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terça-feira, 29 de setembro de 2015
INDEPENDÊNCIA FINANCEIRA
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Postado por
soulsurfer
às
19:01
Marcadores:
Finanças Pessoais
,
Independência Financeira
Olá, colegas! Os últimos oito dias no deserto foram simplesmente sensacionais. Aconteceu tanta coisa boa que poderia escrever páginas e páginas de reflexões ou simplesmente narrar as diversas experiências. Porém, ao acessar o blog vi que a marca de 200 mil visualizações tinha sido ultrapassada, e não posso deixar de dizer que fiquei feliz. Primeiramente, porque nunca imaginei que um blog feito sem quase nenhum cuidado na parte estética e sem funcionalidades básicas (eu até hoje não sei se o feed de recebimento de mensagens no e-mail do blog funciona ou não) poderia ter essa quantidade de acessos em um ano e meio.
Ah, o Deserto Australiano (Outback). Memorável, é o que eu posso dizer em apenas uma palavra. O bom de ter uma casa dessas, é que você pode levá-la para lugares espetaculares.
Além do mais, os temas aqui são demais diversificados e o foco de quase todos, no que se convencionou chamar de blogosfera financeira, quase sempre é voltado para análises de ativos financeiros (há diversos blogs nessa direção) ou temais mais básicos da vida como ter ou não carro, aparência, a necessidade de se possuir planos e metas, etc (há alguns blogs nessa direção). O blog pensamentos financeiros não se enquadra em nenhuma categoria dessas, e já houve diversos comentários negativos a respeito disso. A minha última postagem sobre a Tasmânia , por exemplo, para mim foi muito bacana de escrever, e talvez atraísse mais atenção se fosse escrito num blog voltado apenas a viagens, já que não é do interesse da maioria das pessoas que querem ler sobre finanças apenas. Artigos sobre a incompreensão dos direitos humanos (a incompreensão dos direitos humanos), o lado mais sombrio do ato de se rotular (a racionalidade do ato de rotular e o seu lado mais sombrio, o conceito de que não temos mérito nenhum do mundo que herdamos (herança e a incongruência de alguns argumentos), entre outros artigos dificilmente são enquadráveis na categoria “finanças”, o que com certeza contribuiu para que não haja tanta atenção para este espaço.
Não posso negar também que muitos artigos meus são às vezes longos para o que as pessoas estão cada vez mais se acostumando a ler. Infelizmente ou não, as pessoas estão impacientes e clamam por sínteses ou textos fáceis. A revista Veja é um exemplo claro disso. Cito esse periódico, pois ele é o mais famoso do Brasil. A revista em muito se parece com um lanche do MC Donalds, visualmente pode chamar atenção, mas o valor nutricional é quase nenhum. A revista é feita para ser lida em uma hora. Há fotos, gráficos coloridos, fofocas, alguns artigos sobre assuntos sérios escritos num português básico para que seja rapidamente compreendido sem muito esforço. Não há nada de errado com essa postura editorial, desde que os leitores tenham claro que a leitura é um passatempo, é um arremedo de leitura da realidade. Antes que alguém queira adicionar alguma conotação política a essa simples observação, digo que a revista que mais gosto de ler, quando tenho algum exemplar disponível, é a “The Economist”, considerada como uma revista conservadora. Você não lê uma “The Economist” em uma hora, e os textos são muito bem escritos, abordando diversos temas (para se ter ideia foi num artigo da revista que pela primeira vez soube da existência do grupo extremista Boko Haram, isso alguns anos antes de haver qualquer matéria no Brasil a respeito). Por fim, escrever textos mais longos e densos como alguns meus, a toda evidência não quer dizer que são textos bons ou bem escritos. Apenas pontuo que a realidade costuma ser muito mais sutil e complexa do que alguns textos de alguns parágrafos com muita exclamação e lugares-comuns parecem transparecer.
Por fim, sempre parti da premissa que ideias não devem ser respeitadas. Ideias servem para ser testadas, contrastadas e aceitas ou rejeitadas depois de passadas pelo crivo rigoroso do debate e da análise. Não se deve respeitar ideias, mas sim pessoas, e infelizmente no Brasil atual não se respeitam nem ideias (aliás é difícil ter um debate genuíno de ideias), nem pessoas. Logo, esse estilo de texto não agrada algumas pessoas que por ventura se sentem ofendidas, o que também afasta a popularidade desse blog. Porém, mesmo com todas essas características, considero o número de acessos muito bom mesmo. Agradeço a todos que já manifestaram por aqui palavras de incentivo e críticas construtivas. Obrigado, o que mais me incentiva a continuar escrevendo é contato mesmo que virtual com pessoas, isso para mim é muito bom, pois uma viagem de longo prazo, apesar disso já ser bem claro para mim há bastante tempo, mostra como é importante se ter amigos e relações humanas saudáveis.
Assim, resolvi escrever sobre o tema que domina o sonho de 10 entre 10 investidores amadores, o nirvana das finanças pessoais, é claro que só pode ser INDEPENDÊNCIA FINANCEIRA. O que é ser independente financeiramente? Quanto é necessário? São perguntas que qualquer investidor amador já se fez e nesse texto procuro dar a minha opinião singela sobre esse tema.
Primeiramente, deve-se conceituar de uma maneira um pouco menos subjetiva o que é ser independente financeiramente. Alguns conceitos já foram abordados diversas vezes nesse blog, porém, apesar de auto-evidentes, é sempre bom relembrá-los. Um indivíduo pode ter renda proveniente do seu trabalho (o que é a tônica para a esmagadora maioria da espécie humana) ou renda proveniente de algum capital acumulado (imóveis, renda fixa, ações, negócios próprios, etc), também denominada por alguns escritores renda passiva. É de se esclarecer que um negócio próprio é capital acumulado. “Soul, não me parece ser renda passiva de um pequeno empreendedor que trabalha bastante para manter a empresa funcionando”, alguém pode pensar. É verdade, mas isso é porque o capitalista, ou seja dono do capital, também exerce funções de gerência. O que é possuir uma ação de uma empresa listada em bolsa se não ser capitalista e deixar a administração por conta de terceiros? Um pequeno empreendedor poderia deixar a administração para terceiros, e ter a renda passiva do negócio que é dono. Não entro no mérito se é factível ou não para a maioria dos negócios, apenas digo que é possível. Assim, pequenos empreendedores realmente parecem estar no limite entre renda passiva e ativa.
Assim, se conceitua independência financeira quando alguém possui renda passiva, ou seja renda proveniente do capital previamente acumulado, suficiente para manter o padrão de vida desejado. A última oração revela que é impossível se chegar a um valor preciso para a independência financeira, pois cada pessoa obviamente poderá ter uma definição própria do que seja “um padrão de vida desejado”. O sujeito A pode acreditar que precisa de R$ 20.000,00 mensais para ter uma vida boa, enquanto o sujeito B pode pensar que com R$ 5.000,00 mensais é possível viver-se bem. Teoricamente, os sujeitos A e B podem ser independentes financeiramente com a mesma quantia de capital acumulado. Como? Basta que os rendimentos totais no primeiro caso sejam quatro vezes maiores do que no segundo caso. É possível na teoria, mas muito difícil na prática, e aqui posso começar a falar um pouco sobre um conceito essencial para mim não só em finanças, mas principalmente em finanças: Margem de Segurança.
Todos os conceitos tratados até aqui são intuitivos e do conhecimento da grande maioria que já gastou algum tempo pesquisando sobre independência financeira. Aqui, ao tratar de margem de segurança e sua relação com independência financeira, espero trazer uma perspectiva um pouco diferente do usual. O que é margem de segurança? Nada mais é do que uma “folga" em algum parâmetro para que não haja consequências negativas ou que ao menos elas sejam minimizadas. Exemplo? Vá a um supermercado e olhe a data de validade de algum produto. Ao passar a data de expiração do produto, isso não quer dizer que o alimento não pode mais ser consumido. Uma vez um Engenheiro que trabalhava numa empresa de consultoria de estratégia que tinha a missão de otimizar alguns aspectos da logística da gigante Walt Mart me disse que se pode consumir os alimentos dias depois da data de expiração (claro que vai variar a quantidade de dias de alimento para alimento). A razão disso é que as empresas preferem colocar uma data de expiração do alimento muito antes da real data em que o alimento se tornaria impróprio para consumo, para que não haja muito espaço para qualquer responsabilização legal da companhia. Isso nada mais é do que margem de segurança. Há uma “folga" no parâmetro data de expiração do alimento, pois, e isso nada mais é do que estatística, sempre haverá um alimento que estragará antes da média. Logo, se a data de expiração é colocada com bastante folga, a empresa quase que elimina qualquer risco do alimento estragar antes do prazo de validade que se encontra na embalagem.
Quando comecei a refletir mais profundamente sobre margem de segurança, eu percebi que é um conceito que eu uso em quase tudo. Assim, se vou passar um Road Train na Austrália (caminhões que possuem mais de 50 metros de comprimento), eu utilizo uma grande margem de segurança, ou seja, precisa haver muito espaço para eu realizar a ultrapassagem, se não houver eu simplesmente fico atrás do caminhão, mesmo que haja espaço suficiente para a manobra. Poderia dar inúmeros exemplos, mas acho que o conceito ficou claro. Quanto maior a margem de segurança, menor o risco que algum evento negativo aconteça, quanto menor a margem de segurança mais arriscado se torna a materialização de algum evento negativo.
Obviamente, todos nós em certa medida pensamos em margem de segurança, mesmo que não reflitamos de maneira específica sobre esse fato. O mesmo se dava comigo com certeza. Porém, ao ler um livro de investimentos considerado clássico nos dias de hoje chamado “Margin of Safety” de um autor chamado Seth Klarman, um novo insight surgiu na minha cabeça. O livro é simples, mas não sei se existe tradução para o português. A partir da leitura desse livro eu comecei a pensar mais profundamente sobre o conceito e como eu poderia usá-lo em minha vida de maneira apropriada. Como eu estava lendo muito sobre investimentos na época, tentei aplicar o conceito ao mercado acionário. Não deu certo, pois primeiro o mercado acionário é muito mais complexo do que alguns inputs de alguma fórmula de valuation. Hoje carrego posições acionárias com perdas na ordem de -50% ou até mais (ETER, EZTEC e STBP). Porém, e isso também é uma forma de pensar sobre margem de segurança, comprometi uma parte muito pequena do meu capital nessa forma de investir. Hoje talvez se computar o valor de mercado atual da minha posição acionária, dividendos recebidos, lucros com venda de alguns papéis, talvez o impacto no meu patrimônio total seja menor do que -1%.
Belo livro sobre investimento e modelo mental de como se deve encarar os desafios financeiros. Recomento a leitura.
Se no mercado acionário (e digo que nunca procurei me aprofundar mais, talvez seja possível usar o conceito de margem de segurança no mercado acionário de maneira satisfatória, algo que remete a discussão se é possível a gestão ativa ser mais eficiente do que uma estratégia passiva), na atuação de compra e venda de imóveis o conceito foi de absoluta extrema valia. Não existe nenhuma posição imobiliária minha, algo que eu entendo muito mais do que mercado acionário (por isso uma parcela muito significativa do meu patrimônio está alocada em operações desse tipo), onde o conceito de margem de segurança não venha em primeiro lugar. É por isso que com crise ou sem crise, é improvável eu ter resultados nominais negativos. Na bem da verdade, posições minhas estão prestes a ser desfeitas, pois tenho recebido propostas razoáveis de compra, o que eu pensei que seria bem difícil num cenário de tanto pessimismo e dificuldades política-econômicas. Talvez, com medo as pessoas optem a compra de imóveis. Espero que assim seja, pois se o for, e a crise for de média duração, haverá muito espaço para realizar operações de pequena complexidade e talvez com margens potenciais de lucro bem grandes. É por causa do conceito de margem de segurança, que eu já deixei passar inúmeras “oportunidades”. Se eu não me sinto confortável com a margem do negócio, eu simplesmente passo para outro e ponto final. Talvez, fosse uma oportunidade mesmo, mas se na época eu achei que não atendida requisitos seguros de margem, eu simplesmente mantenho-me afastado.
Por qual motivo toda essa conversa sobre margem de segurança e minhas aventuras financeiras num artigo sobre independência financeira? Caros leitores e amigos, assim o procedo, pois esse conceito é central para a independência financeira. A margem de segurança pode ser um ótimo modelo mental (ainda preciso escrever sobre os modelos mentais e a ótima abordagem de Charlie Munger sobre o tema - para quem não conhece sócio do Buffett) para evitarmos riscos e navegarmos mais tranquilos diante das vicissitudes da vida. Entretanto, ele pode ser um dificultador, algo que imobiliza as pessoas a irem para frente. Como? O motivo é simples. Quanto mais conservador você for em suas premissas, maior será a sua margem de segurança e por consequência menor será o seu risco. Assim, eu posso colocar uma margem de segurança enorme nas minhas operações imobiliárias. Porém, será que eu conseguirei entrar em algum negócio? Dependendo do tamanho da margem, será difícil, muito difícil.
Se pararmos para pensar, assumir riscos nada mais é do que diminuir a margem de segurança ou simplesmente ignorá-la. Qualquer grande analista do mercado financeiro, e eu acho o Damodaran um deles, admite que há limites para a modelagem de qualquer coisa e no final deve se aceitar que há certos parâmetros que fogem do controle. Aceitar isso liberta o investidor e não o deixa paralisado. Isso nada mais é do que o conceito budista de abrir mão da ilusão de controle sobre tudo. Há certas coisas que não estão no nosso controle, e se formos conservadores demais, talvez nunca faremos coisas memoráveis na vida.
Voltando ao exemplo inicial do exemplo dos sujeitos A e B. Se ambos tiverem o mesmo patrimônio, parece claro que a margem de segurança do sujeito que quer viver com R$ 20.000,00 mensais será muito menor do que a margem de segurança do sujeito B que se contenta com R$ 5.000,00. Ou o sujeito A aumenta o capital acumulado, ou ele diminui a sua necessidade de renda, sob pena de muito provavelmente fracassar no seu objetivo de viver de renda. Portanto, faz todo o sentido ter margem de segurança para viver de rendimentos. Assim, se pessoa tem um patrimônio de R$ 2.000.000,00 (dois milhões de reais), se a mesma se contentar com uma renda de R$100.000,00 anuais (5% aa) será muito mais seguro do que se ele quiser viver com R$ 200.000,00 anuais (10%). Óbvio. Sim, o é, porém refletir mais detidamente sobre obviedades pode nos revelar alguns segredos.
O que está em jogo, por que tantas pessoas querem independência financeira? Pense nisso por um momento, amigo leitor. Você quer viajar o mundo? Você quer ficar sentado vendo inúmeros filmes e lendo livros? Quer se dedicar a um trabalho voluntário? Não quer se submeter mais a empregos considerados “chatos" e opressivos? Sim, todos esses motivos são bons o bastante, mas por qual motivo você quer viajar o mundo ou ver filmes ou ajudar os outros? Não posso responder por outras pessoas, mas creio que o motivo principal é que as pessoas querem ser mais satisfeitas na vida e para isso elas precisam de tempo para realizar uma miríade de atividades que as deixem satisfeitas (chame de felicidade se quiser). Logo, o tempo é algo central na análise de independência financeira.
As pessoas não querem dinheiro necessariamente, o que eles querem é tempo livre para ir atrás de qual seja os seus sonhos e objetivos. “Porém, para ser livre das necessidades da vida, eu preciso de dinheiro, não é mesmo Soul?”. Para responder essa pergunta com mais detalhes, eu precisaria de um artigo em específico. Porém, vou partir da premissa mais fácil de que se precisa de uma quantidade pelo menos razoável de patrimônio acumulado.
Voltemos ao exemplo do sujeito que quer R$ 200.000,00 de renda anual com R$ 2.000.000,00 acumulados. Há inúmeros estudos estatísticos, feitos principalmente no mercado americano, sobre qual é a taxa segura de retirada para um portfólio. Houve uma semana no ano passado que eu li dezenas de estudos a respeito do tema, para tentar entender melhor o tema e ir mais a fundo do que simplesmente dizer aplique “a regra dos 4%” ou não aplique a regra. Até mesmo queria escrever uma série, fiz apenas o primeiro artigo e não continuei (Taxa Segura de Retirada - Primeira Parte) Como não tenho internet frequentemente no computador na viagem, não escreverei sobre temas muito técnicos, pois gosto de ler e conferir artigos antes de escrever algo. Apenas digo que uma taxa de retirada de 10%, mesmo num país com juros reais tão altos como o nosso (a propósito o Brasil foi o país que possibilitou a maior taxa de retirada sem extinguir o portfólio, há uma breve menção ao nosso país num artigo sobre taxa de retirada em países emergentes), não é segura. Não há margem de segurança alguma e é provável que depois de 20-25 anos o patrimônio esteja à beira da extinção.
Por que não, então colocar uma taxa bem conservadora (no Japão a Safemax foi de pouco mais de 1%), e não correr nenhum risco? Isso é possível. Porém, uma taxa de retirada de 1% para uma renda anual de R$200.000,000, significa um patrimônio de R$20.000.000,00. Você pode acumular todo esse dinheiro? É possível, mas tenha certeza que isso custará, se você não for recebedor de uma grande herança, muito do seu tempo. Assim, você está trocando segurança de sobrevivência do seu portfólio, da sua independência financeira, por tempo livre de sua vida. Simples assim. Mas, se o seu objetivo em ser independente financeiramente é ter mais tempo livre de qualidade, faz sentido trocar tempo por segurança nesse grau? Na minha opinião, não. O que fazer, então?
Num dos últimos artigos que escrevi sobre liberdade, tributos, eu expressei minha opinião, que possui raízes biológicas (ou seja é muito mais forte que qualquer argumento baseado apenas em ideologia seja socialista, libertária, ou qualquer outro rótulo), de que quase todas as relações humanas não são lineares, logo elas são relações de equilíbrio. Buda percebeu isso, muitas pessoas percebem isso, e creio que eu aos poucos vou percebendo isso. Logo, a relação entre segurança, risco, tempo deve ser balanceada. Vale a pena trocar a sua juventude e idade madura em busca de uma segurança financeira muito grande apenas na velhice? Na minha opinião, não. Vale a pena não dedicar nenhum tempo de sua juventude e vida madura para ter segurança financeira na velhice? Também, não. Percebam, colegas, é uma relação de equilíbrio. Assim, a questão não é ter Estado ou não. Tributos ou não. Liberdade ou não. A melhor resposta sempre será uma dosagem entre os variados extremos.
Muitos colegas, ou até algumas pessoas de forma anônima normalmente num tom agressivo , perguntam como alcancei a independência financeira. Foi assim do dia para noite? Foi recebimento de herança? Colegas, obviamente houve acúmulo de capital desde a adolescência. Houve aportes consideráveis durante dez anos. Houve uma grande taxa de poupança em relação aos meus rendimentos Houve uma grande rentabilidade devido às minhas operações com imóveis em leilão. Porém, e talvez seja tão importante quanto as outras atitudes delineadas, houve uma grande mudança no meu estado mental em relação a isso. Eu sempre fui muito conservador em matéria de dinheiro. Minha família também . Logo, a simples menção da ideia de abandonar um cargo de elite externamente bem remunerado com estabilidade, fez os meus pais, e alguns conhecidos, simplesmente pensarem que eu estava louco (hoje em dia eles me entendem melhor, principalmente vendo como estou feliz, e como algumas operações imobiliárias minhas, apesar do pessimismo e da desconfiança, estão dando certo).
Talvez esteja, mas vejam, para mim ficou claro (e o amigo Viver de Renda alertou-me num e-mail pessoal) que eu poderia estar trocando tempo de qualidade por mais segurança no futuro. Claro, precisamos de segurança, mas qual é o grau que precisamos ter? Eu não me sentiria confortável sem ter um plano e um bom capital acumulado, como algumas pessoas podem-se sentir (essa semana li diversos artigos de um sujeito que tem um blog chamado Holidaze - http://blog.theholidaze.com - , largou o emprego com 24 anos e está há seis anos viajando o mundo vivendo do seu blog e de alguns trabalhos freelance), mas preciso de tanta segurança assim? Preciso de uma taxa de retirada de 1.0% para ai sim achar que posso dedicar meu valioso tempo para coisas que me agradem?
Além do mais, será que preciso de tanta renda para ser satisfeito? Dos últimos seis meses da minha vida, em cinco deles a minha casa foi uma campervan pequena. Minha geladeira, minhas roupas, minha cama, tudo estava nesse pequeno carro. Rodei, essa parte da viagem chega ao fim em dois dias, 27 mil quilômetros, e nunca me senti tão vivo na vida. Tive experiências que nem com muito dinheiro se pode ter, como jantar a luz do luar tomando um vinho no meio do deserto com um céu estrelado, dormir num parque nacional onde uma das montanhas mais impressionantes que eu já vi de dia ficou iluminada com as estrelas de noite, tal a quantidade absurda de estrelas no firmamento ou ficar na casa de uma família australiana sensacional, pois conheci um coroa de meia idade surfando na poderosa onda de CloudBreak em Fiji. Essas não correspondem nem a 5% das histórias que tenho acumulado desde o início da viagem, e se for pensar em todas as minhas viagens então. Não, definitivamente, não se precisa de muito. Mas, precisa-se de dinheiro para fazer o que eu fiz, afinal nada é de graça, apenas amigos, o ar , a felicidade entre outras coisas, mas muitas outras é preciso pagar, apesar que as melhores experiências geralmente não envolvem o dispêndio de muito dinheiro ou de qualquer dinheiro. Assim, a sabedoria, mesmo financeira, está em achar um ponto de equilíbrio.
Aos poucos fui me dando conta dessa realidade, e pensei comigo mesmo “Ei, eu já sou independente financeiramente, posso não poder viajar de cinco estrelas durante 4 anos pelo mundo, afinal esse jeito de viajar é o mais tedioso, sem graça e mais caro, mas posso viajar por 4 anos do jeito que mais gosto de fazer”. “Posso, quando no Brasil, não ter um iate, uma ferrari e uma cobertura na zona Sul do Rio, mas quem disse que preciso de um carro de luxo, de uma cobertura ou um barco luxuoso?”. Equilíbrio.
Há hoje em dia em finanças ou até mesmo na filosofia (o site IMB é impregnado desse conceito), uma tendência de não se discutir felicidade, ou uma boa vida. Isso nem sempre foi assim e com certeza não é assim para inúmeras sociedades no mundo. Nos primórdios da filosofia ocidental, o trio maravilha (Sócrates, Platão e Aristóteles) discutiam à exaustão sobre bem-estar, bem como uma vida plena. Eu acho que deveríamos voltar a rediscutir isso em termos abstratos e filosóficos, bem como em termos práticos. Logo, eu não tenho o menor pejo em dizer que adquirir uma ferrari não trará nenhum grande bem-estar a você e provavelmente você trocará o seu bem mais preciso (tempo de vida com qualidade) por um objeto material que não te acrescentará muita coisa. Seus filhos não serão mais felizes por isso, você não será mais satisfeito, a sua mulher não gostará mais de você por causa da aquisição e nem mesmo mais amigos genuínos você terá. Isso para mim não é uma boa vida, e está longe de ser uma vida bem vivida e com significado.
Quer dizer que devemos forçar todo mundo a entrar num avião e ir viajar? Evidentemente que não, e muitos críticos do meu espaço não percebem isso nos meus textos. A maior libertação é o auto-conhecimento e como a palavra diz (bem como a linda música do Marley “EMACIPATE YOURSELVES FROM MENTAL SLAVERY, NONE BUT OURSELVES CAN FREE OUR MINDS"), isso precisa da participação ativa do indivíduo, ninguém pode obrigá-lo a nada, até porque seria uma violação indevida da sua liberdade individual. Entretanto, se você confunde sucesso humano com sucesso financeiro (o meu artigo a respeito está quase pronto), saiba que está trocando o seu tempo nessa terra por segurança ou por coisas materiais que não trarão nenhuma sensação muito grande de bem-estar subjetivo.
Marley, um dos grandes artistas do século passado. Suas letras inspiradas, seu estilo de música delicioso de se ouvir, é um bálsamo às vezes para os ouvidos e cérebro.
É o que eu tenho a oferecer sobre Independência Financeira. Acumular patrimônio é importante. Margem de Segurança é importante. Consumir é importante. Ser conservador é importante. Não desperdiçar o seu escasso tempo nessa terra é importante. Saber que não temos controle sobre muitas das variáveis é importante. Ser satisfeito, entenda ser feliz é importante. Reflita sobre isso, e ache o seu ponto de equilíbrio. Equilíbrio é a chave para bem viver nesse mundo, e talvez seja a chave para que a humanidade dê um passo a frente para um novo modo de encarar o meio ambiente e a realidade. É a chave também para a sua independência financeira.
Grande abraço a todos e mais uma vez agradeço a todos os leitores pelos acessos, e-mails, e comentários desse blog.
terça-feira, 28 de outubro de 2014
INVESTIMENTOS - A IMPORTÂNCIA DE SE TER UMA ESTRATÉGIA
26 comentários
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Postado por
soulsurfer
às
14:04
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Finanças Pessoais
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Independência Financeira
Olá, colegas! Não vou falar diretamente de eleições. Já há muita coisa na mídia e internet a respeito. Nesse artigo vou falar sobre estratégia e como é importante possuir uma quando falamos de finanças.
Afinal, o que é estratégia quando se fala em investimentos? Quando eu jogava xadrez era muito normal pensar em termo de estratégia. O jogo de xadrez é extremamente estratégico. A estratégia do ponto de vista financeiro pode ser vista como a forma em que uma pessoa pretende atingir os seus objetivos financeiros. A primeira lição é que não existe estratégia se não existir objetivos. Estes objetivos podem ser de curto, médio ou longo prazo. Como assim, Soul? No xadrez é exatamente assim. Se um jogador quer fortalecer sua posição no centro do tabuleiro (um objetivo de mais curto prazo), pode-se elaborar uma estratégia para atingir tal objetivo. O objetivo final do xadrez sempre será ganhar o jogo com o competidor abandonando (eu nunca dei um xeque-mate em competições oficiais, geralmente quando a partida está perdida, o jogador inferiorizado abandona a partida). Assim, um objetivo de curto prazo (conquistar o centro do tabuleiro) pode estar diretamente relacionado com o objetivo de longo prazo (ganhar o jogo).
Espero que não seja isso que venha na cabela do leitor quando falo de estratégia financeira e associo a xadrez:)
Sendo assim, a primeira coisa a se pensar em finanças pessoais é quais são os seus objetivos financeiros. O objetivo financeiro maior de longo prazo para alguém pode ser conquistar a independência financeira. Para outra pessoa pode ser deixar uma boa herança para os filhos. Para outra pessoa pode ser comprar uma casa em Miami. Somente a pessoa pode definir quais são os seus objetivos. Somente nos conhecendo e fazendo uma auto-reflexão pode-se chegar a objetivos que sejam coerentes com quem nós somos. Sendo assim, o primeiro passo para se pensar em finanças pessoais, por mais estranho que se pareça, não é saber o que é bolsa de valores, mas sim refletir sinceramente sobre quem somos e o que realmente queremos.
Portanto, os objetivos podem variar de pessoa para pessoa. Ter um objetivo maior de ser independente financeiramente é muito diferente do objetivo de deixar um bom patrimônio para os herdeiros. Nenhum é melhor ou pior do que o outro, eles são apenas diferentes. “Ok, Soul, entendido, mas qual é a relação com estratégia”, alguém pode estar pensando. Simples. Objetivos finais diferentes vão levar quase sempre a estratégias financeiras diferentes. Portanto, em finanças podemos ter alguns conceitos gerais, algumas práticas mais indicadas, mas é muito difícil dizer que uma estratégia é melhor ou pior do que outra sem sabermos quais são os objetivos perseguidos.
Assim, como saber se uma estratégia com 50% do patrimônio alocado em Fundos de Investimento Imobiliário é pior ou melhor do que outra estratégia onde a alocação é de apenas 20%? Não dá para saber, de antemão, sem primeiramente se indagar quais são os objetivos. Portanto, colegas, antes de começar a investir, defina com clareza quais são os seus objetivos. Se alguém puder ainda ser mais preciso em dividir os objetivos em curto, médio e longo prazo melhor ainda. Geralmente, muitos autores chamam esse ato de reflexão sobre os objetivos um dos momentos mais importantes, sendo que muitos deles dizem que é muito saudável fazer uma “Declaração Inicial de Investimento”, onde a pessoa diz claramente quais são os seus objetivos financeiros e como planeja alcançá-los.
Alcançar os objetivos financeiros nada mais é do que a estratégia financeira. Aqui sim é importante saber o que é bolsa de valores, o que é duration no mercado de renda fixa, o que é análise fundamentalista, quais são os parâmetros da análise gráfica, opção, derivativos, yields, imóveis, etc, etc. O mundo financeiro é vasto e às vezes complexo. Se um investidor pudesse saber com detalhes toda a complexidade do mundo de investimento, é inegável que o mesmo poderia estabelecer talvez estratégias que levassem de maneira mais fácil a atingir os objetivos financeiros. Porém, não é necessário ser um expert em finanças e tampouco conhecer todos os instrumentos financeiros para se criar uma estratégia que possa atingir os objetivos financeiros almejados.
Não vou falar como seria uma estratégia financeira, pois isso daria um livro e eu também não seria capaz de tamanha tarefa hercúlea. Porém, vou falar sobre as três etapas da estratégia (e isso pode ser aplicado não só em finanças, mas em várias outras áreas na nossa vida).
- A ELABORAÇÃO DA ESTRATÉGIA
O primeiro passo, obviamente, é a elaboração da estratégia. Se quero ser independente financeiramente aos 45 anos, o que eu vou fazer objetivamente para alcançar esse objetivo? Irei poupar 30% da minha renda e aportar apenas no mercado acionário e de fundos imobiliários? Ou será que é melhor poupar 40% da renda e dividir o aporte entre renda fixa e o mercado de renda variável? Faz sentido ter exposição internacional? Vou fazer balanceamento do meu portfólio, se sim com qual freqüência, semestral ou anual? Vou me manter fiel aos percentuais estabelecidos, ou tentarei fazer uma alocação de ativos mais agressiva, tentando fazer timing de acordo com filtros fundamentalistas ou de acordo com filtros de análise técnica? Qual é o prazo mínimo para repensar a estratégia? Dois ou cinco anos?
Assim, a elaboração da estratégia é vital e fundamental para que possamos atingir nossos objetivos financeiros. Ela não precisa ser estanque, ela não precisa ser complexa, mas ela deve ser clara, compreensível e principalmente factível. Assim, não adianta estabelecer metas que sejam praticamente inatingíveis, sob pena do planejamento da estratégia virar um exercício sem qualquer correspondência com a realidade.
IMPLANTAÇÃO DA ESTRATÉGIA
Pensada a estratégia, é hora de colocar em prática. Uma vez um pai de um amigo meu falou para ele o seguinte: “Ok, filho, você faz vários planos, analisa bastante, muito bacana, mas quando vai começar a colocar em prática?”. Eu imagino que um empreendedor sinta bastante esse problema da transição entre o planejamento e a colocação em prática de uma determinada ideia. Aliás, tenho certeza que deve ter dezenas de livros que abordem esse problema.
No mundo das finanças pessoas, colocar em prática é quando você vai assumir, caso não tenha optado por contratar um profissional para fazer por você, a responsabilidade pelos seus atos. É quando você vai apertar o botão de compra e venda dos ativos. A minha transição da elaboração da estratégia para a implementação não foi boa. Muito em parte talvez porque eu não tinha os meus objetivos financeiros tão claros, e nem uma estratégia muito clara pronta. Sendo assim, eu cometi erros. Ainda bem que não foram graves, pois eu sou muito conservador, eu tinha estudado razoavelmente bem antes de comprar ativos e não me expus de maneira demasiada em renda variável. Porém, foram erros, e eu sempre sou lembrado deles quando vejo alguns milhares de reais negativos em alguns ativos que possuo, não por causa de estarem negativos, mas sim porque hoje em dia eu não faria as mesmas escolhas de alguns meses atrás, por exemplo, (não, eu não sou experiente no mercado de renda variável, sempre estou aprendendo e cada vez mais vejo que eu sei muito pouco mesmo sobre finanças).
É um teste de fogo que todos que querem investir devem passar. Depois de implementada a estratégia, e todo esse meu texto foi para chegar nesse ponto, é hora talvez da fase mais difícil de ser seguida da estratégia: a sua manutenção.
- MANUTENÇÃO DA ESTRATÉGIA
Colegas, quando falo que cada vez fico mais humilde com os meus limites de entendimento do mercado, não estou sendo falso. É verdade. Cada vez mais eu percebo como é difícil entender o que pode acontecer no próximo ano, por exemplo. Também percebo como as análises de analistas famosos são extremamente rasas. Por exemplo, com a vitória de Dilma nas eleições, foi dito que os próximos dias seriam de desespero no mercado e no câmbio. Eu não via muito sentido para isso, mas vai saber o que poderia acontecer. Li inúmeras mensagens de pessoas em alguns espaços dizendo que iriam liquidar posições, pois era claro que os estrangeiros iriam debandar do Brasil. Ao menos nos dois primeiros dias após a eleição, nada disso aconteceu, simplesmente tudo ficou como antes.
O que quero enfatizar, colegas, não é esse caso específico, pois existirão vários outros nos próximos quinze anos. O que quero realmente enfatizar é que não dá para saber o que vai acontecer nos mercados no curto prazo, é muito difícil, quiçá impossível. Se formos mudar a nossa estratégia não pela mudança nos nossos objetivos, mas sim por contingências fora do nosso controle , é muito que vamos tomar decisões ruins, pois serão decisão feitas quase que às cegas. É como jogar xadrez e mudar de estratégia a cada jogada, é impossível ganhar de um jogador forte cometendo esse erro primário.
Portanto, e aqui entra um profundo auto-conhecimento e reconhecer a nossa ignorância em relação à complexidade do mundo financeiro (e a área de finanças comportamentais centra todas as suas baterias de estudo nesse estágio do processo), a manutenção da estratégia é vital para que possamos atingir nossos objetivos financeiros, para que não tomemos decisões por impulso e para que não erremos sem necessidade. Não há qualquer problema em errar. Não há qualquer problema em revisar a estratégia de forma racional e pausada de tempos em tempos. Porém, não há qualquer motivo para não se manter fiel a estratégia, principalmente levado pelo calor do momento e análises que podem ser extremamente incorretas e superficiais.
Uma estratégia financeira serve exatamente para isso, para que as pessoas não tomem decisões impensadas no longo do caminho. O mercado muitas vezes é cíclico. O mercado imobiliário, por exemplo, é claramente cíclico. O Boom não dura para sempre, nem a fase de depressão dura para sempre. Talvez pessoas muito bem preparadas, que se dediquem a estudar o mercado imobiliário com profundidade, talvez consigam acertar os momentos corretos para posicionamentos precisos no mercado, porém isso é para poucos e com certeza não é para a maioria. Assim como uma economia às vezes opera em ciclos. Se as estratégias forem sendo alteradas pelas notícias sombrias de depressões ou pelas notícias otimistas de boom, é provável que a pessoa tenha muita, mas muita dificuldade de atingir os seus objetivos.
No caso do nosso país, o Brasil não vai acabar. Pessoas precisarão comer, precisaram alugar lugares para ter suas padarias, fábricas, etc e empresas precisarão existir para produzir bens e serviços. Sempre foi assim na história da humanidade. O aluguel de imóveis, por exemplo, é tão antigo como a civilização humana. Assim como o mercado de dívida, eu num museu em Ancara (capital da Turquia) tive o prazer de ver um instrumento de débito naquelas placas de escrita cuneiforme dos sumérios de mais de mil anos antes de cristo. O conceito de ações remonta há mais de quinhentos anos, quando se criou, na Holanda, o conceito de que uma empresa possuída por várias pessoas poderia mitigar os riscos associados às grandes viagens lucrativas que navios europeus faziam para o extremo oriente (ideia que eu utilizo quando faço operações de alta monta).
Portanto, o mercado de dívidas, de imóveis e de empresas existem há muito tempo na humanidade. Já teve padrão ouro, guerras mundiais, descoberta da eletricidade, comunismo soviético, fim do comunismo soviético, etc, etc, e os humanos seguiram trocando bens, mercadorias e precisando se endividar, alugar espaços ou levantar capital para empreender. Logo, acredite, é muito mais fácil manter-se fiel a uma estratégia bem elaborada, do que tentar acertar quando será o colapso permanente de uma classe de ativos ou de um país.
Desde os Sumérios há milhares de anos os seres humanos já se endividavam, você realmente acha que isso vai mudar tão cedo ? (placa de escrita cuneiforme - não está relacionada com a placa de instrumento de dívida que vi na Turquia)
Planeje, implante e mantenha-se fiel à sua estratégia. Tenho certeza que a probabilidade colher bons frutos é muito grande.
Grande abraço a todos!
sábado, 6 de setembro de 2014
INDEPENDÊNCIA FINANCEIRA - TAXA SEGURA DE RETIRADA - PRIMEIRA PARTE
26 comentários
:
Postado por
soulsurfer
às
06:46
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Finanças Pessoais
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Independência Financeira
Olá, colegas! Hoje pretendo falar um pouco sobre Independência Financeira, sim o tema favorito de quase todos que se interessam mais por finanças pessoais. O objetivo é viver de renda, mas a pergunta que muitos fazem é quanto de patrimônio é necessário para se poder ter rendimentos passivos suficientes para se manter certo padrão de vida. Eu iria abordar alguns estudos técnicos feitos sobre qual seria uma taxa segura de retirada, mas eu preferi fazer um primeiro post explicativo.
Primeiramente, no que consistem esses estudos? Basicamente, são estudos que pegam os dados passados de rentabilidade das classes de ativos, simulam determinadas alocações para portfólios (as alocações representadas por fundos que de alguma maneira seguem algum índice), baseado nessas alocações e no ano da aposentadoria simulam diversas taxas de retirada do patrimônio e observam a taxa de sobrevivência do portfólio para variados horizontes de tempo, geralmente de 10 a 40 anos. Soul, ficou um pouco confuso, dê um exemplo. Imagine que um americano resolveu aposentar em 1973, tinha um portfólio de 50% Bonds (renda fixa) e 50% em ações (representado por algum índice) quais taxas de retirada anuais teriam sido seguras para não extinguir o portfólio no horizonte testado? Assim, os estudos testam diversas taxas, diversas configurações de portfólios, diversos horizontes e diversos anos de aposentadoria e tentam tirar alguma conclusão desses dados.
Os primeiros estudos americanos chegaram a uma taxa segura de retirada de 4% e é daí que vem a famosa “4% rule”. Há muitas críticas atualmente sobre essa “regra”, eu cito algumas: as taxas de retirada não consideram os custos de investimento, os estudos foram feitos única e exclusivamente com dados do mercado americano (o que poderia ocasionar o que se chama tecnicamente de survivorship bias, já que o mercado americano foi um ponto fora da curva no século XX) e os estudos não poderiam ser automaticamente aplicados em ambientes de baixos yields que vivemos atualmente. Todas essas críticas são interessantes e pretendo abordá-las no momento oportuno. Entretanto, eu gostaria desse primeiro artigo de discutir algumas questões prévias à análise dos estudos propriamente ditos, e alguns argumentos utilizados quando essa questão vem à tona.
ALGUMAS PREMISSAS BÁSICAS
Colegas, o que vou falar agora é óbvio e lógico, mas às vezes escapa a percepção de algumas pessoas. Em um artigo há uns meses atrás na parte dos comentários, eu disse para um Anônimo que a maior segurança que se pode ter é um alto patrimônio sendo remunerado a uma taxa “r” e uma taxa de retirada desse patrimônio pequena. O anônimo talvez não tenha entendido e fez pouco caso, porém em patrimônios de retirada nós temos quatro variáveis, duas correlacionadas positivamente e duas correlacionadas negativamente, importantes que vão ditar o sucesso ou não da sobrevivência do portfólio: tamanho do patrimônio, retirada do patrimônio, rentabilidade desse patrimônio e horizonte de tempo.
Quanto maior o seu patrimônio, maior é a chance de sobrevivência do mesmo no decorrer dos anos. Quanto maior a sua rentabilidade maior a chance de não extinguir o portfólio. Quanto maior o horizonte de tempo que a pessoa quer fazer retiradas menores é a chance de sucesso e quanto maior a taxa de retirada desse patrimônio menor é a chance do mesmo não ser exaurido.
Dessas quatro variáveis nós temos duas sobre relativo controle, uma que o nosso controle é parcial e uma sem qualquer tipo de controle. Nós podemos definir qual é o patrimônio que julgamos suficiente para fazer a transição para uma vida de renda passiva e qual é o montante que desejamos retirar todo o ano. Nós podemos fazer uma projeção de quantos anos esse patrimônio terá que durar, mas sem termos uma precisão absoluta. Porém, nós não temos controle sobre a rentabilidade do nosso patrimônio, o máximo que se pode fazer é esperar um determinado nível de rentabilidade para um determinado nível de exposição de risco e de alocação de ativos.
Portanto, o fator patrimônio é fundamental quando se pensa em viver de renda. Eu ainda diria que o fator taxa de retirada é tão ou mais essencial. Uma pessoa que possui 3M e quer viver confortavelmente com 25k por mês, o que ocasionaria uma taxa de retirada de 10% aa, possui uma estratégia muito mais arriscada do que uma pessoa que possui 2M e quer viver com 10k por mês, o que redunda em uma taxa de retirada de 6% (ambas as taxas de retirada são arriscadas para horizontes maiores de tempo). Portanto, a mensagem que com uma vida mais simples e frugal o objetivo da independência financeira é bem mais fácil é absolutamente correta. Da mesma forma que se a pessoa for feliz no trabalho e quiser adiar o momento da passagem para uma vida aonde os rendimentos vêm de forma passiva a chance de sucesso de sobrevivência do patrimônio é muito maior.
Sim, é tudo muito intuitivo e lógico, mas é sempre bom termos as premissas bem claras para que possamos entender os estudos estatísticos, bem como para que possamos nos planejar corretamente.
ALGUMAS OBJEÇÕES PRÉVIAS
Sabedor de algumas indagações que comumente são feitas quando esse tema é explorado em algum lugar, resolvi adiantar e falar o que penso sobre elas.
A) ESSES ESTUDOS SÃO PERDA DE TEMPO, NÃO ACREDITO NELES
Colegas, aqui eu acho que há um grande mal-entendido. Estudos de qualquer coisa com resultados imprevisíveis, como é o caso de uma taxa de retirada de um patrimônio que está sujeito a inúmeras flutuações e acontecimentos incertos, nunca vão proporcionar uma “verdade” como um teorema matemático ou alguma demonstração de um evento físico. Isso é patente. Logo, não se pode pegar nenhum estudo feito no campo das finanças e aplicá-lo ou segui-lo cegamente, sem qualquer juízo crítico. Os estudos servem apenas como guias, como um ponto de partida de um planejamento, como uma forma a mais de se tentar se posicionar.
Sob essa perspectiva para mim eles são muito bons. Simplesmente ignorá-los, sem ao menos conhecê-los, é uma atitude não muito sábia em minha opinião. Criticá-los sem tê-los lido, aí realmente já é um erro, pois na minha concepção de ver o mundo só podemos nos posicionar de maneira crítica de forma séria quando conhecemos aquilo que estamos criticando.
Portanto, os estudos não são para ser levados como guia definitivo para a questão, nem mesmo eles representam a miríade de situações possíveis que cada pessoa pode ter, até porque eles são estudos estatísticos, mas eles são sim importantes para que possamos ter algumas idéias mais claras sobre um tema que é importantíssimo, pois ele ultrapassa a simples independência financeira, ele é vital para os sistemas de previdência do mundo inteiro.
B) EU SIGO A FÓRMULA “POPULARIZADA” DE QUE EM FASE PREVIDENCIÁRIA MEU PORTFÓLIO TEM QUE RENDER DUAS VEZES OS MEUS GASTOS OU A ÚNICA TAXA SEGURA É AQUELA EM QUE A TAXA DE RETIRADA EQUIVALE AO FLUXO REAL PRODUZIDO PELO PATRIMÔNIO
Colegas, já vi em vários lugares se popularizar a ideia de que a pessoa só pode retirar metade do fluxo gerado pelo seu patrimônio. Vejo muitas pessoas abraçando essa ideia e ao mesmo tempo ignorando os estudos estatísticos. O que não se percebe é que ao se dizer que só se pode gastar metade do seu fluxo, na verdade está se criando uma mesma regra como o “4% rule”, mas sem qualquer base empírica para pronunciar a dita “regra”. Ora, isso é apenas um método ruim, nada mais do que isso. E se eu achar que essa “regra” é muito arriscada e colocar que apenas quando o meu patrimônio produzir três vezes os meus gastos eu posso viver de renda passiva, o que acontece? Se a rentabilidade nominal de um portfólio no ano for de 10%, e a pessoa tiver uma despesa anual de 100k, o patrimônio teria que ser de 2M (5% de taxa de retirada) ou de 3M (3,3% de taxa de retirada). Percebe-se que o patrimônio final pode ser de 1M a mais ou a menos a depender da regra de cabeça adotada. Uma irá produzir uma taxa de retirada um pouco agressiva de 5% e a outra uma taxa de retirada conservadora de 3.3%.
Porém, se em um determinado ano a rentabilidade anual nominal for de 5%? Dobram-se os números de taxa de retirada ou dobram-se os patrimônios para 4M e 6M respectivamente? Dobrar os patrimônios é impossível para quem já está prestes a parar de trabalhar ou simplesmente vai necessitar muitos mais anos de acumulação para as pessoas que ainda estão na fase de acumulação. Portanto, fique claro que “regras” de que quando os fluxos são o dobro dos gastos ou o triplo dos gastos nada mais são do que variações do “4% rule”, porém sem passar pelo crivo da análise empírica.
A segunda variação de apenas retirar os fluxos reais de um portfólio é evidentemente segura, pois não parte de números jogados ao leu como gastar a metade dos seus rendimentos. Se uma pessoa calcular a sua inflação pessoal e gastar apenas os fluxos que ultrapassarem a sua inflação pessoal, o poder de compra será mantido e se a pessoa mantiver o mesmo nível de gasto o portfólio pode teoricamente durar para sempre. Reconheço que essa é uma forma muito segura de se pensar no problema.
Porém, há alguns problemas de se contar apenas com fluxos reais. Uma pessoa talvez não queira deixar patrimônio para herdeiros ou talvez nem mesmo possua herdeiros. Logo, uma estratégia que as despesas irão ser bancadas apenas com fluxos reais vai levar a pessoa necessariamente a obrigatoriedade de possuir patrimônio muito maior do que o necessário. Logo, a pessoa estará trocando anos de vida trabalhando a mais por segurança. Tudo na vida é um eterno trade-off, mas no caso específico de uma pessoa que não pretende deixar nada a herdeiros essa troca é negativa, pois vai levar que ela tenha um patrimônio muito maior do que o necessário. Se algum engenheiro civil ler esse artigo algum dia, pense na seguinte analogia (e desculpe ao público técnico se cometo algum erro primário): para manter um prédio de quatro andares seguro você precisa, digamos, de 8 colunas de sustentação, sendo assim não há qualquer motivo para se erguer 16 colunas de sustentação a não ser que se queira gastar tempo e recursos de forma desnecessária. É claro que a analogia não é perfeita, pois o exemplo das colunas é algo quase exato, enquanto a sobrevivência de um patrimônio é muito mais inexata. Porém, apesar das eventuais falhas, eu acho a comparação razoável para termos em mente que conservadorismo demais pode nos levar a desperdício do que temos de mais precioso: tempo com saúde.
O outro problema com apenas retirar os fluxos reais, é que se num determinado ano o fluxo real for zero ou negativo, como se faz? Suponhamos que uma pessoa tenha um patrimônio de 3M, tenha um gasto anual de 100k, e o fluxo real de um ano negativo, a pessoa deve cair em demasia o seu nível de gasto? Volta a trabalhar? E se houver uma crise de três anos seguidos com fluxos reais negativos, o que se faz? É evidente que se os fluxos reais forem negativos por muitos anos seguidos o portfólio será extinto. Porém, as classes de ativos e os mercados costumam passar por ciclos, e uma queda acentuada em alguns anos pode seguir uma alta muito acentuada em outros anos, é esse fenômeno que os estudos estatísticos tentam capturar. Será que um fluxo real negativo de um ano não vai ser compensado por um grande fluxo real positivo num ano posterior? O que os dados podem dizer a respeito? Portanto, se uma pessoa se prender apenas na noção de retirada de fluxos reais positivos, pode levar a uma troca de mais anos de trabalho por mais segurança no fluxo, que em alguns casos pode ser desnecessária, bem como deixar a pessoa despreparada para alguns anos onde o mercado como um todo pode apresentar retornos reais negativos.
O tema é de grande importância e pouco tratado de forma mais sistemática aqui no Brasil. Não há respostas simples nem objetivas sobre a pergunta “qual é uma taxa segura de retirada?”. Porém, há sim formas de se pensar mais objetivamente a questão. Em outro artigo, pretendo abordar alguns estudos e suas conclusões e raciocinar se estes estudos podem ter alguma valia para o mercado brasileiro.
Grande abraço a todos!
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