentos, experiências e porque não coisas materiais. Aliás, essa é a conclusão que o protagonista do filme "Into The Wild" chega ao final do filme ao refletir sobre a vida num abrigo isolado no Alasca: a vida e a felicidade só valem a pena quando compartilhadas. Infelizmente, ele descobriu isso tarde demais, mas não deixa de ser uma mensagem bonita. Eu concordo plenamente. Quando compartilhamos com outros seres humanos (e essa é uma das razões de eu continuar escrevendo nesse blog, mesmo com eventuais contratempos), nossa vida fica mais colorida e significativa.

  Assim, caros leitores e colegas, abortem a fogueira, mas não deixe que o dinheiro se transforme de um instrumento em uma espécie de prisão.

  Não resisti e resolvi colocar algumas imagens da sensacional trilha Tongariro Alpine Crossing. Provavelmente, escreverei um artigo apenas sobre esse dia especial. Demos muita sorte, pois além de ser um dia lindíssimo, ter pouquíssimas pessoas na trilha de quase 20Km, ainda compartilhamos essa experiência com diversas pessoas interessantes no decorrer da trilha. Para quem gosta do filme, esse foi o local onde as cenas de Mordor foram filmadas no antológico Senhor dos Anéis. Fazer essa trilha em Mordor foi outra experiência sensacional.

 Lago azul cristalino, vulcão, geiser....
Beleza extraordinária, ao fundo o Mount Doom residência de Sauron (é um vulcão bem ativo)
 A aridez de Mordor (Tongariro Alpine Crossing)
 Já andei muito por esse mundão. Adoro fazer trilhas puxadas de um ou vários dias. Ver uma paisagem como essa com uma simples "olhada" é algo que nunca vi no mundo. Gelo, deserto, vulcões, montanhas com pico nevado, lagoas verdes, azuis, cratera vermelha de um vulcão colapsado, gêiser, zona ativa de vulcões, e ainda por cima é Mordor....Difícil bater essa trilha como melhor day hike do mundo.
 Soulsurfer contemplando a beleza das lagoas esmeraldas com um gêiser ao fundo.


Grande abraço a todos!


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