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segunda-feira, 24 de agosto de 2015

FILMES - COSMÓPOLIS

7 comentários : Postado por soulsurfer às 04:49 Marcadores: Cultura Humana , Filmes
 Olá, colegas! Hoje, escrevo sobre algo diferente. Irei comentar um filme. A sétima arte é algo que gosto muito, é um dos meus hobbies favoritos. Confesso que não entendo muito sobre técnica, não sei analisar um filme como crítico de cinema. Entretanto, tenho uma verdadeira paixão pelo cinema. Quando estou numa vida mais rotineira, tenho o costume de ir algumas vezes por semana ao cinema, principalmente em baixa temporada quando há vários dias com preços de ingresso em conta. Sim, eu adoro ir ao cinema. Para mim há algo de mágico na sensação de ver um filme numa tela imensa. Alugar um filme ou ver na televisão não é a mesma experiência para mim, longe disso. Assim, o tópico filmes é algo que chama bastante minha atenção. Irei fazer um breve relato de um filme que gosto bastante: Cosmópolis.

Um filme que não ficou muito conhecido e agradou, a julgar pela reação no cinema, a poucas pessoas (eu me incluo nelas)


  Primeiramente, é preciso dizer que é um filme diferente, bem diferente. Não é de fácil interpretação, principalmente para quem não está familiarizado com alguns conceitos de física e finanças. Aliás, sem esse prévio conhecimento, o filme perde e muito o sentido. Deve ser por isso que quando eu vi no cinema, as poucas pessoas que estavam na sala bateram palmas quando o filme acabou e era visível que davam risada de nervosas, achando o filme muito ruim, pois a história aparentemente não fazia sentido. Isso é comum com filmes assim. Outro filme, excepcional por sinal, “A Árvore da Vida” teve a mesma reação do público. Quase ninguém entendeu partes centrais do filme, nem mesmo críticos de cinema, pois envolvia conhecimentos prévios de cosmologia, e até mesmo sobre o ciclo de vida e morte de estrelas (assunto absurdamente fascinante sobre o qual quero escrever qualquer dia).  Entretanto, o filme tem tantos insights bacanas, que foi necessário explicar algumas partes para a Sra. Soulsurfer quando alugamos o filme para ver novamente, para que o filme pudesse ser melhor apreciado.


  Não irei fazer aqui uma resenha, até porque seria difícil, nem mesmo dar minha opinião. Vou, talvez de uma forma caótica falar de trechos do filme. A primeira parte que me chama atenção é quando o protagonista entra num táxi onde esta a sua noiva e a mesma pergunta de qual país deve ser o motorista, de onde ele vem. O protagonista responde secamente: “ele vem do horror e do desespero”. É a mais pura verdade. Retrata com uma simples frase a história de vida de milhões de imigrantes de lugares onde o desespero é a tônico, muitas vezes fugindo do horror de uma violência extrema, guerras civis sangrentas ou simplesmente fome.

  Numa outra cena, e aqui começa a ficar interessante, o protagonista tem um diálogo muito interessante com um suposto adolescente “nerd”. Na verdade, ele nada mais é do que um quant. Quant são pessoas com extremo preparo em física e matemática que vão para o setor financeiro tentar achar modelos complexos de precificado de ativos e de arbitragem na busca incessante por alpha (termo técnico para retorno em excesso ao mercado depois de ajustado pelo risco da estratégia). O diálogo fala sobre tempo, e como o tempo hoje em dia escraviza as nossas vidas, bem como cada vez mais frações diminutas de tempo vão se tornando importante. Aqui se fala indiretamente sobre operações chamadas High Frequency Trade, ou HFT, realizadas por supercomputadores em frações de segundo. Toda a conversa de finanças se desenvolve pois o protagonista é um jovem bilionário que fez uma aposta alavancada no dia que a moeda chinesa iria se desvalorizar. Ele apostou toda a sua fortuna, mas no decorrer do filme não parece nem um pouco preocupado com isso.

  Numa outra cena, dentro da limousine (o filme quase todo se passa dentro do carro), uma prostitua começa a conversar com o protagonista sobre uma igreja e obras de arte. Ele então diz que quer comprar as obras de arte, e ela fala que não se pode querer comprar a história humana, numa discussão interessante sobre se a humanidade possui bens coletivos que não deveriam ser apropriados para uso exclusivamente privado.

   Após quebrar, porque a aposta alavancada contra a desvalorização da moeda chinesa não ter dado certo, o protagonista vai jantar com a sua noiva. Aliás, ela é o antítese dele. Enquanto ele representaria a ultramodernidade, ela parece mais uma sábia saída da academia de Platão. Ele então fala para ela “finalmente estou livre”. Ela replica: “Livre para fazer o que? Empobrecer e morrer?” Que raio de liberdade é essa onde as pessoas vão de extremos a extremos sem a necessária temperança? 

   Agora, a parte final do filme é a mais fantástica e a que mais “indigna" as pessoas pela aparente falta de sentido. O protagonista acaba num apartamento de um conjunto residencial e alguém aparentemente quer matá-lo. Esse alguém é um antigo quant que trabalhou para ele tentando modelar as flutuações do Bath (moeda Tailandesa), mas toda vez que chegava perto de encontrar algo esbarrava em alguma pequena imperfeição que impedia de “descobrir" o segredo da moeda. Num primeiro momento, ele ficou obsessivo com essa imperfeição, mas depois aceitou a beleza da mesma. Esse parágrafo pode parecer sem sentido, mas ele trata de uma ideia muito bacana de que talvez a natureza não seja perfeita, no sentido de simetria (quando se fala em perfeição em física, geralmente se está a falar em simetria).  Há um livro que trata sobre isso, do ponto de vista da física de partículas, chamado Criação Imperfeita, um excelente livro por sinal. Por exemplo, eu, você, o computador que escrevo, todo o nosso universo só veio a existir, pois houve uma “imperfeição" original de uma partícula a mais de matéria em relação a uma partícula de anti-matéria na proporção de 1 para 1 bilhão. Isso é uma imperfeição minúscula (para se ter ideia medidos a quantidade de CO2 na atmosfera em partes por milhão, não por bilhão), mas que proporcionou que tudo viesse a existir. O físico Marcelo Gleiser argumenta então que devemos abraçar a imperfeição, pois ela faz parte do nosso universo e das nossas vidas. 

Um belíssimo livro sobre física de partículas, o universo e no fundo sobre nós mesmos. 



   Enfim, colegas, é um filme muito diferente, mas para mim é um filme que me faz sempre refletir bastante. Um grande abraço a todos!

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domingo, 22 de março de 2015

REFLEXÃO - A CELEBRAÇÃO DA INTELIGÊNCIA

12 comentários : Postado por soulsurfer às 19:35 Marcadores: Cultura Humana , Livros , Reflexões
                Olá, colegas.  Estamos num mundo voltado cada vez mais para um conhecimento teórico mais profundo ou, pelo contrário, as habilidades de um suposto conhecimento prático serão cada vez mais importantes na sociedade?  Faço essa pergunta, pois vez outra me deparo com textos tecendo louros a pretensas atividades práticas em detrimento de atividades intelectuais pretensamente estéreis. Há lógica nessa atitude, ou, melhor dizendo, há uma supremacia da prática sobre a teoria?

                Evidentemente, a questão é antiga e sempre gerou, no meu entendimento é claro, confusões desnecessárias. O conhecimento científico, chame de teoria se quiser, foi o que gerou, e muito provavelmente gerará ainda mais, essa imensa evolução tecnológica presenciada pela raça humana nos últimos 300 anos. Sem um homem brilhante como James Clerk Maxwell você não estaria lendo esse artigo num dispositivo chamado computador, por exemplo.  A humanidade só avança com homens extremamente versados no que comumente chama-se Teoria. Um mundo sem um grande artesão de móveis seria mais pobre, com certeza. Porém, um mundo sem Einstein, Darwin, Hubble, seria n vezes mais pobre.

Muito teórico? Nossas vidas seriam extremamente mais pobres sem a existência dessas equações e do homem brilhante por trás delas (Equações de Maxwell sobre electromagnetismo)

                A teoria nada mais é do que o uso sistemático e racional do nosso maior atributo enquanto espécie: nossa inteligência.  Ao se celebrar a teoria na verdade está se prestando homenagem à inteligência humana. Numa entrevista que já postei várias vezes aqui do Patch Adams para o programa Roda Viva em 2007, o entrevistado fala que não se importa em aparecer na televisão e que o único programa de televisão que ele gostou foi de um canal chileno chamado “A Celebração da Inteligência”. Eu achei a resposta dele, como muitas outras dele na entrevista, fantástica.

                Soa-me contraditório num mundo cada vez mais complexo, onde o conhecimento é o fator essencial para a ascensão ou declínio de indivíduos, empresas e até mesmo países, que a inteligência seja continuamente desprezada.  Faz sentido denegrir o conhecimento teórico em detrimento de uma “expertise prático”, sugerindo a supremacia deste sobre aquele?  Para mim não faz o menor sentido.

                Não tenho a menor dúvida de que possuirmos habilidades manuais é algo positivo. Quem as possui pode realizar diversas atividades sem depender de terceiros. Quem não as possui pode fortalecer o seu Sistema 2 (ver artigo anterior deste blog a respeito) tentando aprendê-las. É ótimo saber como construir uma cabana improvisada, principalmente se a pessoa gosta de acampar. Porém, podem ter certeza amigos leitores que o conhecimento teórico aprendido numa faculdade de engenharia de como projetar um prédio de 10 andares é muito mais poderoso.

                Num mundo cada vez mais plano e interconectado, onde uma pessoa com uma conexão de internet na Índia pode estar competindo por fatias do mercado interno de medicina nos EUA, por exemplo, o conhecimento será cada vez mais decisivo. Sociedades e países que avançarem no conhecimento serão aqueles que possuirão um melhor padrão de vida. Não é à toa que a produtividade do trabalho está intimamente ligada à evolução tecnológica que por sua vez está ligada à educação que por sua vez está ligada ao que chamamos de inteligência (pelo menos em uma de suas formas).

                Em minha opinião o conhecimento humano, para além da ótica utilitarista do mesmo, é um dos objetivos nobres que um ser humano pode almejar.  Riqueza, sucesso profissional ou empresarial, poder, etc, são para mim facetas muito menores e nem de longe significam uma vida bem realizada. Admiro, e aqui é uma opinião pessoal, muito mais um grande pensador como Eduardo Gianetti do que uma pessoa com uma grande riqueza material.  O conhecimento é o que nos faz evoluir enquanto espécie, é o que faz com que a escuridão da nossa ignorância seja aos poucos iluminada, como o grande Carl Sagan (um grande ser humano) colocou como subtítulo num dos seus livros mais famosos.  Foi um matemático homossexual britânico brilhante que apenas com seu intelecto provavelmente fez com que a segunda guerra mundial tenha sido menos sangrenta do que ela foi.

A força da inteligência de um homem. Apenas com conhecimento "teórico" esse ser humano brilhante revolucionou por completo a nossa relação com as máquinas e ainda ajudou a salvar milhões de vida na II Guerra Mundial. Um homem desses, se distribuíssemos honrarias baseado na contribuição para o bem-estar social humano, deveria estar no topo das listas das pessoas a ser admiradas. Acabou suicidando-se e sem qualquer reconhecimento (Alan Turing).

Sempre vale fazer uma homenagem a esse grande ser humano que se chamou Carl Sagan. Se não leu nenhum livro dele, recomendo e muito (o da imagem é um dos mais conhecidos).

                Outro objetivo humano nobre para mim é a compaixão, algo também relativamente em baixa nos dias de hoje. Será que um pai ficaria animado ao ouvir do seu filho que ao invés de querer uma carreira promissora, ele gostaria de se tornar uma pessoa mais bondosa e gentil, buscando o conhecimento humano de maneira desinteressada, como sugerido por Bertrand Russel em seu ótimo livro "Elogio ao Ócio"? Eu acredito que a maioria dos pais ficaria confusa ou até mesmo desapontada.  Porém, afasto-me um pouco do tema aqui.

Outro livro muito bacana do grande filósofo e matemático Bertrand Russel.

                Não podemos desmerecer a prática e os trabalhos manuais (que, aliás, são uma ótima forma de terapia para a mente e todos devem fazer algo parecido com certa freqüência), porém isso não deve ser feito em detrimento da celebração da inteligência manifesta no conhecimento humano, ou teoria. Isso quer dizer que se deve acreditar em teorias cegamente ou fechar os olhos para a realidade? Evidentemente que não. Aliás, basta termos o espírito de um cientista, de sempre estarmos questionando as nossas premissas e conclusões que muito provavelmente não cometeremos este erro, seja tocando uma empresa, seja trabalhando para o governo ou em qualquer outra situação humana do dia a dia.

                Portanto, colegas, sejam homens práticos e com habilidades práticas (seja lá o que isso possa significar para você), mas não abram mão da nossa maior vantagem enquanto espécie, o que nos torna tão especiais e tão humanos: a nossa incrível inteligência. A inteligência deve ser celebrada, não menosprezada ou diminuída.




                Um grande abraço a todos!
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sábado, 27 de dezembro de 2014

REFLEXÃO - OS VERDADEIROS RISCOS DA VIDA

37 comentários : Postado por soulsurfer às 11:49 Marcadores: Cultura Humana , Livros , Reflexões
                Olá, colegas. Período de festas, momento para se aproveitar com a família e também para se fazer reflexões. Ao conversar com familiares em reunião no natal, pude constatar como o conceito de risco é vital para a vida das pessoas. Quem gosta e sabe  um pouco de finanças sabe, ao menos intuitivamente, que o risco é uma peça fundamental nos investimentos de um indivíduo.  Espero que esse meu breve artigo possa trazer reflexões sobre os verdadeiros riscos aos quais estamos submetidos.

                É muito interessante refletir sobre como diversas pessoas, diversas sociedades e diferentes tempos históricos pensavam e se posicionavam em relação a riscos. Qual é o maior risco que uma entidade biológica sofre? A resposta é a cessação da existência, ou seja, a morte. Assim, o maior risco no qual  incorremos é o risco de morrermos. Porém, a morte é um fenômeno natural inescapável (pelo menos por enquanto), assim todos nós iremos morrer, se tivermos sorte, de velhice.  Portanto, talvez o risco não seja morrer, mas morrer cedo demais.  Contudo, para algumas pessoas ou sociedades, o único risco em relação à morte não é morrer cedo demais, mas sim morrer sem ter vivido uma vida digna sobre algum determinado padrão moral/ético.  Os míticos 300 guerreiros espartanos na batalha de Termópilas não se importavam tanto com uma morte prematura, mas sim se a morte deles seria digna ou não. Assim, o maior risco para esses soldados de Esparta não era a morte prematura, mas sim uma vida longa sem dignidade, tanto é assim que no filme “300” (atenção esse filme é apenas uma adaptação de uma história em quadrinho) o Rei Espartano momentos antes de sua morte aponta em direção a um traidor e diz apenas: “Ei, você, espero que viva para sempre”.  Essa breve digressão sobre morte e risco foi apenas para realçar como a concepção sobre quais são os maiores riscos para a existência de um ser humano vão mudando ao longo da história e dos povos, pois é difícil pensar num ocidental preferindo uma morte prematura com honra, mas não é tão inconcebível pensar nessa hipótese para jovens que escolhem o suicídio como forma de expressar uma determinada ideologia como no caso dos homens-bomba.

O filme "300" popularizou a grande batalha de Termópilas. Este livro (gostei muito) conta uma versão romanceada do episódio. É um bom passatempo para quando estiver cansado de livros técnicos.

                Em finanças, se lida com os mais variados conceitos de risco. Para alguns risco é a volatilidade do seu patrimônio.  A teoria mais bem sucedida em finanças das últimas décadas parte dessa pressuposição. Para outros riscos é a possibilidade de uma perda permanente do patrimônio. Risco também pode ser conceituado como a não possibilidade de ter acesso ao seu patrimônio quando se necessitar dele a não ser com perdas contábeis grandes, o que não deixa de ser um problema de liquidez (algo que assusta muitas pessoas, minha mãe inclusive). Risco pode ser conceituado também como não alcançar os objetivos financeiros propostos. Assim, se um jovem de 25 anos monta uma estratégia para se tornar independente aos 55 anos de idade, pode-se dizer que chegar aos 55 sem independência financeira é um risco. Todas essas definições são válidas e no meu entendimento complementares.  Vejo muito esses riscos sendo abordados por livros de investimentos, nos blogs sobre finanças, amadores ou não, e em minha opinião vejo excessiva preocupação com eles.

                Um grande pensador que admiro (ao final desse artigo posto novamente a entrevista) disse no programa Roda Viva da TV cultura algo que me marcou bastante. Ele disse que um ser humano precisa basicamente de “Food and Friends” (comida e amigos). Se nós interpretarmos FOOD como a nossa necessidade básica de acesso à comida, a uma moradia para nos proteger das intempéries, acesso a bens materiais mínimos para uma existência e FRIENDS como relações comunitárias, familiares e afetivas saudáveis, fica difícil discordar do que foi dito pelo Sr. Patch Adams.

                Talvez nossas sociedades modernas tem enfatizado muito no FOOD, na forma de um consumo cada vez maior por coisas, e pouco no FRIENDS. Assim, apesar de termos níveis de renda e consumo cada vez maiores, aparentemente tal situação está vindo acompanhada de um mal-estar social e um sentimento cada vez maior de isolamento. Não é o escopo desse artigo adentrar nessa sensível temática, mas sim chamar atenção que talvez todos os riscos financeiros aos quais estamos submetidos e que temos receio apenas destacam uma parte das nossas necessidades enquanto seres humanos.  Assim, será que o risco de não ser independente financeiro aos 55 para um jovem de 25 anos é tão importante como o risco de ter relações familiares desequilibradas? Ou o risco de viver em comunidades com relações violentas e meramente egoístas é menos desimportante do que ver o seu patrimônio flutuar negativamente num determinado ano? Eu acredito que não, e creio que essa miopia nos faz mal não só em nossas relações sociais, bem como em nossas próprias finanças pessoais.

                Ao concentrarmos nossos anseios e receios em demasia nos riscos financeiros, talvez deixemos escapar diversos outros riscos aos quais estamos submetidos. O risco de desenvolvermos relações familiares e sociais empobrecidas. Há também, em minha opinião, o risco de levarmos vidas muito abaixo dos nossos potenciais criativos enquanto humanos. Na bem da verdade, esses dois últimos riscos citados são os mais importantes para mim e é sobre eles que eu mais reflito a respeito ultimamente. Quer dizer que vou sair comprando OGX ou torrando dinheiro? Evidentemente que não, pois as finanças pessoais possuem a sua importância na vida de um indivíduo e por meio delas alguém pode vir a realizar muitas coisas interessantes nesse mundo. Entretanto, a possibilidade do mercado como FII cair ou não ser um bom investimento nos próximos 10 anos, não ser possível realizar uma viagem internacional, adiar uma aposentadoria, LCI/LCA serem tributadas, etc, etc são riscos que empalidecem frente a me imaginar daqui 20 anos com cinqüenta e poucos anos com relações familiares e sociais fragilizadas ou ter vivido uma vida muito aquém do que eu esperava ou me julgava capaz de fazer.

                É evidente que recear riscos financeiros não necessariamente nos leva a ter uma postura complacente com outras espécies de riscos, desde que tenhamos em mente que as finanças são um meio para outros objetivos humanos, e que não sejamos cegados pelos riscos financeiros.  Tudo na vida, e com os mercados financeiros não seria diferente, é arriscado, se consideramos risco a mudança do status quo. Aliás, esse é o princípio da vida, pois como já disse uma vez Heráclito de Éfeso há mais de 2.500 anos : “Não poderias entrar duas vezes no mesmo Rio”, sendo assim a vida é uma eterna mudança, ela é impermanente como diria Buda aproximadamente no mesmo período que Heráclito. Logo, o risco sempre será uma constante em nossa vida.

Representação artística de Heráclito. Nascido na bonita cidade de Éfeso na Turquia (uma das grandes atrações turísticas do mundo, em minha opinião).

                Não há o portfólio perfeito, não há as escolhas 100% corretas, e sempre haverá a possibilidade de perdas financeiras. Entenda, compreenda e aceite esse fato da vida e dos mercados financeiros. Procure formas de minimizar os seus riscos financeiros e de maximizar o potencial de chegar aos seus objetivos financeiros traçados, faça isso sabendo que nada é seguro ou garantido. Porém, o mais importante de tudo, não vire os olhos ou dê pouca importância para os verdadeiros riscos humanos que muito provavelmente farão, acaso tenha uma postura negligente, a se arrepender da vida que levou quando chegar ao fim a sua jornada na terra.

                Uma enfermeira Australiana chamada Bronnie Ware trabalhou durante alguns anos com pacientes terminais onde ela ministrava cuidados paliativos. Ela resolveu escrever um livro (não o li) sobre essa experiência de conviver com pessoas em estado terminal e sobre os maiores arrependimentos que essas pessoas sentiam ao se deparar com sua mortalidade, eis os cinco principais:

1. Queria ter tido a coragem de fazer o que realmente queria, e não o que esperavam que eu fizesse
2.Queria não ter trabalhado tanto
3.Queria ter tido coragem de falar o que realmente sentia
4.Queria ter retomado o contato com os amigos
5.Queria ter sido mais feliz

                Ninguém no leito de morte irá pensar se o Beta do seu portfólio foi adequado, se a sua rentabilidade foi abaixo de um benchmarket, se o seu poder de compra em moeda forte oscilou durante o período de vida ou que deveria ter juntado mais dinheiro e trabalhado mais. Apenas pensarmos nisso torna a cena esdrúxula, porém não devemos esquecer que constantemente fazemos isso ou somos induzidos a ter esse tipo de comportamento em nossas relações quotidianas.

Aparentemente, muitas pessoas em estado terminal acabaram sucumbindo a riscos muito mais fundamentais do que riscos financeiros, e com isso levando vidas não tão significativas ou abaixo dos seus potenciais humanos.

   Portanto, amigos, sempre é momento para refletirmos sobre os rumos de nossas vidas, bem como das nossas relações com companheiras, familiares, amigos, desconhecidos, porém final de ano parece ser uma época onde todos ao menos se esforçam um pouco mais nessa direção. Sendo assim, é muito salutar nos aprofundarmos sobre finanças, conhecermos os diversos riscos financeiros, procurarmos mitigá-los e nos tornarmos melhores investidores. Entretanto, nunca devemos esquecer que os riscos fazem parte da vida e que os verdadeiros riscos da nossa existência podem estar, e estão,  bem longe da tela sedutora e vibrante do seu Home Broker.

                O Blog Pensamentos Financeiros ultrapassou a marca de 100.000 page views em menos de um ano. Fico muito feliz com o feedback positivo recebido por muitos colegas virtuais, agradeço de coração todas as mensagens de apoio, elogio e de eventuais críticas construtivas.  Se eu não escrever mais nenhum artigo até lá, desejo a todos um bom ano novo!

Uma grande entrevista (como eu jamais vi em nenhum programa), com respostas provocadoras  que fazem pensar a respeito de muitas coisas.

                Grande abraço a todos!

                
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terça-feira, 23 de setembro de 2014

UNIVERSO - A INCRÍVEL HISTÓRIA DA RADIAÇÃO CÓSMICA DE FUNDO

22 comentários : Postado por soulsurfer às 20:08 Marcadores: Ciência , Cultura Humana
                Olá, colegas! O tema de hoje não tem absolutamente nenhuma relação com investimentos. Para mim as idéias contidas no artigo de hoje são sensacionais, são algumas ordens de grandeza mais interessantes do que mercados financeiros, rentabilidades, partidos políticos, e quaisquer outros assuntos mais comuns do nosso dia a dia. O assunto de hoje é sobre uma das descobertas mais incríveis da humanidade: a radiação cósmica de fundo.

                Alguém pode estar pensando: “O que eu lá quero saber sobre radiação cósmica de fundo, qual é a importância disso para mim? Aliás, what fuck is cosmic background radiation?” Calma para as duas perguntas colegas. Talvez esse assunto que me fascina não encante boa parte das pessoas, então você talvez possa parar a leitura aqui. Porém, eu creio que mesmo que o assunto talvez não interesse num primeiro momento o leitor mais avesso a temas científicos, a história sobre esse assunto é tão interessante que vale ao menos saber algumas coisas a respeito.  

               Quando comecei a escrever sobre finanças, já disse num dos primeiros artigos que eu não era profissional do assunto e não tinha formação formal, e que poderia cometer alguns equívocos. Sou apenas uma pessoa esforçada nesse assunto. Agora, com certeza eu não sei quase nada de Astrofísica, sou absolutamente leigo no assunto. Ora, se você não sabe nada por qual motivo está escrevendo então? Em primeiro lugar, porque esse aqui é o meu blog e posso basicamente escrever sobre o que bem quiser. Em segundo lugar, eu creio que talvez eu possa passar alguns conceitos, mesmo que de forma simples e leiga, para pessoas que ainda não tiveram nenhum contato com certas ideias científicas. Portanto, se houver algum físico entre os leitores, peço a gentileza que seja indulgente ao analisar esse texto.

                “Ok, Soul, desembucha logo aí o que é essa tal de radiação cósmica de fundo”, alguém pode estar pensando.  Não dá para dizer de antemão o que é sem ficar abstrato demais, então vamos começar literalmente pelo início: O BIG BANG. Porém, antes de falarmos um pouco sobre o início, é necessário esclarecer primeiramente alguns fenômenos físicos e um fato histórico. A luz possui uma natureza ondulatória e corpuscular, ou seja, a luz se comporta como se  fosse  ora uma partícula ora uma onda. Isso é um fenômeno complexo e está relacionado com física quântica, assunto que não irei abordar no artigo de hoje.  Estou mais interessado, por enquanto, em falar na natureza ondulatória da luz, ou mais precisamente nas frequências da radiação eletromagnética.

                Como assim? A luz que nós vemos nada mais é do que um faixa do espectro da radiação eletromagnética.  É mais fácil detalhar isso com um gráfico:


Todo fóton (partícula que transmite a força eletromagnética) emite radiação. O espectro da radiaçao eletromagnética é amplo e varia de ondas de intensa energia (raios gama) a ondas de energia muito baixa (ondas de rádio). A luz visível aos olhos humanos é uma parcela muito pequena do espectro.
              
               A imagem acima é auto-explicativa. A radiação eletromagnética pode existir em várias frequências ou seja, em vários comprimentos de onda. Quanto maior o comprimento de onda, menos energética (podemos dizer menos temperatura também para simplificar) fica a radiação, quanto menor o comprimento de onda, muito mais energética fica a radiação. A maior fonte energética que existe no Universo, pelo menos que se tem conhecimento, são raios gama. Raios gama extremamente energéticos são produzidos quando uma estrela com mais massa do que o nosso sol (é conhecido como limite de Chandrasekhar, não irei falar sobre isso hoje, mas posso fazer um artigo sobre o ciclo de vida de estrelas, inclusive possuo uma imagem gigantesca de uma nebulosa – berçário de estrelas – em minha sala) chega ao seu fim e explode em uma supernova liberando uma quantidade de energia muito grande incinerando tudo ao redor. Se alguma estrela próxima da terra explodir em supernova, a terra seria incinerada.

                Outra aspecto interessantíssimo, e com implicações filosóficas profundas em minha opinião, é que o olho humano apenas consegue captar uma faixa muito estreita da radiação eletromagnética, a chamada faixa visível de luz. Vejam na imagem que o limite é muito pequeno comparado com todo o espectro da radiação. Nós não conseguimos ver um raio-x ou um infravermelho, por exemplo. Assim, a nossa compreensão, a nossa capacidade de observar o universo e a realidade sempre será limitada. Isso deveria nos trazer mais humildade em muitas coisas na vida, pois não há ser humano que não seja limitado na sua percepção da realidade.

                Outro fenômeno que precisa ser esclarecido é o chamado efeito Doppler.  Para de uma maneira simples explicar esse fenômeno também recorro a uma imagem:

                               

                Segundo o efeito Doppler, toda vez que uma fonte que produz alguma onda (no caso da imagem é uma onda sonora produzida por um avião) se movimenta em direção a um observador (na imagem o homem em destaque), o observador tem a impressão de que a freqüência das ondas aumenta (diminuindo o seu comprimento), tornando o som mais agudo. Quando a fonte sonora está se distanciando de um observador (no caso da imagem o homem mais ao fundo), este mesmo observador tem a impressão de que a freqüência das ondas diminuiu (aumento o comprimento de onda), tornando o som mais grave. Quando ouvimos uma sirene com um som mais grave se afastando e um som mais agudo ao se aproximar, isso nada mais é do que o efeito Doppler.

                                    
                O efeito Doppler não é limitado apenas a ondas sonoras, ele se aplica a quaisquer tipos de ondas (não saberia dizer se a ondas gravitacionais também, mas isso já é um tema para lá de complexo), e a radiação eletromagnética também sofre efeito Doppler. O que acontece quando é uma fonte de radiação eletromagnética? Acontece exatamente o que a imagem mostra, se a fonte de luz se afasta o comprimento de onda aumenta e a radiação se torna menos energética e isso significa que ela se desvia para o espectro vermelho da radiação (radiações menos energéticas). Se a fonte de luz estiver se aproximando, o comprimento de onda diminui e a radiação sofre um desvio para o espectro azul da radiação eletromagnética (radiações mais enérgicas). Assim, fontes de luz que estão se distanciando apresentam um “desvio para o vermelho”, fontes de luz que estão se aproximando apresentam um “desvio para o azul”. Essa informação é essencial para entender a descoberta fabulosa de um dos maiores cientistas do século passado, o Sr. Edward Hubble.

                                       

                Hubble, sim o nome do famoso telescópio foi uma homenagem a esse brilhante homem, fez uma descoberta extraordinária no final da década de 20, aliás, foram duas descobertas. A primeira e impressionante contribuição desse homem foi descobrir que havia muitas outras galáxias no universo, a nossa galáxia não era a única. Por milênios o homem pensou que vivêssemos num universo-ilha, sendo que a nossa galáxia era a única. Homens geniais como Galileu, Newton, Kepler, morreram tendo essa ideia na cabeça. A descoberta de que a nossa galáxia era apenas uma entre várias outras já seria assombrosa. Porém, o Sr. Hubble descobriu algo ainda mais extraordinário: o universo estava se expandindo e isso caiu como uma bomba, pois até mesmo Einstein apreciava a ideia de um universo estacionário.

                Como Hubble chegou a esta conclusão? Ao fazer inúmeras observações das diversas galáxias que ele conseguiu catalogar, ele observou que todas possuíam desvio para o vermelho, quer dizer todas as galáxias que ele observou (em relação a nossa galáxia creio apenas que a galáxia vizinha de Andrômeda há desvio para o azul, ou seja a galáxia vizinha está se aproximando não se distanciando, devido à força gravitacional entre as duas galáxias, mas isso é uma exceção devido à proximidade de ambas) estavam se afastando da nossa galáxia. Outro fenômeno interessante foi que ele percebeu que quanto mais distante a galáxia, mais acentuando era o desvio para o vermelho, ou seja, a galáxia se afastava da nossa galáxia com uma velocidade de recessão maior.

                                   
O famoso quadro de Hubble que deu origem a lei de Hubble. Quanto mais distante está a galáxia (eixo X), mais veloz é a velocidade de recessão (eixo Y).
                                   
Imagens de galáxias muito distantes e o desvio para o vermelho.

                Isso deu origem a famosa lei de Hubble que diz que a velocidade de recessão de uma galáxia  é igual ao produto da distância e de uma constante que se chama de constante de Hubble: V elocidade = Constante de Hubble x distância. Essa descoberta extraordinária chacoalhou com o mundo da física, a ideia milenar de um universo estático, atemporal e infinito estava próxima de sofrer um profundo abalo.


                                             
O grande astrônomo Hubble. Suas descobertas na década de 20 modificaram por completo o entendimento sobre o universo.

               
              Não demorou para alguém raciocinar que se as galáxias estavam se afastando uma das outras, isso queria necessariamente dizer que em períodos pretéritos de tempo as galáxias deveriam estar mais próximas. Se rebobinássemos o filme da história do universo por um período suficiente de tempo, era lógico e intuitivo pensar que todas as galáxias em um determinado período estivessem todas juntas adensadas num único ponto de densidade infinita e temperaturas que vão alem da nossa imaginação. "Soul como pode existir algo com densidade infinita", alguém pode pensar? Eu não faço a mínima ideia. Na verdade, nem os cientistas sabem, é a chamada singularidade, um fenômeno onde as leis da física parecem não fazer sentido. Outra singularidade no universo é os chamados buracos negros, o tema é tão interessante que merece um artigo próprio. Os cientistas atualmente conseguem modelar períodos cada vez mais próximos do instante original, mas quanto mais próximo se chega do instante original mais as equações vão perdendo o sentido. A teoria M (relacionada a teoria das supercordas), também conhecida como Teoria do Tudo, tenta lidar com essas singularidades. O problema de uma singularidade é que é uma região, ou fenômeno, onde grande quantidade de energia está restrita num espaço muito pequeno. Espaços pequenos são diretamente afetados por fenômenos quânticos, algo muito bem explicado pela física quântica. Grandes energias (ou objetos massivos) são bem explicados pela teoria da relatividade geral de Einstein. Quando se coloca grande energia num espaço reduzido (imagine num lugar com densidade infinita) as equações tanto da mecânica quântica, como da relatividade geral perdem o sentido. A Teoria M é um esforço para tentar unificar esses dois campos e fazer uma teoria que possa explicar o funcionamento do universo. Porém, estou me afastando do tema do artigo.

Representação do BIG BANG. Da singularidade, ao resfriamento, formação dos primeiros núcleos atômicos, depois dos primeiros átomos, depois das proto-galáxias e por final das galáxias.

           A teoria fazia sentido, mas havia alguma prova de que ela era verdadeira além da observação do astrônomo Hubble? Sim, havia uma prova teórica, e finalmente chegamos a radiação cósmica de fundo.  Para entender o que seria essa radiação, é preciso falar um pouco sobre temperatura e densidade. Quando estamos com frio e temos uma companheira para poder abraçar, não nos sentimos mais quentes quando nos abraçamos e ficamos mais próximos? Não sei se alguém já viu um filme muito bonito chamado “A Marcha dos Pingüins” . A forma da espécie de pingüim retratada no filme sobreviver aos invernos rigorosos de seu habitat é ficando amontoado com outros pingüins para de alguma forma manter a temperatura. Isso é um fenômeno físico. Quanto mais denso vai ficando um ambiente, ou seja mais matéria concentrada num ponto, maior é a temperatura. Como toda energia estava concentrada num ponto de densidade infinita pela teoria do BIG BANG, a temperatura era infinita. A partir do momento que houve a “explosão” inicial (eu coloco entre aspas, pois o termo explosão não é cientificamente correto,  é uma  aproximação para nós leigos podermos entender) e o espaço começou a se expandir, a temperatura começou a cair, pois a densidade começou a diminuir também, menos matéria/energia concentrada, mais volume de espaço, menor temperatura.


                Essa relação entre expansão do espaço, matéria e temperatura é fundamental e envolve muitos pontos de interesse como: a formação das forças fundamentais, o processo de nucleossíntese fundamental (que ocorreu nos três primeiros minutos, há um livro bem conhecido mais técnico chamado “Os três primeiros minutos”) e depois de 380.000 anos a formação dos primeiros átomos. Todos esses temas são interessantíssimos e todos eles poderiam facilmente ser abordados num artigo específico. Entretanto, o que quero retratar é a relação entre a expansão do universo e a diminuição da temperatura.

                Um físico ucraniano chamado George Gamow junto com o americano Ralph Alpher no final da década de 40 por meio de demonstrações matemáticas chegaram à conclusão de que quando houve o início do universo pelo BIG BANG (os detalhes são mais complexos do que isso, simplifico aqui) havia fótons (fótons é a parte corpuscular da luz, lembre-se que a luz pode ser tanto onda como matéria, é conhecido como o princípio da dualidade da luz, e é difícil de entender como algo pode ser onda e matéria ao mesmo tempo, mas depois de ler a respeito vai ficando um pouco mais claro) que a partir de certo momento (mais precisamente depois de 380 mil anos quando o universo se esfriou até uma temperatura onde foi possível que elétrons e bárions se combinassem para formar átomos) deixaram de interagir com o plasma extremamente quente de bárions e elétrons e passaram a viajar livremente pelo espaço em expansão (se essa parte foi um pouco mais confusa, peço escusas).

                Gamow e Alpher concluíram que esses fótons deveriam ainda existir no universo, deveriam emitir radiação eletromagnética em comprimentos longos de onda (ou seja, deveriam ter uma temperatura muito baixa, já que poucos energéticos) e deveriam estar em todos os lugares do universo. Esse último detalhe é importantíssimo. Se toda a energia estava concentrada num único ponto e o universo expandiu-se, pressupõe-se que o universo é homogêneo, ou seja, idêntico em todos os lugares.

George Gamow, um grande físico que deu uma contribuição imensa para o aprofundamento da nossa compreensão sobre o universo.

                Apesar da sagacidade da teoria dos dois físicos, não houve nenhum empenho da comunidade científica em tentar descobrir essa radiação eletromagnética residual do BIG BANG. Por quase duas décadas, essa ideia foi simplesmente esquecida. Então, o inesperado aconteceu, o cisne negro da física moderna se materializou, numa das maiores descobertas ao acaso feitas pela humanidade.

                Dois radio-astrônomos  chamados Arno Penzias e Robert Wilson estavam trabalhando para a Bell Telephone Company numa antena de rádio construída pela empresa. O objetivo deles era estudar sinais de rádio vindo de galáxias. Ao prosseguir com as medições, os dois cientistas notaram que havia a persistência de um ruído. Para qualquer lugar que eles apontassem a antena o ruído continuava. Eles tentaram de tudo, inclusive reza a lenda que eles pensavam que o ruído era fruto de bosta de pombos nas antenas, mas o ruído persistia (não adiantou limpar os dejetos das aves da antena).  O ruído que eles encontraram era a radiação cósmica de fundo, era um fóssil do início do universo e a prova mais contundente até então da existência do BIG BANG.

               Se vocês voltarem na primeira imagem que coloquei nesse artigo, irão perceber que há um comprimento de onda associado à emissão energética de microondas. Há também uma temperatura associada.  Qualquer fóton emite radiação eletromagnética. Dependendo do nível de energia do fóton ele emite radiação eletromagnética de uma determinada freqüência. Como dito, Gamow e Ralph previram que deveria haver fótons espalhados por todo o universo emitindo uma radiação residual (residual ao Big Bang) em microondas. Eles erraram apenas por poucos graus a temperatura da emissão, a temperatura da radiação cósmica de fundo é de 3K (0K é conhecido como zero absoluto) ou -270 ºC. Portanto, Penzias e Wilson tinham encontrado uma radiação em microondas existente em qualquer lugar que eles apontassem a antena, a conclusão era apenas uma: tinha-se encontrado o fóssil do BIG BANG previsto há mais de 20 anos.

Penzias e Wilson. A descoberta acidental mais profunda da história da humanidade.

                Recentemente, telescópios cada vez mais sensíveis tem captados cada vez mais imagens espetaculares do nosso universo. A imagem abaixo é do telescópio Planck, uma imagem vale mais do que milhões de palavras:

Radiação cósmica de fundo. As diferenças de cor são variações minúsculas de temperatura (eu creio que é uma parte por mil), provando que a radiação é homogênea em todo o universo.

                Dizem que os dois não sabiam o que encontraram, e só foram avisados depois por físicos que eram familiarizados com os trabalhos de Gamow e Ralph.  Porém, o fato objetivo é que essa descoberta inesperada mudou os rumos da ciência e  valeu a Penzias e a Wilson o nobel de Física no ano de 1978. Gamow já era morto e não podia receber o Nobel, mas Ralph ainda era vivo e simplesmente foi esquecido pelo prêmio nobel, num dos atos que viria a ser considerado uma das maiores injustiças na história da premiação. Essa história também não deixa de ser humana com contornos de tragédia. Mostra que nem sempre aquela pessoa que teve uma ideia original é reconhecida ou premiada e que outros às vezes podem levar os louros da vitória, nem sempre havendo justiça nos resultados. O vídeo abaixo da muito boa (principalmente para leigos) série "Poeira das Estrelas" que o físico brasileiro Marcelo Gleiser (recomendo muito os livros dele, eu já li uns 3 ou 4 acho), mostra em mais detalhes essa história. Inclusive uma entrevista do Gleiser com o grande físico Ralph Alpher num retiro para idosos antes do mesmo falecer. Vale muito mesmo assistir o vídeo.

Vídeo de um episódio do seriado "Poeira das Estrelas". Ralph Alpher, um dos físicos que contribuiu para a humanidade ter um conhecimento mais profundo sobre o universo, esquecido nos últimos anos de vida num retiro para idosos. A vida pode ser injusta às vezes.

              É isso amigos. O artigo foi longo, talvez poucos cheguem até o final, mas aqueles que o fizeram creio que não se arrependeram, pois a história da radiação cósmica de fundo, do nosso universo e em última instância de nós mesmos é algo surpreendente e belo. Você mesmo pode "ver" a radiação cósmica de fundo. Sabe aquele chiado que fica nas televisões, ou pelo menos ficava, quando a transmissão terminava? Pois é, esse chiado nada mais é do que a radiação cósmica de fundo. 

Você já tinha imaginado que ao ver essa imagem estava na verdade olhando para uma das provas do início do Universo?

                 Grande abraço a todos!
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quarta-feira, 21 de maio de 2014

REFLEXÕES - OS TRÊS GOLPES DA CIÊNCIA CONTRA O EGO HUMANO

42 comentários : Postado por soulsurfer às 10:39 Marcadores: Ciência , Cultura Humana , Reflexões
            "O mundo é o meu país, toda a humanidade é a minha raça, e fazer o bem é a minha religião" Thomas Paine    

                Olá amigos! Continuando os artigos sobre temas mais gerais, hoje pretendo falar um pouco sobre ciência e ego humano. Primeiramente, devo explicitar que entendo como ego humano a nossa percepção de que somos especiais no universo, na natureza e na individualidade. O tema é vasto, complexo e polêmico. Aqui farei apenas algumas breves reflexões.


I -  PRIMEIRO GOLPE – A ILUSÃO DE SERMOS O CENTRO DO UNIVERSO DESTRUÍDA


                Não vou aqui descrever a história das idéias sobre o fato da terra ser o centro do universo (há pessoas com muito mais competência que já fizeram isso, sendo facilmente obtido na internet), mas essa era a ideia a prevalecer por mais de mil e quinhentos anos na humanidade.  Foi preciso que um polonês, Nicolau Copérnico, e posteriormente um italiano, Galileu Galilei, para que esse conceito central na vida humana até então fosse questionado.  Galileu, no que ia ser para sempre considerado um dos episódios que ilustram como o conhecimento humano pode ser barrado por questões outras do que a verdade, foi obrigado a se retratar perante a Igreja Católica, pois suas afirmações contrariavam passagens literais da Bíblia, mas pior do que isso colocavam em cheque a posição central da terra e do homem no universo.

                Com o avanço da ciência nos últimos séculos, a ideia de que a terra fosse de alguma maneira o centro do universo foi descartada, pois  estamos na verdade na periferia de um dos braços da nossa galáxia. Na bem da verdade, quem conhece um pouco sobre teoria cosmológica, sabe que o conceito mais aceito hoje é que o universo não possui um centro, na verdade qualquer ponto pode ser considerado o seu próprio centro, já que o universo está se expandindo e as galáxias se afastam uma das outras conforme o espaço é criado (esse é um conceito um pouco difícil de entender, o universo não se expande por algo que já existe, na verdade o próprio espaço é criado com a expansão do universo).

                Assim, a humanidade, principalmente as religiões institucionalizadas, teve que aceitar o fato de que a terra não era o centro do universo, longe disso. Esse primeiro golpe no ego humano não foi tão duro para a maioria das pessoas, pois se trata de algo mais abstrato, pouco relacionado com a vida prática.  O segundo golpe da ciência seria muito mais duro de aceitar, o que de fato ainda não é aceito por boa parte da humanidade.

 Galileu Galilei foi um dos grandes homens a andar pela terra. Ele inicia uma nova forma de se pensar o mundo, o que iria desembocar na criação do método científico moderno.
Não estamos nem no centro da nossa Galáxia, o que dirá do Universo (que aliás não tem centro).


II – SEGUNDO GOLPE – A ILUSÃO DA ESPÉCIE HUMANA SER O ESTÁGIO FINAL EVOLUCIONÁRIO E POSSUIR UMA POSIÇÃO ESPECIAL DESTRUÍDA


                O ano é 1859 e um livro com o sugestivo nome de “On the Origin of Species by Means of Natural Selection, or the Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life “(Sobre a Origem das Espécies por Meio da Selecção Natural ou a Preservação de Raças Favorecidas na Luta pela Vida) foi publicado (apenas na sexta edição o livro teria o título de “A origem das espécies”, como é mais conhecido).  Há algum debate na história da ciência se Charles Darwin foi original ou não em sua abordagem, mas tal tema foge do escopo desse breve artigo. O ponto é que as idéias contidas nesse livro são absolutamente revolucionárias.

                A explicação para a variedade da vida não necessitaria ter mais uma causa sobrenatural (ou seja fora da natureza). A própria natureza continha a explicação para sua própria complexidade. Isso, amigos, é absolutamente assustador para nós humanos que possuímos uma tradição de milhares de anos de explicação do mundo, e principalmente da vida, pelo uso de mitos da criação. O mais provocador, também por ausência de conhecimento técnico não vou discutir a teoria em si – recomendo os livros do genial Richard Dawkins para isso -, é que a evolução das espécies acontece de maneira aleatória, não há nenhum significado ou objetivo especial (além da adaptação) da evolução. Logo, o homem é apenas produto de alterações genéticas aleatórias, não é fruto de algum desígnio especial da natureza. Sendo assim, a humanidade não possui um caráter especial enquanto espécie, ela é apenas mais uma dentre tantas outras espécies, algumas delas com grau de complexidade fisiológica muito parecida com a espécie humana.

                Talvez boa parte das pessoas não reflita tanto sobre isso, ou não entendam o real alcance dessa descoberta. Minha mãe, por exemplo, fala desde que sou criança que não consegue entender a complexidade das adaptações dos seres vivos, que isso só poderia ter uma explicação fora da natureza.  É um sentimento extremamente natural, afinal tudo parece estar tão conectado que não poderia ser obra do acaso, seria imprescindível a existência de algum desígnio inteligente prévio (sim é a teoria do criacionismo sob a  roupagem moderna do "desígn inteligente"). Acontece que essa complexidade começou a ser desvendada por Charles Darwin, e nenhuma explicação sobrenatural foi ou é requerida.  Isso é um tremendo golpe em muitos conceitos extremamente arraigados nas nossas culturas, e em nossas religiões institucionalizadas, principalmente as ocidentais.

                Se o homem não é A espécie, mas apenas mais uma espécie, o que poderia justificar todo um sistema de dominação da espécie humana sobre outras espécies não-humanas, a não ser o poder? Se assim o é, qual é a diferença fundamental do uso do poder para subjugar outras espécies do uso do poder para subjugar membros da espécie mais fracos? Se o homem é apenas uma espécie entre tantas outras fruto de mutações aleatórias, como justificar mitos de criação, absolutamente centrais para tantas instituições religiosas ou não, onde o homem aparece como algo apartado das demais espécies? O pior talvez seja a questão da finalidade, porque se somos frutos de alterações aleatórias, se a evolução não necessariamente deveria culminar com a espécie humana (a evolução, pela sua aleatoriedade poderia ter tomado diversos caminhos), como fica a questão do sentido da existência? Será que realmente há algum sentido sobrenatural, algum sentido que fuja do próprio contexto natural? Do ponto de vista racional, é muito difícil justificar essas posições tão arraigadas em nossa cultura.  É por isso que esse golpe desferido pela ciência contra o ego humano é muito forte e profundo, pois mexe com crenças e suposições extremamente internalizadas em nós.

                Eu, particularmente, não me sinto tão atingido. Aliás, eu vejo com satisfação essa história narrativa da vida. Isso apenas serve para que nós, espécie dominante do planeta, tenhamos respeito por toda e qualquer forma de vida, pois nós temos uma ligação ancestral com toda forma de vida que existe hoje no Planeta Terra. Não há nenhuma forma de vida que não guarde algum ancestral em comum com os seres humanos. Isso é muito bonito, pois faz com que nós possamos nos sentir conectados com toda a vida nesse planeta, mesmo no nível mais fundamental. Além do mais, ao admitir que organismos extremamente simples do ponto de vista biológico possam evoluir para organismos extremante complexos como cachorros, golfinhos, homens, é muito mais surpreendente, misterioso e fascinante do que a explicação de um ser extremamente complexo criando seres menos complexos.

                Esse golpe ainda não foi digerido pela humanidade, se é que um dia será, mas há outro golpe em gestação, esse sim capaz em colocar em xeque absolutamente tudo que acreditamos ser mais fundamental a existência individual de cada ser humano.
               
  Esse livro marca o início de um novo entendimento sobre a vida no nosso planeta. É realmente revolucionário.
Pela ciência atual, todos esses seres vivos, por mais diferentes que sejam, são nossos parentes. Não é apenas "somos todos macacos", até porque o homem não evoluiu dos macacos, mas sim há um ancestral em comum entre os macacos e os cinco grandes primatas (homens, bonobos, chimpanzés, gorilas e orangotanos - em ordem decrescente de parentesco genético).


III – TERCEIRO GOLPE – EM ANDAMENTO – A ILUSÃO DE TERMOS CONTROLE SOBRE O QUE PENSAMOS E DECIDIMOS SENDO COLOCADA EM XEQUE

               
                     Quem é você? Quem é o Soulsurfer? Há algo que me distingue de outros seres humanos, há alguma coisa dentro de mim que me torna especial, algo que possa ser chamado de “Eu” em oposição aos “outros”? Se este “Eu” existe, é ele que está no controle ou alguma outra “coisa” está na verdade do controle da minha existência? O tema não é novo, é discutido há milhares de anos pelas maiores mentes que a humanidade já criou, e nunca se chegou a um consenso. É a dicotomia mente x cérebro, corpo x alma.

                Até pouquíssimo tempo atrás, tal discussão a toda evidência estava restrita a conversas metafísicas, longe do alcance do método de verificação científico. Entretanto, tal situação está mudando drasticamente com o avanço da neurobiologia e os processos de mapeamento do cérebro.  Hoje, a ciência está conseguindo olhar o nosso cérebro e testá-lo nas mais variadas situações. É um dos temas que atualmente eu mais aprecio ler ou me informar a respeito.  As descobertas são inúmeras e potencialmente reveladoras da limitação do papel de um “Eu”.

                Não vou me aprofundar, pois o tema é amplo e complexo. Entretanto, há descobertas cada vez mais incontestáveis que as nossas decisões são feitas antes de termos consciência delas (lhttp://www.humanasaude.com.br/novo/materias/2/c-rebro-indica-decis-o-futura-at-10-segundos-antes-de-ela-atingir-consci-ncia_5694.htm). No fantástico livro do Eduardo Giannetti “ A ilusão da Alma”, são descritos diversos estudos. Há um muito interessante sobre um pedófilo que foi preso, e se descobriu que ele tinha um pequeno tumor numa área do cérebro. O tumor foi retirado, o mesmo foi solto, e por alguns anos não se envolveu em mais nenhum ato de pedofilia.  Entretanto, o mesmo foi pego novamente num ato de pedofilia, e se descobriu que o mesmo tumor na mesma região do cérebro havia voltado. É difícil nesse caso específico achar um "Eu" para ser responsabilizado. As implicações sobre os nossos julgamentos morais e jurídicos são absolutamente profundas.

                   Há estudos que mostram que determinadas áreas do cérebro quando estimuladas eletricamente provocam a sensação da presença de uma entidade extracorpórea (o que pode explicar os mais variados fenômenos religiosos no curso da história), há outra parte do cérebro que quando estimulada provoca a sensação de separação da pessoa com o próprio corpo. Enfim, o tema é muito vasto e apaixonante.

                A tese central é que talvez não haja uma separação entre cérebro e mente, e que nossos processos mentais nada mais são do que processos físicos/químicos que acontecem no interior de nosso cérebro sem qualquer participação do meu “Eu”. Na verdade, a própria noção de um “Eu” está sendo colocada em xeque com esses experimentos. Tudo está numa frase embrionária, o que descobriremos daqui 50/60 anos é um grande mistério, mas se realmente nossa consciência não está no controle de quase nada, isso será um tremendo golpe contra o ego humano. Como os humanos lidarão com isso, apenas meus bisnetos talvez possam responder. É necessário salientar que muitas pessoas estão utilizando esse tipo de conhecimento para objetivos muito práticos. Há dois campos novos de análise que não param de crescer: neuroeconomia e neuromarketing.  Eu quando leio a respeito dessas duas novas fronteiras fico assustado, pois cada vez mais e mais as propagandas serão feitas, e os produtos serão designados e produzidos, para atingir diretamente regiões muito específicas dos nossos cérebros, onde a nossa consciência não terá a menor chance de resistir. 

Já falei sobre o Giannetti. Sou suspeito, pois o acho um dos maiores intelectuais vivos do Brasil. O livro é tão bom que li duas vezes. Recomendo.

                É isso colegas, de uma espécie especial que ocupava o centro do universo onde a consciência/mente/alma era o centro de nossa existência, a ciência vai cada vez nos mostrando que somos uma entre muitas espécies habitando ao redor de uma estrela periférica em uma galáxia qualquer (dentre centenas de bilhões de outras galáxias, e talvez até de infinitos universos – é a teoria do multiverso), onde nem mesmo temos controle consciente sobre as nossas decisões. Ao invés de nos tornamos depressivos e melancólicos com essas descobertas, talvez possamos usá-las para sermos menos egocêntricos, mais amorosos com os outros animais da nossa espécie e de animais de outras espécies, e mais humildes para admitirmos que somos muitos pequenos perto da complexidade da vida e do universo.


                Um grande abraço a todos!
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