BLOG DO SOUL

  • Página Inicial
  • Comece Aqui
  • Finanças Pessoais
  • Incrível Mundo
    • Mundo
    • Tailândia
  • Cultura Humana
  • Reflexões
  • Contato
Mostrando postagens com marcador Ciência. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ciência. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 23 de setembro de 2014

UNIVERSO - A INCRÍVEL HISTÓRIA DA RADIAÇÃO CÓSMICA DE FUNDO

22 comentários : Postado por soulsurfer às 20:08 Marcadores: Ciência , Cultura Humana
                Olá, colegas! O tema de hoje não tem absolutamente nenhuma relação com investimentos. Para mim as idéias contidas no artigo de hoje são sensacionais, são algumas ordens de grandeza mais interessantes do que mercados financeiros, rentabilidades, partidos políticos, e quaisquer outros assuntos mais comuns do nosso dia a dia. O assunto de hoje é sobre uma das descobertas mais incríveis da humanidade: a radiação cósmica de fundo.

                Alguém pode estar pensando: “O que eu lá quero saber sobre radiação cósmica de fundo, qual é a importância disso para mim? Aliás, what fuck is cosmic background radiation?” Calma para as duas perguntas colegas. Talvez esse assunto que me fascina não encante boa parte das pessoas, então você talvez possa parar a leitura aqui. Porém, eu creio que mesmo que o assunto talvez não interesse num primeiro momento o leitor mais avesso a temas científicos, a história sobre esse assunto é tão interessante que vale ao menos saber algumas coisas a respeito.  

               Quando comecei a escrever sobre finanças, já disse num dos primeiros artigos que eu não era profissional do assunto e não tinha formação formal, e que poderia cometer alguns equívocos. Sou apenas uma pessoa esforçada nesse assunto. Agora, com certeza eu não sei quase nada de Astrofísica, sou absolutamente leigo no assunto. Ora, se você não sabe nada por qual motivo está escrevendo então? Em primeiro lugar, porque esse aqui é o meu blog e posso basicamente escrever sobre o que bem quiser. Em segundo lugar, eu creio que talvez eu possa passar alguns conceitos, mesmo que de forma simples e leiga, para pessoas que ainda não tiveram nenhum contato com certas ideias científicas. Portanto, se houver algum físico entre os leitores, peço a gentileza que seja indulgente ao analisar esse texto.

                “Ok, Soul, desembucha logo aí o que é essa tal de radiação cósmica de fundo”, alguém pode estar pensando.  Não dá para dizer de antemão o que é sem ficar abstrato demais, então vamos começar literalmente pelo início: O BIG BANG. Porém, antes de falarmos um pouco sobre o início, é necessário esclarecer primeiramente alguns fenômenos físicos e um fato histórico. A luz possui uma natureza ondulatória e corpuscular, ou seja, a luz se comporta como se  fosse  ora uma partícula ora uma onda. Isso é um fenômeno complexo e está relacionado com física quântica, assunto que não irei abordar no artigo de hoje.  Estou mais interessado, por enquanto, em falar na natureza ondulatória da luz, ou mais precisamente nas frequências da radiação eletromagnética.

                Como assim? A luz que nós vemos nada mais é do que um faixa do espectro da radiação eletromagnética.  É mais fácil detalhar isso com um gráfico:


Todo fóton (partícula que transmite a força eletromagnética) emite radiação. O espectro da radiaçao eletromagnética é amplo e varia de ondas de intensa energia (raios gama) a ondas de energia muito baixa (ondas de rádio). A luz visível aos olhos humanos é uma parcela muito pequena do espectro.
              
               A imagem acima é auto-explicativa. A radiação eletromagnética pode existir em várias frequências ou seja, em vários comprimentos de onda. Quanto maior o comprimento de onda, menos energética (podemos dizer menos temperatura também para simplificar) fica a radiação, quanto menor o comprimento de onda, muito mais energética fica a radiação. A maior fonte energética que existe no Universo, pelo menos que se tem conhecimento, são raios gama. Raios gama extremamente energéticos são produzidos quando uma estrela com mais massa do que o nosso sol (é conhecido como limite de Chandrasekhar, não irei falar sobre isso hoje, mas posso fazer um artigo sobre o ciclo de vida de estrelas, inclusive possuo uma imagem gigantesca de uma nebulosa – berçário de estrelas – em minha sala) chega ao seu fim e explode em uma supernova liberando uma quantidade de energia muito grande incinerando tudo ao redor. Se alguma estrela próxima da terra explodir em supernova, a terra seria incinerada.

                Outra aspecto interessantíssimo, e com implicações filosóficas profundas em minha opinião, é que o olho humano apenas consegue captar uma faixa muito estreita da radiação eletromagnética, a chamada faixa visível de luz. Vejam na imagem que o limite é muito pequeno comparado com todo o espectro da radiação. Nós não conseguimos ver um raio-x ou um infravermelho, por exemplo. Assim, a nossa compreensão, a nossa capacidade de observar o universo e a realidade sempre será limitada. Isso deveria nos trazer mais humildade em muitas coisas na vida, pois não há ser humano que não seja limitado na sua percepção da realidade.

                Outro fenômeno que precisa ser esclarecido é o chamado efeito Doppler.  Para de uma maneira simples explicar esse fenômeno também recorro a uma imagem:

                               

                Segundo o efeito Doppler, toda vez que uma fonte que produz alguma onda (no caso da imagem é uma onda sonora produzida por um avião) se movimenta em direção a um observador (na imagem o homem em destaque), o observador tem a impressão de que a freqüência das ondas aumenta (diminuindo o seu comprimento), tornando o som mais agudo. Quando a fonte sonora está se distanciando de um observador (no caso da imagem o homem mais ao fundo), este mesmo observador tem a impressão de que a freqüência das ondas diminuiu (aumento o comprimento de onda), tornando o som mais grave. Quando ouvimos uma sirene com um som mais grave se afastando e um som mais agudo ao se aproximar, isso nada mais é do que o efeito Doppler.

                                    
                O efeito Doppler não é limitado apenas a ondas sonoras, ele se aplica a quaisquer tipos de ondas (não saberia dizer se a ondas gravitacionais também, mas isso já é um tema para lá de complexo), e a radiação eletromagnética também sofre efeito Doppler. O que acontece quando é uma fonte de radiação eletromagnética? Acontece exatamente o que a imagem mostra, se a fonte de luz se afasta o comprimento de onda aumenta e a radiação se torna menos energética e isso significa que ela se desvia para o espectro vermelho da radiação (radiações menos energéticas). Se a fonte de luz estiver se aproximando, o comprimento de onda diminui e a radiação sofre um desvio para o espectro azul da radiação eletromagnética (radiações mais enérgicas). Assim, fontes de luz que estão se distanciando apresentam um “desvio para o vermelho”, fontes de luz que estão se aproximando apresentam um “desvio para o azul”. Essa informação é essencial para entender a descoberta fabulosa de um dos maiores cientistas do século passado, o Sr. Edward Hubble.

                                       

                Hubble, sim o nome do famoso telescópio foi uma homenagem a esse brilhante homem, fez uma descoberta extraordinária no final da década de 20, aliás, foram duas descobertas. A primeira e impressionante contribuição desse homem foi descobrir que havia muitas outras galáxias no universo, a nossa galáxia não era a única. Por milênios o homem pensou que vivêssemos num universo-ilha, sendo que a nossa galáxia era a única. Homens geniais como Galileu, Newton, Kepler, morreram tendo essa ideia na cabeça. A descoberta de que a nossa galáxia era apenas uma entre várias outras já seria assombrosa. Porém, o Sr. Hubble descobriu algo ainda mais extraordinário: o universo estava se expandindo e isso caiu como uma bomba, pois até mesmo Einstein apreciava a ideia de um universo estacionário.

                Como Hubble chegou a esta conclusão? Ao fazer inúmeras observações das diversas galáxias que ele conseguiu catalogar, ele observou que todas possuíam desvio para o vermelho, quer dizer todas as galáxias que ele observou (em relação a nossa galáxia creio apenas que a galáxia vizinha de Andrômeda há desvio para o azul, ou seja a galáxia vizinha está se aproximando não se distanciando, devido à força gravitacional entre as duas galáxias, mas isso é uma exceção devido à proximidade de ambas) estavam se afastando da nossa galáxia. Outro fenômeno interessante foi que ele percebeu que quanto mais distante a galáxia, mais acentuando era o desvio para o vermelho, ou seja, a galáxia se afastava da nossa galáxia com uma velocidade de recessão maior.

                                   
O famoso quadro de Hubble que deu origem a lei de Hubble. Quanto mais distante está a galáxia (eixo X), mais veloz é a velocidade de recessão (eixo Y).
                                   
Imagens de galáxias muito distantes e o desvio para o vermelho.

                Isso deu origem a famosa lei de Hubble que diz que a velocidade de recessão de uma galáxia  é igual ao produto da distância e de uma constante que se chama de constante de Hubble: V elocidade = Constante de Hubble x distância. Essa descoberta extraordinária chacoalhou com o mundo da física, a ideia milenar de um universo estático, atemporal e infinito estava próxima de sofrer um profundo abalo.


                                             
O grande astrônomo Hubble. Suas descobertas na década de 20 modificaram por completo o entendimento sobre o universo.

               
              Não demorou para alguém raciocinar que se as galáxias estavam se afastando uma das outras, isso queria necessariamente dizer que em períodos pretéritos de tempo as galáxias deveriam estar mais próximas. Se rebobinássemos o filme da história do universo por um período suficiente de tempo, era lógico e intuitivo pensar que todas as galáxias em um determinado período estivessem todas juntas adensadas num único ponto de densidade infinita e temperaturas que vão alem da nossa imaginação. "Soul como pode existir algo com densidade infinita", alguém pode pensar? Eu não faço a mínima ideia. Na verdade, nem os cientistas sabem, é a chamada singularidade, um fenômeno onde as leis da física parecem não fazer sentido. Outra singularidade no universo é os chamados buracos negros, o tema é tão interessante que merece um artigo próprio. Os cientistas atualmente conseguem modelar períodos cada vez mais próximos do instante original, mas quanto mais próximo se chega do instante original mais as equações vão perdendo o sentido. A teoria M (relacionada a teoria das supercordas), também conhecida como Teoria do Tudo, tenta lidar com essas singularidades. O problema de uma singularidade é que é uma região, ou fenômeno, onde grande quantidade de energia está restrita num espaço muito pequeno. Espaços pequenos são diretamente afetados por fenômenos quânticos, algo muito bem explicado pela física quântica. Grandes energias (ou objetos massivos) são bem explicados pela teoria da relatividade geral de Einstein. Quando se coloca grande energia num espaço reduzido (imagine num lugar com densidade infinita) as equações tanto da mecânica quântica, como da relatividade geral perdem o sentido. A Teoria M é um esforço para tentar unificar esses dois campos e fazer uma teoria que possa explicar o funcionamento do universo. Porém, estou me afastando do tema do artigo.

Representação do BIG BANG. Da singularidade, ao resfriamento, formação dos primeiros núcleos atômicos, depois dos primeiros átomos, depois das proto-galáxias e por final das galáxias.

           A teoria fazia sentido, mas havia alguma prova de que ela era verdadeira além da observação do astrônomo Hubble? Sim, havia uma prova teórica, e finalmente chegamos a radiação cósmica de fundo.  Para entender o que seria essa radiação, é preciso falar um pouco sobre temperatura e densidade. Quando estamos com frio e temos uma companheira para poder abraçar, não nos sentimos mais quentes quando nos abraçamos e ficamos mais próximos? Não sei se alguém já viu um filme muito bonito chamado “A Marcha dos Pingüins” . A forma da espécie de pingüim retratada no filme sobreviver aos invernos rigorosos de seu habitat é ficando amontoado com outros pingüins para de alguma forma manter a temperatura. Isso é um fenômeno físico. Quanto mais denso vai ficando um ambiente, ou seja mais matéria concentrada num ponto, maior é a temperatura. Como toda energia estava concentrada num ponto de densidade infinita pela teoria do BIG BANG, a temperatura era infinita. A partir do momento que houve a “explosão” inicial (eu coloco entre aspas, pois o termo explosão não é cientificamente correto,  é uma  aproximação para nós leigos podermos entender) e o espaço começou a se expandir, a temperatura começou a cair, pois a densidade começou a diminuir também, menos matéria/energia concentrada, mais volume de espaço, menor temperatura.


                Essa relação entre expansão do espaço, matéria e temperatura é fundamental e envolve muitos pontos de interesse como: a formação das forças fundamentais, o processo de nucleossíntese fundamental (que ocorreu nos três primeiros minutos, há um livro bem conhecido mais técnico chamado “Os três primeiros minutos”) e depois de 380.000 anos a formação dos primeiros átomos. Todos esses temas são interessantíssimos e todos eles poderiam facilmente ser abordados num artigo específico. Entretanto, o que quero retratar é a relação entre a expansão do universo e a diminuição da temperatura.

                Um físico ucraniano chamado George Gamow junto com o americano Ralph Alpher no final da década de 40 por meio de demonstrações matemáticas chegaram à conclusão de que quando houve o início do universo pelo BIG BANG (os detalhes são mais complexos do que isso, simplifico aqui) havia fótons (fótons é a parte corpuscular da luz, lembre-se que a luz pode ser tanto onda como matéria, é conhecido como o princípio da dualidade da luz, e é difícil de entender como algo pode ser onda e matéria ao mesmo tempo, mas depois de ler a respeito vai ficando um pouco mais claro) que a partir de certo momento (mais precisamente depois de 380 mil anos quando o universo se esfriou até uma temperatura onde foi possível que elétrons e bárions se combinassem para formar átomos) deixaram de interagir com o plasma extremamente quente de bárions e elétrons e passaram a viajar livremente pelo espaço em expansão (se essa parte foi um pouco mais confusa, peço escusas).

                Gamow e Alpher concluíram que esses fótons deveriam ainda existir no universo, deveriam emitir radiação eletromagnética em comprimentos longos de onda (ou seja, deveriam ter uma temperatura muito baixa, já que poucos energéticos) e deveriam estar em todos os lugares do universo. Esse último detalhe é importantíssimo. Se toda a energia estava concentrada num único ponto e o universo expandiu-se, pressupõe-se que o universo é homogêneo, ou seja, idêntico em todos os lugares.

George Gamow, um grande físico que deu uma contribuição imensa para o aprofundamento da nossa compreensão sobre o universo.

                Apesar da sagacidade da teoria dos dois físicos, não houve nenhum empenho da comunidade científica em tentar descobrir essa radiação eletromagnética residual do BIG BANG. Por quase duas décadas, essa ideia foi simplesmente esquecida. Então, o inesperado aconteceu, o cisne negro da física moderna se materializou, numa das maiores descobertas ao acaso feitas pela humanidade.

                Dois radio-astrônomos  chamados Arno Penzias e Robert Wilson estavam trabalhando para a Bell Telephone Company numa antena de rádio construída pela empresa. O objetivo deles era estudar sinais de rádio vindo de galáxias. Ao prosseguir com as medições, os dois cientistas notaram que havia a persistência de um ruído. Para qualquer lugar que eles apontassem a antena o ruído continuava. Eles tentaram de tudo, inclusive reza a lenda que eles pensavam que o ruído era fruto de bosta de pombos nas antenas, mas o ruído persistia (não adiantou limpar os dejetos das aves da antena).  O ruído que eles encontraram era a radiação cósmica de fundo, era um fóssil do início do universo e a prova mais contundente até então da existência do BIG BANG.

               Se vocês voltarem na primeira imagem que coloquei nesse artigo, irão perceber que há um comprimento de onda associado à emissão energética de microondas. Há também uma temperatura associada.  Qualquer fóton emite radiação eletromagnética. Dependendo do nível de energia do fóton ele emite radiação eletromagnética de uma determinada freqüência. Como dito, Gamow e Ralph previram que deveria haver fótons espalhados por todo o universo emitindo uma radiação residual (residual ao Big Bang) em microondas. Eles erraram apenas por poucos graus a temperatura da emissão, a temperatura da radiação cósmica de fundo é de 3K (0K é conhecido como zero absoluto) ou -270 ºC. Portanto, Penzias e Wilson tinham encontrado uma radiação em microondas existente em qualquer lugar que eles apontassem a antena, a conclusão era apenas uma: tinha-se encontrado o fóssil do BIG BANG previsto há mais de 20 anos.

Penzias e Wilson. A descoberta acidental mais profunda da história da humanidade.

                Recentemente, telescópios cada vez mais sensíveis tem captados cada vez mais imagens espetaculares do nosso universo. A imagem abaixo é do telescópio Planck, uma imagem vale mais do que milhões de palavras:

Radiação cósmica de fundo. As diferenças de cor são variações minúsculas de temperatura (eu creio que é uma parte por mil), provando que a radiação é homogênea em todo o universo.

                Dizem que os dois não sabiam o que encontraram, e só foram avisados depois por físicos que eram familiarizados com os trabalhos de Gamow e Ralph.  Porém, o fato objetivo é que essa descoberta inesperada mudou os rumos da ciência e  valeu a Penzias e a Wilson o nobel de Física no ano de 1978. Gamow já era morto e não podia receber o Nobel, mas Ralph ainda era vivo e simplesmente foi esquecido pelo prêmio nobel, num dos atos que viria a ser considerado uma das maiores injustiças na história da premiação. Essa história também não deixa de ser humana com contornos de tragédia. Mostra que nem sempre aquela pessoa que teve uma ideia original é reconhecida ou premiada e que outros às vezes podem levar os louros da vitória, nem sempre havendo justiça nos resultados. O vídeo abaixo da muito boa (principalmente para leigos) série "Poeira das Estrelas" que o físico brasileiro Marcelo Gleiser (recomendo muito os livros dele, eu já li uns 3 ou 4 acho), mostra em mais detalhes essa história. Inclusive uma entrevista do Gleiser com o grande físico Ralph Alpher num retiro para idosos antes do mesmo falecer. Vale muito mesmo assistir o vídeo.

Vídeo de um episódio do seriado "Poeira das Estrelas". Ralph Alpher, um dos físicos que contribuiu para a humanidade ter um conhecimento mais profundo sobre o universo, esquecido nos últimos anos de vida num retiro para idosos. A vida pode ser injusta às vezes.

              É isso amigos. O artigo foi longo, talvez poucos cheguem até o final, mas aqueles que o fizeram creio que não se arrependeram, pois a história da radiação cósmica de fundo, do nosso universo e em última instância de nós mesmos é algo surpreendente e belo. Você mesmo pode "ver" a radiação cósmica de fundo. Sabe aquele chiado que fica nas televisões, ou pelo menos ficava, quando a transmissão terminava? Pois é, esse chiado nada mais é do que a radiação cósmica de fundo. 

Você já tinha imaginado que ao ver essa imagem estava na verdade olhando para uma das provas do início do Universo?

                 Grande abraço a todos!
Read More

quarta-feira, 21 de maio de 2014

REFLEXÕES - OS TRÊS GOLPES DA CIÊNCIA CONTRA O EGO HUMANO

42 comentários : Postado por soulsurfer às 10:39 Marcadores: Ciência , Cultura Humana , Reflexões
            "O mundo é o meu país, toda a humanidade é a minha raça, e fazer o bem é a minha religião" Thomas Paine    

                Olá amigos! Continuando os artigos sobre temas mais gerais, hoje pretendo falar um pouco sobre ciência e ego humano. Primeiramente, devo explicitar que entendo como ego humano a nossa percepção de que somos especiais no universo, na natureza e na individualidade. O tema é vasto, complexo e polêmico. Aqui farei apenas algumas breves reflexões.


I -  PRIMEIRO GOLPE – A ILUSÃO DE SERMOS O CENTRO DO UNIVERSO DESTRUÍDA


                Não vou aqui descrever a história das idéias sobre o fato da terra ser o centro do universo (há pessoas com muito mais competência que já fizeram isso, sendo facilmente obtido na internet), mas essa era a ideia a prevalecer por mais de mil e quinhentos anos na humanidade.  Foi preciso que um polonês, Nicolau Copérnico, e posteriormente um italiano, Galileu Galilei, para que esse conceito central na vida humana até então fosse questionado.  Galileu, no que ia ser para sempre considerado um dos episódios que ilustram como o conhecimento humano pode ser barrado por questões outras do que a verdade, foi obrigado a se retratar perante a Igreja Católica, pois suas afirmações contrariavam passagens literais da Bíblia, mas pior do que isso colocavam em cheque a posição central da terra e do homem no universo.

                Com o avanço da ciência nos últimos séculos, a ideia de que a terra fosse de alguma maneira o centro do universo foi descartada, pois  estamos na verdade na periferia de um dos braços da nossa galáxia. Na bem da verdade, quem conhece um pouco sobre teoria cosmológica, sabe que o conceito mais aceito hoje é que o universo não possui um centro, na verdade qualquer ponto pode ser considerado o seu próprio centro, já que o universo está se expandindo e as galáxias se afastam uma das outras conforme o espaço é criado (esse é um conceito um pouco difícil de entender, o universo não se expande por algo que já existe, na verdade o próprio espaço é criado com a expansão do universo).

                Assim, a humanidade, principalmente as religiões institucionalizadas, teve que aceitar o fato de que a terra não era o centro do universo, longe disso. Esse primeiro golpe no ego humano não foi tão duro para a maioria das pessoas, pois se trata de algo mais abstrato, pouco relacionado com a vida prática.  O segundo golpe da ciência seria muito mais duro de aceitar, o que de fato ainda não é aceito por boa parte da humanidade.

 Galileu Galilei foi um dos grandes homens a andar pela terra. Ele inicia uma nova forma de se pensar o mundo, o que iria desembocar na criação do método científico moderno.
Não estamos nem no centro da nossa Galáxia, o que dirá do Universo (que aliás não tem centro).


II – SEGUNDO GOLPE – A ILUSÃO DA ESPÉCIE HUMANA SER O ESTÁGIO FINAL EVOLUCIONÁRIO E POSSUIR UMA POSIÇÃO ESPECIAL DESTRUÍDA


                O ano é 1859 e um livro com o sugestivo nome de “On the Origin of Species by Means of Natural Selection, or the Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life “(Sobre a Origem das Espécies por Meio da Selecção Natural ou a Preservação de Raças Favorecidas na Luta pela Vida) foi publicado (apenas na sexta edição o livro teria o título de “A origem das espécies”, como é mais conhecido).  Há algum debate na história da ciência se Charles Darwin foi original ou não em sua abordagem, mas tal tema foge do escopo desse breve artigo. O ponto é que as idéias contidas nesse livro são absolutamente revolucionárias.

                A explicação para a variedade da vida não necessitaria ter mais uma causa sobrenatural (ou seja fora da natureza). A própria natureza continha a explicação para sua própria complexidade. Isso, amigos, é absolutamente assustador para nós humanos que possuímos uma tradição de milhares de anos de explicação do mundo, e principalmente da vida, pelo uso de mitos da criação. O mais provocador, também por ausência de conhecimento técnico não vou discutir a teoria em si – recomendo os livros do genial Richard Dawkins para isso -, é que a evolução das espécies acontece de maneira aleatória, não há nenhum significado ou objetivo especial (além da adaptação) da evolução. Logo, o homem é apenas produto de alterações genéticas aleatórias, não é fruto de algum desígnio especial da natureza. Sendo assim, a humanidade não possui um caráter especial enquanto espécie, ela é apenas mais uma dentre tantas outras espécies, algumas delas com grau de complexidade fisiológica muito parecida com a espécie humana.

                Talvez boa parte das pessoas não reflita tanto sobre isso, ou não entendam o real alcance dessa descoberta. Minha mãe, por exemplo, fala desde que sou criança que não consegue entender a complexidade das adaptações dos seres vivos, que isso só poderia ter uma explicação fora da natureza.  É um sentimento extremamente natural, afinal tudo parece estar tão conectado que não poderia ser obra do acaso, seria imprescindível a existência de algum desígnio inteligente prévio (sim é a teoria do criacionismo sob a  roupagem moderna do "desígn inteligente"). Acontece que essa complexidade começou a ser desvendada por Charles Darwin, e nenhuma explicação sobrenatural foi ou é requerida.  Isso é um tremendo golpe em muitos conceitos extremamente arraigados nas nossas culturas, e em nossas religiões institucionalizadas, principalmente as ocidentais.

                Se o homem não é A espécie, mas apenas mais uma espécie, o que poderia justificar todo um sistema de dominação da espécie humana sobre outras espécies não-humanas, a não ser o poder? Se assim o é, qual é a diferença fundamental do uso do poder para subjugar outras espécies do uso do poder para subjugar membros da espécie mais fracos? Se o homem é apenas uma espécie entre tantas outras fruto de mutações aleatórias, como justificar mitos de criação, absolutamente centrais para tantas instituições religiosas ou não, onde o homem aparece como algo apartado das demais espécies? O pior talvez seja a questão da finalidade, porque se somos frutos de alterações aleatórias, se a evolução não necessariamente deveria culminar com a espécie humana (a evolução, pela sua aleatoriedade poderia ter tomado diversos caminhos), como fica a questão do sentido da existência? Será que realmente há algum sentido sobrenatural, algum sentido que fuja do próprio contexto natural? Do ponto de vista racional, é muito difícil justificar essas posições tão arraigadas em nossa cultura.  É por isso que esse golpe desferido pela ciência contra o ego humano é muito forte e profundo, pois mexe com crenças e suposições extremamente internalizadas em nós.

                Eu, particularmente, não me sinto tão atingido. Aliás, eu vejo com satisfação essa história narrativa da vida. Isso apenas serve para que nós, espécie dominante do planeta, tenhamos respeito por toda e qualquer forma de vida, pois nós temos uma ligação ancestral com toda forma de vida que existe hoje no Planeta Terra. Não há nenhuma forma de vida que não guarde algum ancestral em comum com os seres humanos. Isso é muito bonito, pois faz com que nós possamos nos sentir conectados com toda a vida nesse planeta, mesmo no nível mais fundamental. Além do mais, ao admitir que organismos extremamente simples do ponto de vista biológico possam evoluir para organismos extremante complexos como cachorros, golfinhos, homens, é muito mais surpreendente, misterioso e fascinante do que a explicação de um ser extremamente complexo criando seres menos complexos.

                Esse golpe ainda não foi digerido pela humanidade, se é que um dia será, mas há outro golpe em gestação, esse sim capaz em colocar em xeque absolutamente tudo que acreditamos ser mais fundamental a existência individual de cada ser humano.
               
  Esse livro marca o início de um novo entendimento sobre a vida no nosso planeta. É realmente revolucionário.
Pela ciência atual, todos esses seres vivos, por mais diferentes que sejam, são nossos parentes. Não é apenas "somos todos macacos", até porque o homem não evoluiu dos macacos, mas sim há um ancestral em comum entre os macacos e os cinco grandes primatas (homens, bonobos, chimpanzés, gorilas e orangotanos - em ordem decrescente de parentesco genético).


III – TERCEIRO GOLPE – EM ANDAMENTO – A ILUSÃO DE TERMOS CONTROLE SOBRE O QUE PENSAMOS E DECIDIMOS SENDO COLOCADA EM XEQUE

               
                     Quem é você? Quem é o Soulsurfer? Há algo que me distingue de outros seres humanos, há alguma coisa dentro de mim que me torna especial, algo que possa ser chamado de “Eu” em oposição aos “outros”? Se este “Eu” existe, é ele que está no controle ou alguma outra “coisa” está na verdade do controle da minha existência? O tema não é novo, é discutido há milhares de anos pelas maiores mentes que a humanidade já criou, e nunca se chegou a um consenso. É a dicotomia mente x cérebro, corpo x alma.

                Até pouquíssimo tempo atrás, tal discussão a toda evidência estava restrita a conversas metafísicas, longe do alcance do método de verificação científico. Entretanto, tal situação está mudando drasticamente com o avanço da neurobiologia e os processos de mapeamento do cérebro.  Hoje, a ciência está conseguindo olhar o nosso cérebro e testá-lo nas mais variadas situações. É um dos temas que atualmente eu mais aprecio ler ou me informar a respeito.  As descobertas são inúmeras e potencialmente reveladoras da limitação do papel de um “Eu”.

                Não vou me aprofundar, pois o tema é amplo e complexo. Entretanto, há descobertas cada vez mais incontestáveis que as nossas decisões são feitas antes de termos consciência delas (lhttp://www.humanasaude.com.br/novo/materias/2/c-rebro-indica-decis-o-futura-at-10-segundos-antes-de-ela-atingir-consci-ncia_5694.htm). No fantástico livro do Eduardo Giannetti “ A ilusão da Alma”, são descritos diversos estudos. Há um muito interessante sobre um pedófilo que foi preso, e se descobriu que ele tinha um pequeno tumor numa área do cérebro. O tumor foi retirado, o mesmo foi solto, e por alguns anos não se envolveu em mais nenhum ato de pedofilia.  Entretanto, o mesmo foi pego novamente num ato de pedofilia, e se descobriu que o mesmo tumor na mesma região do cérebro havia voltado. É difícil nesse caso específico achar um "Eu" para ser responsabilizado. As implicações sobre os nossos julgamentos morais e jurídicos são absolutamente profundas.

                   Há estudos que mostram que determinadas áreas do cérebro quando estimuladas eletricamente provocam a sensação da presença de uma entidade extracorpórea (o que pode explicar os mais variados fenômenos religiosos no curso da história), há outra parte do cérebro que quando estimulada provoca a sensação de separação da pessoa com o próprio corpo. Enfim, o tema é muito vasto e apaixonante.

                A tese central é que talvez não haja uma separação entre cérebro e mente, e que nossos processos mentais nada mais são do que processos físicos/químicos que acontecem no interior de nosso cérebro sem qualquer participação do meu “Eu”. Na verdade, a própria noção de um “Eu” está sendo colocada em xeque com esses experimentos. Tudo está numa frase embrionária, o que descobriremos daqui 50/60 anos é um grande mistério, mas se realmente nossa consciência não está no controle de quase nada, isso será um tremendo golpe contra o ego humano. Como os humanos lidarão com isso, apenas meus bisnetos talvez possam responder. É necessário salientar que muitas pessoas estão utilizando esse tipo de conhecimento para objetivos muito práticos. Há dois campos novos de análise que não param de crescer: neuroeconomia e neuromarketing.  Eu quando leio a respeito dessas duas novas fronteiras fico assustado, pois cada vez mais e mais as propagandas serão feitas, e os produtos serão designados e produzidos, para atingir diretamente regiões muito específicas dos nossos cérebros, onde a nossa consciência não terá a menor chance de resistir. 

Já falei sobre o Giannetti. Sou suspeito, pois o acho um dos maiores intelectuais vivos do Brasil. O livro é tão bom que li duas vezes. Recomendo.

                É isso colegas, de uma espécie especial que ocupava o centro do universo onde a consciência/mente/alma era o centro de nossa existência, a ciência vai cada vez nos mostrando que somos uma entre muitas espécies habitando ao redor de uma estrela periférica em uma galáxia qualquer (dentre centenas de bilhões de outras galáxias, e talvez até de infinitos universos – é a teoria do multiverso), onde nem mesmo temos controle consciente sobre as nossas decisões. Ao invés de nos tornamos depressivos e melancólicos com essas descobertas, talvez possamos usá-las para sermos menos egocêntricos, mais amorosos com os outros animais da nossa espécie e de animais de outras espécies, e mais humildes para admitirmos que somos muitos pequenos perto da complexidade da vida e do universo.


                Um grande abraço a todos!
Read More
Postagens mais antigas Página inicial
Assinar: Postagens ( Atom )

Marcadores

  • Finanças Pessoais
  • Incrível Mundo
  • Reflexões
  • Tailândia

search this website

email updates

Like us on facebook

Quem sou eu

Minha foto
soulsurfer
Mais um ser humano em busca de sentido. Uma jornada repetida por bilhões de outros humanos ao longo das eras. Escrevo aqui sobre finanças, viagens e algumas pequenas reflexões sobre os mais variados temas.
Ver meu perfil completo
Tecnologia do Blogger.

Blog Archive

  • 2016 (2)
    • janeiro (2)
      • AS CONEXÕES IMPREVISÍVEIS DA VIDA E BLOGS NOTÁVEIS
      • TAILÂNDIA - UMA VIRADA DE ANO FABULOSA NA "CIDADE ...
  • 2015 (58)
    • dezembro (7)
    • novembro (5)
    • outubro (5)
    • setembro (5)
    • agosto (6)
    • julho (3)
    • junho (7)
    • maio (4)
    • abril (3)
    • março (4)
    • fevereiro (5)
    • janeiro (4)
  • 2014 (78)
    • dezembro (5)
    • novembro (7)
    • outubro (6)
    • setembro (7)
    • agosto (9)
    • julho (6)
    • junho (9)
    • maio (9)
    • abril (8)
    • fevereiro (9)
    • janeiro (3)

Popular Posts

  • AS CONEXÕES IMPREVISÍVEIS DA VIDA E BLOGS NOTÁVEIS
      Olá, colegas! Espero que estejam todos bem.  Minha estada na Tailândia que deveria durar duas semanas já passa de um mês e ainda devo fic...
  • ZONA DE (DES)CONFORTO
        Olá, colegas. Espero que estejam todos bem.  Escrevo nesse artigo sobre a nossa zona de conforto. O que é isso? Muitos já devem ter ouv...
  • REFLEXÃO - A INCOMPREENSÃO SOBRE OS DIREITOS HUMANOS
                    "As ideias tomam conta, reagem, queimam gente na praça pública" Oswald de Andrade (1928)                    ...
  • UMA ANÁLISE MAIS DETIDA SOBRE A DECISÃO DA CVM EM RELAÇÃO AO BLOG "O PEQUENO INVESTIDOR"
    Olá, colegas. Iria escrever sobre refugiados nesse artigo, mas resolvi mudar o tema. Como tenho um certo tempo aqui no aeroporto, gostaria ...
  • INDEPENDÊNCIA FINANCEIRA
     Olá, colegas! Os últimos oito dias no deserto foram simplesmente sensacionais. Aconteceu tanta coisa boa que poderia escrever páginas e pá...
  • BLOGUEIRO MILIONÁRIO, IMÓVEIS, RISCOS E ALEGRIA PELOS OUTROS
       Olá, colegas. Este artigo provavelmente será uma miscelânea. Eu escrevi vários esboços de textos, pois há tantos assuntos, mas resolvi c...
  • INVESTIMENTO - ALGUNS PENSAMENTOS FINANCEIROS
    Olá, colegas. Hoje escrevo algumas reflexões a respeito de temas variados em finanças pessoais. NÃO GIRE PATRIMÔNIO SEM SABER AO CERTO ...
  • FUNDOS IMOBILIÁRIOS DE PAPEL - ABRINDO A CAIXA DE PANDORA?
    Olá, colegas! No artigo de hoje abordo um tema não muito tratado na blogosfera e que é de vital importância para quem investe em Fundos Im...
  • REFLEXÃO E HOMENAGEM - A BREVIDADE DA VIDA E INVESTIDOR MATUTO
                “ O que é Tolerância? Trata-se de uma prerrogativa da humanidade. Estamos todos imersos em erros e fraqueza: perdoemo-nos recip...
  • REFLEXÕES SOBRE A TAXA DE JUROS REAIS NO BRASIL E NO MUNDO. BREVE DIGRESSÃO SOBRE O MERCADO IMOBILIÁRIO ARGENTINO
       Olá, colegas. Depois de uma série de artigos sobre viagens, volto a escrever sobre finanças. O tema desse artigo creio ser do interesse ...

© BLOG DO SOUL 2013 . Powered by Bootstrap , Blogger templates and RWD Testing Tool